Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Bárbora ou Babu

Por Gregório de Matos (1693)

Lástima os néscios me têm,
e poderão ter-me os néscios
de ver-me morrer inveja,
mais de que ver-me vivendo.

Viver, não pode, quem ama,
e eu olvidar-vos não quero,
se hei de morrer, quando amo,
e viver, quando aborreço.

Morra embora de adorar-vos,
que este é formoso tormento,
esta a suave agonia,
este o pesar lisonjeiro.

Dai-me licença, que escolha,
nestes dois contrários meios
antes morrer por amar-vos,
que viver de aborrecer-vos.

DE HUMA QUEDA QUE DEO O POETA EM CASA DESTA BARBORA, ERGUE NOVOS
CONCEYTOS À SUA ROGATIVA.

Fui, Babu, à vossa casa
e indo com sentido em mim,
do sentido combatido
vim finalmente a cair.

Com cair a vossos pés
nenhum resguardo senti,
porque eram vossos sapatos
poucos para me cobrir.

Fui reverente a beijá-los,
e querendo-o conseguir
sobrou boca, e faltou pé,
e assim os beijos perdi.

Que com pé tão pequenino
tão abreviado, e sutil
uma boca desmedida
faz maridagem ruim.

Ergui-me por melhorar,
e então menos consegui,
que se os pés por si me fogem,
vós cos braços me fugis.

Fiquei muito envergonhado,
e em caso tão infeliz
envergonhei-me de ver-vos,
porém não me arrependi.

Mas se o meu sangue, e meus rogos,
vos não podem persuadir,
verta-se o sangue em dilúvios,
e os rogos em frenesi.

Não se quis o meu rogado,
pois no instante, em que vos vi,
se inclinou meu sangue ao vosso,
e rebentou por se unir.

Para queimardes-me o sangue,
me matar, e me afligir
rogos não são necessários,
para admitir-me isso sim.

E tão bom dia, que bastem
para um amor se admitir,
pois rogar, a quem não ama,
é tão mau, como pedir.

Por isso nunca vos peço,
que não sois vós a Beatriz,
que me hei de fazer ditoso
com vossa graga a ceitis.

Pois por dar-vos desenganos
vós, como os dou a mim,
sabei, que hei de sempre amar-vos
uma vez, que bem vos vi.

Pois esse rosto de neve,
esses dedos de jesmim,
esse Maio florescente
de boca, que bota Abris,

Me estão sempre aconselhando,
que vos queira, pois vos quis,
que vos sofra, pois vos amo,
vos busque, pois vos perdi.

AO MESMO ASSUMPTO.

1
Babu: o ter eu caído,
nenhum susto me tem dado,
porque a vossos pés prostrado
me julgo então mais subido:
direis, que fiquei sentido:
mas sabei, que não sentira,
inda que me não subira
o cair, onde caí,
se como no chão me vi,
convosco em terra me vira.

2
Porém que isso me suceda,
por mais quedas, que inda dê,
não creio, pois vejo, que
não tenho convosco queda,
vossa crueza me veda
este bem, que entanto abraço:
quem viu semelhante passo,
que encontre meu desvario,
Babu, em vosso desvio
a minha queda embaraço?

3
Confesso, que então caído
fiz tenção de me sangrar,
mas não me quis mais picar,
porque assaz fiquei corrido:
não andei pouco advertido
(falo, como quem vos ama)
porque eu sei, formosa Darna,
que por mais que me sangrasse
livre estou, de que chegasse
a ver-me por vós na cama.

4
E com toda essa desgraça
por satisfeito me dera,
se com cair merecera
sequer cair-vos em graça:
mas porque, Babu, eu faça
desta queda estimação
inda sobeja razão,
se a queda motivo é
de prostar-me a vosso pé,
para beijar-vos a mão.

VENDO-SE FINALMENTE EM HUMA OCCASIÃO TAM PERSEGUIDA ESTA DAMA
DO POETA, ASSENTIO NO PREMIO DE SUAS FINEZAS; COM CONDIÇÃO POREM,
QUE SE QUERIA PRIMEYRO LAVAR; AO QUE ELLE RESPONDEO COM A SUA
COSTUMADA JOCOSERIA.

1
O lavar depois importa,
porque antes em água fria
estarei eu noite, e dia
batendo-vos sempre à porta:
depois que um homem aporta,
faz bem força por entrar,
e se hei de o postigo achar
fechado com frialdade,
antes quero a sujidade,
porque enfim me hei de atochar.

2
Não serve o falar de fora,
Babu, vós bem o sabeis,
dai-me em modo, que atocheis,
e esteja ele sujo embora:
e se achais, minha Senhora,
que estes são os meus senãos,
não fiquem meus gostos vãos,
nem vós por isso amuada,
que ou lavada, ou não lavada
cousa é, de que levo as mãos.

3
Lavai-vos, minha Babu,
cada vez que vós quiseres,
já que aqui são as mulheres
lavandeiras do seu cu:
juro-vos por Berzabu,
que me dava algum pesar
vosso contínuo lavar,
e agora estou nisso lhano,
pois nunca se lava o pano,
senão para se esfregar.

4
A que se esfrega amiúdo
se há de amiúdo lavar,
porque lavar, e esfregar
quase a um tempo se faz tudo:
se vós por modo sisudo
o quereis sempre lavado,
passe: e se tendes cuidado
de lavar o vosso cujo
por meu esfregão ser sujo,
já me dou por agravado.

5
Lavar a carne é desgraça
em toda a parte do Norte,
porque diz, que dessa sorte
perde a carne o sal, e graça:
e se vós por esta traça
lhe tirais ao passarete
o sal, a graça, e o cheirete,
em pouco a dúvida topa,
se me quereis dar a sopa,
dai-ma com todo o sainete.

6
Se reparais na limpeza,
ides enganada em suma,
porque em tirando-se a escuma,
fica a carne uma pureza:
fiai da minha destreza,
que nesse apertado caso
vos hei de escumar o vaso
com tal acerto, e escolha,
que há de recender a olha
desde o Nascente ao Ocaso.

(continua...)

1234
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →