Por Padre Antônio Vieira (1670)
Já temos mostrado ao amor que pode ser amor e grande amor o aportar-se. Agora abra mais os olhos o mesmo amor, e veja que não só é amor, e grande amor, senão o maior de todos: In finem. Em uma hora, que era representação desta mesma hora, como notou S. Bernardo, estando a esposa em um horto que também era figura de outro horto, pediu-lhe o Esposo divino que cantasse alguma letra, porque a queriam ouvir seus amigos: Quate habitas in hortis, amici auscultant fac me audire vocem tuam5. Os amigos que escutam somos nós; o esposo é Cristo; a esposa é a Igreja; qual será a letra? Cantou a esposa em verso pastoril o que S. João em prosa evangélica. Toma a esposa uma cítara na mão, e tocando docemente as cordas, cantou assim: Heu, fuge dilecte mi: Ai, ide-vos amado meu: Assimilare capreae hinnuloque cervorum super montes aromatum:6 Porti como cervo ligeiro, deixai os vales da terra, idevos para os montes do céu. – Disse a esposa, quebrou a cítara, e emudeceu para sempre. Assim foi, porque este é o último verso e a última cláusula do último capítulo dos Cânticos. Todos sabemos que a matéria dos Cânticos de Salomão é a história do amor, ou dos amores de Cristo com sua esposa, a Igreja. Pois, esposa santa, este é o fim com que dais fim à história do amor de vosso esposo? Ou quereis encarecer o seu amor, ou o vosso, ou o de ambos? Se o seu, dizeis-lhe que se vá? Se o vosso dizeis-lhe que vos deixe? Se o de ambos, concluís com o aportamento de ambos? Sim, porque este é o último fim, este é o último extremo a que pode chegar o amor: aportar-se quem ama de quem ama. Enquanto não chegou a este ponto, sempre a sabedoria de Salomão teve mais e mais que escrever dos extremos do amor de Cristo; mas tanto que disse: Heu, fuge, tanto que disse que havia Cristo de deixar o mundo, tanto que disse que se havia de aportar dos homens por amor dos homens, Salomão suspendeu a pena, a esposa quebrou a cítara, o amor rompeu o arco, e aqui deu fim a história de suas finezas, porque até aqui pode chegar o amor, e não pode passar daqui. Salomão acabou o livro, e S. João pôs o finis: In finem dilexit eos.
E se não, comporemos este fim com os princípios do mesmo amor. Nos princípios do amor, as finezas do esposo eram buscar a esposa por montes e vales: Ecce ipse veniet saliens in montibus, transiliens colles;7 nos princípios do amor, as finezas da esposa eram ter o esposo sempre consigo, e não se aportar um momento dele: Inveni quem diligit anima mea, tenui eun, nec dimittatem.8 Porém depois que o amor principiante passou a amor perfeito, depois que o amor proficiente chegou a amor consumado, já as presenças se trocam pelas ausências, e todos os extremos do amor se reduzem a quê? A um ai! E um ide-vos: Heu! Fuge! O heu significa a dor; o fuge o aportamento; o heu significa a violência, o fuge a resolução; o heu significa o afeto, o fuge o sacrifício; o heu significa o amor; o fuge a fineza e o extremo. Heu e fuge: Ai! e idevos? Oh! que extremos tão encontrados! Non optando loquitur; diz Bedá.9 Mas destes dois extremos tão encontrados se compunha o extremo do amor de Cristo, e o encontro e repugnância destes dois extremos eram os torcedores que nesta hora de sua portida lhe portiam o coração. O afeto pedia que ficasse, a conveniência instava que se fosse: Expedit vobis, ut ego vadam;10 mas como o afeto era seu, e a conveniência era nossa, pôde mais a conveniência que o afeto. Vença a conveniência, pois é vossa, pelo que tem de vós; corte-se pelo afeto, pois é meu, pelo que tem de mim, e seja este o último fim e o extremo último do meu amor: Heu! fuge dilecte mi: Infinem dilexit eos.
§III
Desde Adão e Eva, o amor do que se ama prova-se pelo amor do que se deixa. Jacó e Raquel, figuras de Cristo e da Igreja. Cristo, não tendo mais em si, ou fora de si, o que deixar por amor dos homens, só podia deixar por amor dos homens os mesmos homens.
Só resta para inteira satisfação do amor, que lhe demos a razão desta altíssima filosofia. Qual é a razão por que aportar-se Cristo de nós, e aportar-se quem ama de quem ama é o maior extremo a que pode chegar o amor? A razão é esta! Porque o amor do que se ama prova-se pelo amor do que se deixa, e não pode deixar mais o amor; que chegar a deixar pelo amado ao mesmo amado. A pedra de toque do amor é um amor com outro. Quis Deus provar o amor de Abraão, tocou-o com o amor de Isac, a quem amava como filho; quis Davi provar o amor de Jônatas, tocou-o com o amor de Saul, a quem amava como pai. Da mesma maneira, quem quiser apurar os quilates do amor, toque o amor do que se ama como amor do que se deixa, e logo conhecerá quão fino é. Desde o primeiro amor que houve no mundo, ficou estabelecida esta regra.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.