Por Gregório de Matos (1696)
2
Que tem Freirinhas tão belas
cos pobres dos seculares,
que a todos lançam azares,
e nunca a sorte cai nelas:
deve de vir das estrelas
de algum signo peçonhento,
que abaixo do firmamento,
onde jaz o Escorpião,
lhos influi um Fradalhão,
que lhes domina o convento.
3
Alto: vou-me meter Frade
na ordem de Fr. Tomás,
serei perpétuo lambaz
do ralo, da roda, e grade:
mamarei paternidade,
Deo gratias se me dará,
e apenas se me ouvirá
o estrondo do meu tamanco,
quando a Freira sobre o banco
no ralo me aguardará.
4
Daí para a grade iremos,
e apenas terei entrado,
quando o braço arregaçado
aos ofícios nos poremos:
e quando nos não cheguemos
(porque o não consentirá
a grade, que longe está)
o seu, e o meu coração,
porque vá de mão em mão,
irá na barca da pá.
5
Pela pá irá o meu zás,
e o seu pela pá virá,
e à força de tanta pá
viveremos sempre em paz:
serei o maior mangaz,
que passou de leigo a demo,
e a Frade, que é mor extremo,
e será por meu sojorno
a pá para ela de forno,
e pá para mim de remo.
6
Então me virá buscar
a Senhora Dona Urtiga,
Deo gratias, meu Fr. Fustiga,
Deo gratias Sor Rosalgar:
então me hei de pôr a olhar,
e tão grave me hei de pôr,
que quando me diga Amor,
esta é a Freira, que dei,
dir-lhe-ei, já me purguei,
e evacuei esse humor.
7
A fé Soror Mariana,
que tanto me hei de vingar,
que eu mesmo hei de perguntar
pela Freira soberana:
e há de dizer vossa Mana
(digo Soror Florencinha)
Senhor Doutor, esta é minha
Irmã, a quem você quis,
e hei de dizer-lhe, mentis,
que esta é uma coitadinha.
8
Não sabeis, Soror Florença
não sabeis diferençar
um Frade de um secular?
pois é esta a diferença:
tendo o leigo a capa imensa
como homem racional
nada lhe parece mal,
toda a Freira é uma flor:
mas em sendo Frei Fedor,
a melhor é um cardal.
A MESMA FREYRA D. MARIANNA PELO MESMO CASO DE SE HAVER APPELLIDADO ORTIGA.
1
Como vos hei de abrandar,
se dizeis, que sois Urtiga
salvo se vos açoutar,
porque então heis de ficar
mais branda que uma bexiga.
2
Outro remédio melhor
sei eu para a formosura,
que faz gala do rigor,
e é não a querer, que amor
se vê, que vos faz mais aura.
3
Mas se isto de não querer-vos,
a dureza há de abrandar-vos,
sempre hei de vir a perder-vos,
que o mesmo é morrer de ver-vos,
que morrer de não falar vos.
4
Com que a cura de meu mal
é amar, calar, sofrer
que quando o mal é mortal,
se à vida é prejudicial,
será remédio o morrer.
5
Eu morro de vos querer,
e tanto em morrer persisto,
que podereis vos fazer,
que não ficasse malquisto
o venturão de vos ver.
6
Pois sabida a minha morte,
e a sua causa sabida,
fugindo vós de corrida,
todos terão por má sorte
ver-vos, e perder a vida.
7
Mas eu, que do mal de amor
faço tanta estimação,
não hei de queixar-me não
de tão formoso rigor,
nem de tão bela afeição.
8
Antes morte tão luzida
com tal gosto a ela corro,
que temo, minha homicida,
que me torne dar a vida
o prazer, com que me morro.
QUEYXA SE O POETA A MESMA FREYRA DE SUAS INGRATIDÕES DESPRIMOROSAS, IMITANDO A D. THOMAZ DE NORONHA EM HUM SONETO, QUE FEZ A CERTA FREYRA, QUE PRINCIPIA "SOROR DONA BARBARA".
Senhora Mariana, em que vos pes,
Haveis de me pagar por esta cruz,
Porque nisto de cornos nunca os pus,
E sei, que me pusestes mais de três.
Não sei, quem vos tentou, ou quem vos fez
Cruel, que rigor tanto em vós produz,
Pois convosco não val, e em mim não luz
Fé de Tudesco, e amor de Português.
Se contra vós algum delito fiz,
Que do vosso favor fora me traz,
Vós não podeis ser Parte, e mais Juiz.
Não queirais dar contudo a trasbarrás,
Nem vos façais de mim xarrisbarris,
Que me armeis por diante, e por detrás.
À MESMA FREYRA JA DE TODO MODERADA DE SEUS ARRUFOS E CORRESPONDENDO AMANTE AO POETA.
A bela composição
dos dous nomes, que lograis,
bem explica, o que cifrais
nessa rara perfeição:
porque sendo em conclusão
por Maria Mar, e sendo
Graças por Ana, já entendo,
que quem logra a sorte ufana
de estar vendo a Mariana
um mar de graça está vendo.
À MESMA FREYRA EM OCCASIÃO, QUE O POETA À OUVIU CANTAR COM AQUELLA ESPECIAL GRAÇA QUE PARA ISSO TINHA.
Oh quem de uma Águia elevada
tIvera uma pena! eu creio,
que só então com fortuna
descrevera a sol tão belo.
Porém se tenho de Fênix
as penas dentro em meu peito
pelo abrasado, em que vivo
sejam chamas, quanto escrevo.
Mas não: sejam lavaredas
à vista desse luzeiro,
que a vista de sol tão claro
escurece um vivo incêndio.
Contudo se o desafogo
se permite a todo o peito,
por não estalar esta alma,
coragão, desabafemos.
Convosco falo, Senhora,
de minhas atenções centro,
que a voz de um vale humilhado
também chega ao monte excelso
Recebi o sacrifício
de um profundo rendimento,
que as Deidades soberanas
aceitam toscos obséquios.
Não culpeis esta ousadia,
nem crimineis tanto excesso
que o destino de alta estrela
me influi um amante excesso.
Vi esse pasmo, que adoro,
ouvi a voz, que venero,
de ver fiquei sem sentido,
e de ouvir sem pensamentos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. A freira: ralo, roda e grade In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.