Por Gregório de Matos (1696)
Não sei, como tão cedo te partiste
Da triste Mãe, que tanto contentaste,
Pois partindo-te, a alma me partiste.
Oh que cruel comigo te mostraste!
Pois quando a maior glória te subiste,
Então na maior pena me deixaste.
LIZONGEA O SENTIMENTO DE FRANCISCO MONIZ DE SOUZA SEU IRMÃO FAZENDO EM SEU NOME ESTE SONETO.
Flor em botão nascida, e já cortada,
Tiranamente murcha em flor nascida,
Que nos primeiros átomos da vida,
Quando apenas sois nada, não sois nada.
Quem vos despiu a púrpura corada?
Como assim da beleza estais despida?
Mas ah Parca cruel! Morte atrevida!
Por que cortaste a flor mais engraçada?
Porém que importa, bem que me desvela
Na flor o golpe, se maior ventura
Vos prometo no Céu, bela Teresa.
De flor ao Céu passais a ser estrela,
E não perde de flor a formosura,
Quem no Céu melhor flor logra a beleza.
PERTENDE O POETA CONSOLAR O EXCESSIVO SENTIMENTO DE VASCO DE SOUZA COM ESTE SONETO
Sôbolos rios, sôbolas torrentes
De Babilônia o Povo ali oprimido
Cantava ausente, triste, e afligido
Memórias de Sião, que tem presentes.
Sôbolas do Caípe águas correntes
Um peito melancólico, e sentido
Um anjo chora em cinzas reduzido,
Que são bens reputados sobre ausentes.
Para que é mais idade, ou mais um ano,
Em quem por privilégio, e natureza
Nasceu flor, a quem um sol faz tanto dano?
Vossa prudência pois em tal dureza
Não sinta a dor, e tome o desengano
Que um dia é eternidade da beleza.
A VISTA DO EXCESSO DE VASCO DE SOUZA PONDERA O POETA, QUE O VERDADEYRO AMOR, AINDA TIRADA A CAUSA NÃO CESSA NOS EFFEYTOS, CONTRA A REGRA DE ARISTOTELES.
Errada a conclusão hoje conheça
O Mestre, que mais douto na ciência
Nos deixou em prolóquio sem falência,
Que em a causa cessando, o efeito cessa.
Porque a dor de um Magoado nos confessa,
Que arrastou a Beleza com violência,
Que o que efeito causara uma assistência,
Apartado da causa então começa:
Apartada a Beleza inda lhe causa
Um efeito tão forte, que suspeito,
Que não tem inda a causa feito pausa.
Porque já em domínios de seu peito,
Se na vida a rendia como causa,
Hoje o vence na morte pelo efeito.
LINZONGEA FINALMENTE O POETA COM ESTAS MORALIDADES TRISTES DE HUMA VIDA FLORECENTE PELAS FRIAS VOCES DAQUELLA SEPULTADA BELLEZA SUA FORMOSAS IRMÃAS, AVIVANDOLHE OS MOTIVOS DA DOR.
MOTE
Ya que flor, mis Flores, fui
Vuestro exemplo aora soy,
pues de flor a sol subi,
y oy de mi aun sombras doy.
1
En flor, mis Flores, se muere,
quien en la vida fué flor,
que es la muerte com rigor
de las Flores Malmequiere:
quien de vosotras se huviere
desconocido haste aqui,
su triste flor veya en mi
como en un puro cristal,
que espejo soy de su mal,
ya que flor, mis Flores, fui.
2
Triunfar, Flores, en effecto
ya me visteis de la suerte,
si mal me quiso la muerte,
siempre he sido Amor perfecto:
desengañada os prometto
de la ceniza, en que estoy,
pues al sepulchro me voy,
Flores, para que nasci,
que si Perpetua no fui,
Vuestro exemplo aora soy.
3
de aqueste jardin de Flora,
que flagra oloroso aliento,
ya fui gallardo elemento,
ya fui bellissima aurora:
pero, mis Flores, aora
nada soy, de lo que fui,
bien que los habitos di,
con que a los astros llegué,
y en el cielo me quedé,
Pues de flor e sol subi.
4
Alerta, Flores, que ayrada
la rnuerte uzurpa las flores,
en quien colores, y olores
son exemplos de la nada:
alerta pues que prostada
mis brios llorando estoy;
lo que va de ayer a oy
aprended de um muerto sol,
que ayer candido arrebol,
y oy de mi aun sombras doy.
DESTA VEZ SE DEIXOU O POETA ESQUECER NAQUELLA CASA, ESPERANDO OCCASIÃO DE DECLARAR SE, E SEMPRE SE ACOBARDOU A VISTA DA CAUSA, SEMPRE EM LUTAS COM O AMOR, E RESPEYTO.
MOTE
Muero por dizir mi mal,
Va-me la vida en callar.
1
Dos vezes muerto me hallo
de los arpones de Amor,
una al dizir mi dolor,
y otra vez quando lo callo.
No sé corno remediarllo,
pues su implicacion es tal,
que hazes mi dolor mortal,
y con peligro tan fiero,
que quando por callar muero,
Muero por dizir mi mal.
2
Aqui el contrario no es medio
de curar a su contrario,
porque el remedio ordinario
no es para mi mal remedio:
yo tengo un azar, um tedio
a todo, lo que es sanar,
porque todo es peligrar;
si callo, pierdo la vida,
y si digo, mi homicida,
Va-me la vida en callar.
ADMIRAVEL EXPRESSÃO QUE FAZ O POETA DE SEU ATIENCIOSO SILENCIO.
Largo em sentir, em respirar sucinto
Peno, e calo tão fino, e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento
Mostro, que o não padeço, e sei, que o sinto.
O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é, que o sustento,
Com que para penar é sentimento,
Para não se entender é labirinto.
Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.
Mas oh do meu segredo alto conceito!
Pois não me chegam a vir à boca os tiros
Dos combates, que vão dentro no peito.
TERCEIRA IMPACIENCIA DOS DESFAVORES DE SUA SENHORA.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.