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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Opúsculo de Pedro Alz. da Neyva

Por Gregório de Matos (1696)

Deseja, que os peixes todos
tomem acordo entre si
de vos fazer nos seus buchos
sepultura portatil.

Sente, que em amanhecendo
a fina força há de ouvir
os bons dias de uma boca,
cujo bafo é tão ruim.

Sente, que não empregando
nem um só maravedi
em queijos frescos, e a eles
vos tresanda o chambaril.

Mas vos heis de ir a Lisboa
apesar do vilão ruim.
El-Rei vos há de fazer
com mil mercês honras mil.

Os cavalheiros da Corte
trazendo-vos junto a si,
vos hão de dar como uns doudos
piparotes no nariz.

E como vós sois doente
de fidalgos frenesis,
por ficar enfidalgado
toda a mofa heis de rustir.

O que trareis de vestidos!
uns assim, outros assim:
sereis o molde das modas,
e o modelo dos Turins.

À conta disto me lembra,
quando em Marapé vos vi
vestido de pimentão
com fundos de flor de Lis.

Em verdade vos afirmo,
que então vos supus, e cri
surrada tapeçaria,
tisnado guadamecim.

O que direis de mentiras,
quando tornares aqui!
amizades de um Visconde,
favores de um Conde vis,

Valido de um tal Ministro,
Cabido de um tal Juiz,
e até do mesmo Cabido
leiguíssimo Mandarim.

El-Rei me fez mil favores:
mil favores? mais de mil;
bem fez, com que lá ficasse,
mas não o pude servir.

Quem casou, como eu casei
com Mulher tão senhoril,
é cativo de um Terreiro,
não me posso dividir.

D'EI-Rei é minha cabeça,
porém o corpo gentil
todo é de minha Mulher,
não tem remédio, hei de me ir.

Achou-me razão El-Rei
e na hora de partir,
pondo-me a mão na cabeça
me disse, Perico, há de ir.

Ide-vos, Perico, embora,
ide-vos para o Brasil,
que, quem vos tirou da Corte,
não vos tirará daqui.

E pondo em seu peito a mão,
eu, que a firmeza entendi,
chorei por agradecê-la
lágrimas de mil em mil.

Botei pelo Paço fora
meti-me no bergantim,
cheguei a bordo, embarquei-me,
levamos ferro, e parti.

Os cavalheiros da Corte
choraram tanto por mim,
como por uma comenda
Santiago ou de Avis.

Ontem avistamos terra,
e quando na barra vi
coqueiros, e bananeiras,
disse comigo: Brasil.

AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR TERCEIRA PESSOA.

1
Sejais, Pedralves, bem-vindo,
e crede-me, meu amigo,
que tudo, o que aqui vos digo,
ora é zombando, ora rindo:
aqui me andam perseguindo,
que faça à vossa chegada
alguma sátira honrada,
que este Povo é tão sisudo,
que quer, que eu vos diga tudo,
mas eu não vos digo nada.

2
Se El-Rei vos enfidalgou
(como me deram por novas)
acabaram-se-me as trovas,
e tudo enfim se acabou:
mas não falta, quem notou,
que indo-vos fidalgo honrado,
vir com foro era escusado;
porém logo se deu fé,
que éreis fidalgo de pé,
e agora estais assentado.

3
Qualquer Bispo da Turquia
sem igreja é Bispo fiel,
vós sois fidalgo de anel,
fidalgo sem fidalguia:
os fidalgos da Bahia
são fidalgos de parolas,
vós a puras carambolas
por vós, por vossa Mulher,
porque o quis El-Rei fazer,
sois fidalgo de três solas.

4
Ser fidalgo na Bahia
é suma felicidade,
porque há de arder a cidade
numa, e noutra cortesia:
heis de mamar Senhoria,
quer vos dê, quer não pesar:
porque se um triste alveitar
a mama, sendo ancião,
vós tão novo, e simplalhão
como a não heis de mamar?

5
Está toda a meninice
desta terra a esperar,
que saiais a passear,
e digais muita parvoíce:
já a mim um homem me disse,
que vos ouvira umas poucas,
mas vós a palavras loucas
(se quereis lograr sossegos)
heis de trazer olhos cegos,
tanto como orelhas moucas.

6
Chegais de Lisboa enfim,
e não quero de vós mais,
senão só que me digais,
como vindes de escarpim:
que este povo é tão ruim,
tão jocoso, e tão burlesco,
que por vos pôr ao tudesco,
tendo vós cara de nata,
levantam, que a vossa pata
tem dedo de queijo fresco.

7
Triste da vossa parceira,
que se vos muda talvez
a cabeça para os pés,
e os pés para a cabeceira,
sempre o presunto lhe cheira,
sempre o bafo cheira mal,
e contra artifício tal,
como lhe não dais proveito
fedendo a torto, e a direito,
vos admite ao natural.

8
Ela levada do amor
diz (porque enfim vos quer bem)
bom sangue o Fidalgo tem,
mas tem mui velhaco humor:
vós obrigado ao primor,
de quem tão firme vos ama,
que em tal caçoula se inflama,
ficais por sentença dada
vós apertando a privada,
ela apartada da cama.

9
Tratais a este e a aquele
por ele de puro honrado,
que o Senhor bem inclinado
em lugar de um vós dá um ele:
mas que o chantre se desvele
em visitar-vos cada hora,
e lhe digais, venha embora
Chantre, folga de o ver bom,
isso é ser sem tom, nem som
asneirão de foz em fora.

10
Que dissestes me constou,
a um Capitão de alto som,
folgo muito de o ver bom,
e ele os olhos vos fincou:
de boa então escapou,
Pedro, o vosso cabeção,
porque se vos lança a mão,
creio eu, é para crer,
vos havia de dizer,
folgo de o ver asneirão.

(continua...)

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