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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Letrados

Por Gregório de Matos (1696)

6
E porque mais água pede,
ela lhe disse, isto basta,
porque esta merda é de casta,
que se a mais bolem, mais fede:
ide para a rua, e vede
a razão, com que vos move,
na história fazei-vos novo,
mostrai-vos leve na perda,
porque esta merda foi merda,
de que gostou todo o povo.

7
A Parte andou temerária,
e com sobeja ousadia,
não faria valentia,
mas fez causa necessária:
vós como grande alimária
no pleito lhe dareis perda,
pois um artigo a deserda,
e ela já pode afirmar,
que me inventou deserdar
pela mesma boca merda.

8
Que era de engenho notório
dá grandíssima suspeita,
pois deixa câmara feita,
o que foi sempre escritório:
mudai logo o consistório
como Letrado de Lampa,
que já hoje o juízo escampa;
mas diz a gente travessa,
que vós fazíeis-lhe a peça,
mas ele amou-vos a trampa.

9
Quem pôs tal merda em tal capa,
tenho por ponto assentado,
que morrerá excomungado,
se não recorrer ao Papa:
vós sois Fidalgo de chapa
desde o Brasil até Europa,
pois quando a merda vos topa,
tanto fedeis, que ao nariz
do Moço da Câmara ides
a Moço de guarda-roupa.

10
Se vos não houve respeito
(que é cousa, em que se repara)
nem à cruz da vossa cara,
nem à cruz, que está no peito:
o que presumo, e suspeito,
é, que nunca está seguro
de tanto cabungo impuro
cruzeiro em monturo alçado,
com que o vosso está cagado
por cruz posta em um monturo.

11
A Parte não andou lerda
em vir com panela cheia,
porque a mim me coube meia
panela com meia merda:
não quis a fortuna esquerda,
que mos dê tão má maré
desigualar-nos, mais que
no sentimento, e respeito,
pois vós tomaste-la a peito,
porém eu dei-lhe c'o pé.

12
Não temais, que a Parte lusa,
porque leva a mão ganhada,
que se ela fez panelada,
nós faremos garatusa:
ela deu assunto à Musa,
que já dormia, e roncava,
pois quando agora acordava,
viu, que pelo triste caso
té a fonte do Parnaso
com tanta merda inundava.

AO MESMO LETRADO MORDENDO, E ABOCCANHANDO AS LETRAS DO POETA; E ELLE LHE AMEAÇA SEUS ATREVIMENTOS.

1
Vós não quereis, Cutilada,
tomar emenda, e calar,
morrendo andais por levar
outra na outra queixada:
quereis a cara cruzada,
gilvazada a não quereis,
pois tudo conseguireis,
e se a vossa fé vos salva,
no calvário dessa calva
três cruzes postas vereis.

2
Na capinha, ou no capuz,
tendes a cruz de cristão,
na cara a do mau ladrão,
e inda vos falta outra cruz:
eu vos juro por Jesus,
que por fazer o ternário
por modo extraordinário
à outra vos hei de pôr,
porque do monte Tabor
vades ao monte Calvário.

3
Ao Pretório ireis levado,
onde a gentinha vulgar
crucifige há de clamar,
e heis de sair condenado:
um negro Simão chamado
será o vosso Cireneu,
e na fôrma do chapéu
um pau vos há de encaixar,
e então vos hão de jogar
o adivinha, quem te deu.

4
Ireis entre dous Teatinos
vendo o vosso enterramento,
tendo o maior desalento
na cantiga dos Meninos:
que piedosos, e benignos
ora por ele dirão,
e vós nesta ocasião
revirando os bugalhitos,
os Padres serão mosquitos,
e o mais povo confusão.

5
Irá o porteiro diante
pelo seu papel cantando,
e dirá de quando em quando
justiça a este Bargante:
manda El-Rei, que num instante
se lhe tire fala, e vista,
e se lhe faça com vista;
justiça, que manda El-Rei
fazer a um homem sem lei,
por se meter a legista.

6
Não heis de então requerer,
e muito menos gritar,
pois por gritos de advogar
ide-vos a padecer:
deitar pleitos a perder
a puros gritos e zurros
botar na terra sussurros,
de que sois grande Doutor
na forca vos hão de pôr
a vós, mais a vossos burros

A CERTO LETRADO QUE SENDO HOMEM DE NAÇÃO AFFECTAVA JACOBICES CORRENDO A VIA SACRA COM OS BRAÇOS ABERTOS.

Deixe, Senhor Beato, a Beati-,
Que se é via do Céu a via sa-
Ninguém o quer já crer nesta cidá-
Porque é você da casta Israeli-.

Quando devoto corre a sacra vi-
E a cada pé de cruz estende os bra-
Parece um entremez da Lei da gra-
Que a toda a cristandade causa ri-.

Deixe-se disso, e trate do escritó-
Que esse lhe dá de render o pão da me-,
E o céu também, se com bom zelo advó-.

Mas se quer, que por Santo o reconhê-
E na paixão de Deus faz o graciô-,
Embolsará as risadas da comé-.

A CERTO LETRADO FULANO COELHO, CASANDO-SE COM HUMA MOÇA, QUE SE DIZIA SER TAL COMO PUBLICA A MESMA SATYRA.

1
Este, que de Nise conto,
ouçam, que é bem raro caso,
pois dizem, calça seu vaso
(com ser tão grande) um só ponto:
casou com Fábio, que é tonto,
e eu folgo por vida minha,
porque é cousa bem sabida
que andavam com grão cuidado
o Moço por ela assado,
e ela por ele cozida.

2
Por dar alívio a seu peito
no mar de amor, lhe convinha
a Fábio passar a linha,
porém não passar o estreito:
mas não haverá conceito,
que repare a Fábio amante,
pois hoje a vela constante
(quando em deleites se arrulha)
o rumo serve de agulha
como astuto navegante.

(continua...)

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