Por Gregório de Matos (1696)
Deseja, que os peixes todos
tomem acordo entre si
de vos fazer nos seus buchos
sepultura portatil.
Sente, que em amanhecendo
a fina força há de ouvir
os bons dias de uma boca,
cujo bafo é tão ruim.
Sente, que não empregando
nem um só maravedi
em queijos frescos, e a eles
vos tresanda o chambaril.
Mas vos heis de ir a Lisboa
apesar do vilão ruim.
El-Rei vos há de fazer
com mil mercês honras mil.
Os cavalheiros da Corte
trazendo-vos junto a si,
vos hão de dar como uns doudos
piparotes no nariz.
E como vós sois doente
de fidalgos frenesis,
por ficar enfidalgado
toda a mofa heis de rustir.
O que trareis de vestidos!
uns assim, outros assim:
sereis o molde das modas,
e o modelo dos Turins.
À conta disto me lembra,
quando em Marapé vos vi
vestido de pimentão
com fundos de flor de Lis.
Em verdade vos afirmo,
que então vos supus, e cri
surrada tapeçaria,
tisnado guadamecim.
O que direis de mentiras,
quando tornares aqui!
amizades de um Visconde,
favores de um Conde vis,
Valido de um tal Ministro,
Cabido de um tal Juiz,
e até do mesmo Cabido
leiguíssimo Mandarim.
El-Rei me fez mil favores:
mil favores? mais de mil;
bem fez, com que lá ficasse,
mas não o pude servir.
Quem casou, como eu casei
com Mulher tão senhoril,
é cativo de um Terreiro,
não me posso dividir.
D'EI-Rei é minha cabeça,
porém o corpo gentil
todo é de minha Mulher,
não tem remédio, hei de me ir.
Achou-me razão El-Rei
e na hora de partir,
pondo-me a mão na cabeça
me disse, Perico, há de ir.
Ide-vos, Perico, embora,
ide-vos para o Brasil,
que, quem vos tirou da Corte,
não vos tirará daqui.
E pondo em seu peito a mão,
eu, que a firmeza entendi,
chorei por agradecê-la
lágrimas de mil em mil.
Botei pelo Paço fora
meti-me no bergantim,
cheguei a bordo, embarquei-me,
levamos ferro, e parti.
Os cavalheiros da Corte
choraram tanto por mim,
como por uma comenda
Santiago ou de Avis.
Ontem avistamos terra,
e quando na barra vi
coqueiros, e bananeiras,
disse comigo: Brasil.
AO MESMO QUE CHEGANDO À BAHIA COM HÁBITO, E FORO FALSO ENTRA DESVANECIDAMENTE CONFIADO A TRATAR OS HOMENS NOBRES POR TERCEIRA PESSOA.
1
Sejais, Pedralves, bem-vindo,
e crede-me, meu amigo,
que tudo, o que aqui vos digo,
ora é zombando, ora rindo:
aqui me andam perseguindo,
que faça à vossa chegada
alguma sátira honrada,
que este Povo é tão sisudo,
que quer, que eu vos diga tudo,
mas eu não vos digo nada.
2
Se El-Rei vos enfidalgou
(como me deram por novas)
acabaram-se-me as trovas,
e tudo enfim se acabou:
mas não falta, quem notou,
que indo-vos fidalgo honrado,
vir com foro era escusado;
porém logo se deu fé,
que éreis fidalgo de pé,
e agora estais assentado.
3
Qualquer Bispo da Turquia
sem igreja é Bispo fiel,
vós sois fidalgo de anel,
fidalgo sem fidalguia:
os fidalgos da Bahia
são fidalgos de parolas,
vós a puras carambolas
por vós, por vossa Mulher,
porque o quis El-Rei fazer,
sois fidalgo de três solas.
4
Ser fidalgo na Bahia
é suma felicidade,
porque há de arder a cidade
numa, e noutra cortesia:
heis de mamar Senhoria,
quer vos dê, quer não pesar:
porque se um triste alveitar
a mama, sendo ancião,
vós tão novo, e simplalhão
como a não heis de mamar?
5
Está toda a meninice
desta terra a esperar,
que saiais a passear,
e digais muita parvoíce:
já a mim um homem me disse,
que vos ouvira umas poucas,
mas vós a palavras loucas
(se quereis lograr sossegos)
heis de trazer olhos cegos,
tanto como orelhas moucas.
6
Chegais de Lisboa enfim,
e não quero de vós mais,
senão só que me digais,
como vindes de escarpim:
que este povo é tão ruim,
tão jocoso, e tão burlesco,
que por vos pôr ao tudesco,
tendo vós cara de nata,
levantam, que a vossa pata
tem dedo de queijo fresco.
7
Triste da vossa parceira,
que se vos muda talvez
a cabeça para os pés,
e os pés para a cabeceira,
sempre o presunto lhe cheira,
sempre o bafo cheira mal,
e contra artifício tal,
como lhe não dais proveito
fedendo a torto, e a direito,
vos admite ao natural.
8
Ela levada do amor
diz (porque enfim vos quer bem)
bom sangue o Fidalgo tem,
mas tem mui velhaco humor:
vós obrigado ao primor,
de quem tão firme vos ama,
que em tal caçoula se inflama,
ficais por sentença dada
vós apertando a privada,
ela apartada da cama.
9
Tratais a este e a aquele
por ele de puro honrado,
que o Senhor bem inclinado
em lugar de um vós dá um ele:
mas que o chantre se desvele
em visitar-vos cada hora,
e lhe digais, venha embora
Chantre, folga de o ver bom,
isso é ser sem tom, nem som
asneirão de foz em fora.
10
Que dissestes me constou,
a um Capitão de alto som,
folgo muito de o ver bom,
e ele os olhos vos fincou:
de boa então escapou,
Pedro, o vosso cabeção,
porque se vos lança a mão,
creio eu, é para crer,
vos havia de dizer,
folgo de o ver asneirão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Opúsculo de Pedro Alz. Da Neyva. In:. Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1992.