Por Machado de Assis (1872)
— Nunca lho deste a entender?
— Oh! nunca.
— E ele?
— Percebi que me queria. Brincava comigo, como quando eu era criança: nada mais.
— E resignavas-te à sorte?
— Que poderia fazer senão isso? Alguma esperança tive nestes últimos tempos; em que a fundava, não sei; talvez na circunstância de nos vermos mais a miúdo. Enganava-me; penso que não nasci para ser feliz.
— Quem sabe? disse a viúva. Nem sempre o nosso coração acerta; pode ser que mais tarde te apareça outro a quem ames do mesmo modo . . .
— Do mesmo modo? interrompeu Raquel com surpresa.
Lívia pegou-lhe nas mãos.
— Não te parece que assim seja? perguntou.
— Oh! não. Chame-me criança, se lhe parece; a senhora há de saber mais do que eu, naturalmente; mas o meu coração me diz que eu não poderia amar a ninguém mais.
— A ninguém mais! murmurou a viúva amargamente. Concentraste então toda a seiva do teu coração, neste amor silencioso e quimérico? Não digas isso; amarás mais tarde a outro que te amará também, e serás feliz, creio eu. Murchará esta primeira flor do teu coração, mas, há seiva nele para dar vida a outra flor, tão bela talvez, e com certeza mais afortunada. O contrário, Raquel, seria injustiça de Deus. O amor é a lei da vida, a razão única da existência. Encher de uma só vez a alma, sem que ninguém lhe beba o licor divino, e regressar ao Céu sem ter conhecido a felicidade na Terra? nem o quererá Deus, nem o temerás tu. Falas pela boca da tua amargura de hoje; espera a ação do tempo, que é bom amigo.
Raquel meditava. Era a primeira vez que ela ouvia falar daquele modo em cousas do coração. A linguagem da viúva servia-lhe a um tempo de consolação e de luz. Lívia falou ainda muito tempo, sem preconceito nem reserva; não falou como rival, senão como amiga e mãe. Não reparava sequer que lhe dava armas contra si. Falaria talvez de outro modo se se considerasse feliz; mas, como a situação de ambas era igual, ela entornou na alma de Raquel todo o sentimento de que a sua alma estava cheia, e foi eloqüente, porque foi sincera.
— Sim, disse Raquel, quando ela acabou; compreendo tudo isso que me está dizendo. A senhora sabe amar. . E ainda o ama, não?
Lívia calou-se.
— Que lhe custa dizer? insistiu a donzela.
— Custa-me lágrimas. Eu não te poderia explicar nunca este sentimento que me nasceu como erva ruim para me envenenar a existência, e que eu tanto tempo supus que seria a coroa de minha vida ... Não te quero enfadar, que são tristezas para isso.
— Mas então ele? aventurou Raquel.
— Não me perguntes mais; afirmo-te só que o amei, que talvez tornasse a amá-lo...
— E que ainda o ama, concluiu a rival.
Lívia esteve calada alguns, instantes, procurando ler-lhe no rosto, apesar das sombras da noite, as impressões que lhe iriam na alma.
— Não! já o não amo! disse a viúva com esforço.
Seguiu-se um longo silêncio.
— E se o amasse, disse enfim Lívia, que farias tu?
— Nada! respondeu resolutamente Raquel.
— Deveras, nada?
— Pediria a Deus que a fizesse feliz, e estou certa que Deus me ouviria.
— Era capaz disso? perguntou a viúva segurando-lhe nos pulsos e fitando lhe os olhos em cheio.
— Era, respondeu ingenuamente a donzela.
Lívia não disse palavra. Se das comoções da sua alma algum vestígio lhe subiu ao rosto, disfarçou-lho a noite as vistas de Raquel. Ambas ficaram pensativas algum tempo. Uma forte rajada fê-las estremecer. Era sinal de chuva próxima; nuvens negras começavam a povoar o céu. As duas recolheram-se a casa.
— Vales mais do que eu, dizia a viúva entrando com Raquel na sala. Eu sou apenas egoísta; egoísta e nada mais. Guarda essas flores evangélicas do sacrifício, do perdão e do amor. São raras; e por isso e que és um anjo. Foi diferente a noite que ambas passaram.
Raquel estava mais tranqüila depois da conversa no jardim mas que destino teria a flor de sua alma, lírio transformado em goivo, vivido de lágrimas, medrado no silêncio? Não lhe apeteciam lutas. Faltavam-lhe as armas de combate: - a astúcia ou a energia; faltava-lhe principalmente o desejo de despertar um coração que sabia não ser seu.
Mas esse coração possuía-o acaso Lívia? Parecia-lhe que não; o mistério, porém, a reticência, a indecisão das palavras da rival, tudo se lhe afigurava cobrir um drama que ela não compreendia nem conjeturava.
No ânimo de Lívia outras foram as preocupações. Para ela, a situação era mais clara. Sentia desvanecer-se o amor de Félix, e via surgir uma rival perigosa. Tinha medo da ignorância de Raquel; receava que a inocência dessa alma ainda em flor pudesse dominar o espírito rebelde de Félix; e tal seria a catástrofe das suas esperanças.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.