Por Gregório de Matos (1696)
1
Pelo mar do meu tormento,
em que padecer me vejo,
já que amante me desejo
navegue meu pensamento:
meus suspiros formem vento,
com que me faças ir ter,
onde me desejo ver,
e diga minha alma assi,
Parti, coração parti,
navegai sem vos deter.
2
Ide donde meu amor
apesar desta distância
nem há perdido a constância,
nem há admitido rigor:
antes mais superior
assim se quer exceder,
porém se desfalecer
em tantas adversidades
Ide-vos minhas saudades
a meu amor socorrer.
NASCE A ROSA, E NASCE A FLOR.
MOTE
Para que nasceste, rosa,
se tão depressa acabaste,
nasces na manhã triunfante,
morres despojo de tarde.
1
Nasce a rosa, e nasce a flor
de tanta cor matizada,
quando se vê desmaiada
triste sem vida, e sem cor:
tudo quanto no candor
se ostentava majestosa,
então menos venturosa
perde toda a louçania,
e para brilhar um dia
Para que nasceste Rosa?
2
Se por nascer tão subida
perde a rosa a perfeição,
enquanto a rosa em botão
mais se lhe dilata a vida:
nessa pompa já perdida,
com que, rosa, te enfeitaste,
vendo o pouco que duraste,
da vida foste um nonada,
nem foste rosa, nem nada,
Se tão depressa acabaste.
3
Se na manhã encarnada
te julgas perfeita rosa,
olha o lustre de formosa
como o perdes desmaiada:
quem te viu na madrugada
entre as mais flores reinante,
que na tarde não se espante,
quando murcha assim te vê!
dize, rosa, para que
Nasces de manhã triunfante.
4
Se como rosa nasceste
com tão galhardo valor,
como rosa, e como flor
a pompa, e garbo perdeste:
se tanto te engrandeceste,
como te mostras cobarde,
pois quando fazendo alarde
de te ver tão majestosa,
por ver-te na manhã rosa,
Morres despojo de tarde.
ENFADA-SE O POETA DO ESCASSO PROCEDER DE SUA SORTE.
Oh que cansado trago o sofrimento,
E que injusta pensão de humana vida,
Que dando-me o tormento sem medida,
Me encurta o desafogo de um contento!
Nasceu para oficina do tormento
Minha alma a seus desgostos tão unida,
Que por manter-se em posse de afligida,
Me concede os pesares de alimento.
Em mim não são as lágrimas bastantes
contra incêndios, que ardentes, me maltratam,
Nem estes contra aqueles são possantes.
Contrários contra mim em paz se tratam,
E estão em ódio meu tão conspirantes,
Que só por me matarem, não me matam.
ZELOSO, E TRISTE CONSULTA O POETA A SOLEDADE DOS MONTES PARA SEU
DESAFÔGO.
Montes, eu venho a buscar-vos
para contar-vos meu mal,
inda que o vosso silêncio
interrompa com meus ais.
Já sabeis, que adora à Menga,
a quem para sujeitar
frágil corrente é meu pranto
desatado em seu cristal.
Já vos referi mil vezes,
como Menga com Pascoal,
em cima de me dar zelos,
zelos me obriga a aceitar.
Se o remédio é não tomá-los,
dá-me Menga em se queixar,
de que sou Pastor grosseiro,
pois não tomo, o que me dá.
QUEYXA-SE DE QUE NUNCA FALTEM PENAS PARA A VIDA, FALTANDO A VIDA
PARA AS MESMAS PENAS.
Em o horror desta muda soledade,
Onde voando os ares a porfia
Apenas solta a luz a aurora fria,
Quando a prende da noite a escuridade.
Ah cruel apreensão de uma saudade,
De uma falsa esperança fantasia,
Que faz que de um momento passe o dia,
E que de um dia passe à eternidade!
São da dor os espaços sem medida,
E a medida das horas tão pequena,
Que não sei, como a dor é tão crescida.
Mas é troca cruel, que o fado ordena,
Porque a pena me cresça para a vida,
Quando a vida me falta para a pena.
CHORA O POETA SUA INFELICIDADE COM HUM PENSAMENTO OCCULTO.
MOTE
Amargo paguen tributo
mis ojos al desamor,
pues de una esperança en flor
es oy desengaño el fruto.
1
Solos de mi triste enojo
ojos, podreis dar indicios,
pues aquestos desperdicios
los tuvisteis siempre de ojo:
oy, a que lloreis, me arrojo
con desengaño absoluto,
que el reconcentrado luto,
(con causa a los ojos tanto)
pide a los ojos, que en llanto
Amargo paguen tributo.
2
No es, ojos, intento mio
soltar la corriente en vano,
ni que sea en castellano,
lo que en portuguez es rio:
corrientes de um llanto pio
abono de mi dolor
manifesten al amor,
digan con iras, y affecto
su tyranno, y vil effecto
Mis ojos al desamor.
3
Rebentad de sentimiento,
Ojos, en tanto delirio,
porque de aqueste martirio
saquen muchos escarmiento:
sepan de vuestro tormento,
para que tengan horror,
huyan, huyan del amor
que nunca es bien de raiz,
sepan. sepan, que moris
Pues de una esperança en flor.
4
Y pues conocisteis vos
lo mucho, que el amor daña,
lo que para niño engana,
lo que miente para Dios,
la esphinge de humana voz,
y coraçon resoluto
llorad con ardiente luto:
temed con tristes dolores,
pues de sus lindas flores
Es oy desengaño el fruto.
AUSENTE DE HUM CONHECIDO BEM RECEA TEMEROSO AS QUEBRAS.
MOTE
Ausencias, y soledades
llora mi fe, y mi amor,
que el adorar-te, y no ver-te
deste effecto causa son.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.