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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Mas como havia isto de ser, ou como queriam que fosse? Como tinham urdido a trama? Onde estava armado o laço? Onde vinha escondida a tentação? Descobriu-a maravilhosamente Santo Agostinho: Ut si diceret, non lapidetur adultera, injustus convinceretur: si diceret, lapidetur, mansuetus non videretur: Ou Cristo havia de dizer que fosse apedrejada a adúltera, ou não: se dizia que não fosse apedrejada, convenciam-no de injusto; se dizia que a apedrejassem, parecia que não era misericordioso. E, ou faltasse à justiça, ou à misericórdia, concluíam que não era o Messias. Cristo, como Deus e humanado, era todo mansidão, todo benignidade, todo misericórdia; as suas entranhas e as suas ações, todas eram de fazer bem, de remediar; de consolar e de perdoar, de livrar a todos, e por isso todos o amavam, todos o veneravam, todos o aclamavam, todos o seguiam, que era o que mais lhes doía aos escribas e fariseus. Acrescentava-se a isto o que o mesmo Senhor dizia de si, de seu espírito, e das causas que o trouxeram ao mundo. Aos discípulos que queriam que descesse fogo do céu sobre os samaritanos, disse: Filius hominis non venit animas perdere, sed salvare (Lc. 9, 56): Que não tinha vindo a matar homens, senão a salvá-los. – Sobretudo naquele mesmo Templo, abrindo o Senhor a Escritura, ensinou publicamente que dele se entendia o famoso lugar do capítulo sessenta e um de Isaías: Ad annuntiandum mansuetis misit me, ut mederer contritis corde, et praedicarem captivis indulgentiam, ut consolarer omnes lugentes (Is. 61, 1s). Quer dizer: Mandou-me Deus ao mundo, para curar corações, para remediar afligidos, para consolar os que choram e dar liberdade e perdão aos que estão presos. – Parece que tinha o profeta diante dos olhos tudo o que concorria no estado e fortuna desta pobre mulher. Assim a apresentaram diante de Cristo, presa, afligida, angustiada, chorando irremediavelmente sua miséria, e aqui, e mais na lei, vinha armada a tentação. Se diz que não seja apedrejada a adúltera, é transgressor da lei; se diz (o que não dirá) que a apedrejem, perde a opinião de misericordioso e a estimação do povo, e sobretudo, contradiz-se a si mesmo e às escrituras do Messias, que interpreta de si. Logo, ou diga que se execute a lei, ou que se não execute, ou que seja apedrejada a delinqüente, ou que o não seja, sempre o temos colhido, porque não pode escapar de um laço sem cair no outro.

A este modo de argüir, que é fortíssimo e apertadíssimo, chamam os dialéticos dilema ou argumento comuto, porque vai nele uma contraditória com tal artifício, dividida em duas pontas, que se escapais de uma, necessariamente haveis de cair na outra. Assim investiram hoje a Cristo os escribas e fariseus com Moisés. De Moisés diz a Escritura: Quod facies ejus esset comuta,3 e nesta forma opuseram no campo, como no corro, contra Cristo. Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare: Moisés, dizem, mandou-nos apedrejar a quem cometesse este delito. – E para que a lei se porecesse com a testa do legislador, ia disposta e dividida em duas pontas, tão bem armadas, que ou Cristo dissesse sim ou dissesse não, se escapasse de uma, levavam-no na outra. De maneira que as pedras de que vinham prevenidos os escribas e fariseus, não eram para apedrejar a adúltera, senão para que Cristo tropeçasse e caísse nelas no laço que ali lhe tinham armado. Deste modo de laços armados em pedras, faz elegante menção Isaías no capítulo oitavo: Et erit in lapidem offensionis, et petram scandali, in laqueum, et in ruinam. Et offendent, et cadent, et conterentur; et irretientur, et capientur.4 Alude o profeta ao uso dos caçadores daquele tempo, os quais armavam as suas redes e laços cercados de pedras, para que, tropeçando nelas, a caça caísse incautamente e ficasse enredada e presa. Tal era o laço que os escribas e fariseus traziam hoje armado debaixo das pedras da lei, ou da lei das pedras: Moyses mandavit hujusmodi lapidare, para que, tropeçando Cristo nas pedras, caísse e o tomassem no laço.

(continua...)

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