Por Gregório de Matos (1696)
5
Tanto que a fera investiu,
tentado de valentão
armou-se-lhe a tentação,
e na tentação caiu:
a espada também se viu
cair na estrada, ou na rua,
e foi sentença comua,
que nesta tragédia rara
a espada se envergonhara
de ver-se entre os homens nua.
6
Lourenço ficou mamado,
e inda não tem decidido
se está pior por ferido
da porca, se por beijado:
má porca te beije ? é fado
muito mau de se passar,
e quem tal lhe foi rogar,
foi com traça tão sutil,
que a porca entre Adônis mil
só Lourenço quis beijar.
7
Lourenço, na terra jaz,
e conhecendo o perigo
deu à porca mão de amigo,
com o que se punha em paz:
a porca, que é contumaz,
e estava enfadada dele,
nenhuma paz quis com ele,
mas botando-lhe uma ronca
por milagre o não destronca,
e inda assim chegou-lhe à pele.
8
Ia Inácio na quatrilha,
e tão de Atônis blasona,
que diz, que a porca fanchona
o investiu pela barguilha:
virou-lhe de sorte a quilha,
que cuidei, que o naufragava:
porém tantos gritos dava,
que infeliz piloto em charco
a vara botava o barco,
quando o porco a lanceava.
9
Inácio nestes baldões
teve tanto medo, e tal,
que aos narizes deu sinal
de mau cheiro dos calções:
trouxe na meia uns pontões
tão grandes, e em tal maneira,
que à guerra hão de ir por bandeira,
onde por armas lhe dão
em escudo lamarão
uma porca costureira.
10
Miguel de Oliveira ia
com dianteira alentada,
de porcos era a caçada,
e o que fez, foi porcaria:
quando o bruto o investia,
ele com pé diligente
se afastava incontinenti,
com que o julgas desta vez
por mui ligeiro de pés,
e de mãos por mui prudente.
11
Pissarro sobre um penedo
vendo a batalha bizarra
era Pissarro em piçarra,
que val medo sobre medo:
nunca vi homem tão quedo
em batalha tão campal;
porém como é figadal
amigo, hei de desculpá-lo,
com que nunca fez abalo
to seu posto um General.
12
Frei Manuel me espantou,
que o demo o ia tentando,
mas vi, que a espada tomando
logo se desatentou:
incontinenti a largou,
porque soube ponderar,
que ficava irregular
matando o animal na tola,
de que só o Mestre-Escola
o podia dispensar.
13
O Vigário se houve aqui
cuma tramóia aparente,
pois fingiu ter dor de dente,
temendo os do Javali:
porém folga, zomba, e ri
ouvindo o sucesso raro,
e dando-lhe um quarto em claro
os amigos confidentes,
à fé, que teve ele dentes
para comer do Javaro.
14
Cosme de Moura esta vez
botou as chinelas fora,
como se ver a Deus fora
sobre a sarça de Moisés:
tudo viu, e nada fez,
tudo conta, e escarnece,
com que mais o prazer cresce,
quando o remedo interpreta
Lourenço, a quem fez Poeta
um amor, que o endoudece.
15
Silvestre neste dia
ficou metido num nicho,
porque como a porca é bicho,
cuidou, que sapo seria:
mas agora quando ouvia
o desar dos derrubados,
mostrava os bofes lavados
de puras risadas morto,
porque sempre vi, que um torto
gosta de ver corcovados.
16
Bento, que tudo derriba,
qual valentão sem receio,
pondo agora o mar em meio,
fugiu para a Cajaíba:
não quis arriscar a giba
nos afilados colmilhos
de Javardos tão novilhos,
e se o deixa de fazer,
por ter filhos, e mulher,
que mau é dar caça aos filhos?
17
Eu, e o Morais as corridas
por outra via tomamos,
e quando ao porco chegamos,
foi ao atar das feridas:
co as mentiras referidas
de uma, e outra arma donzela
se nos deu a taramela;
nós calando, só dissemos,
se em taverna não bebemos,
ao menos folgamos nela.
DESCREVE O PERIGO EM QUE O POZ NA ILHA DE Me. DE DEOS HUMA VACCA FURIOSA CHAMADA CAMISA, INDO DIVERTIR-SE AO CAMPO COM HUM IRMÃO DO VIGARIO.
1
Tem Lourenço boa a taca,
fomos tourear ao pasto,
e depois de tanto gasto
o tourinho era uma vaca
Lourenço na sombra opaca
de um pé de limões grosseiro,
eis a vaca pelo cheiro
deu com ele, e ele então
por não morrer na prisão
arrombou o Limoeiro.
2
Tomou da praia o retorno,
porque o morrer melhor é
na reponta da maré
do que na ponta de um corno:
eu com notável sojorno
numa capoeira estava,
vendo, em que o caso parava,
e a vaca com seu focinho
me tratou como a ratinho;
pois qual gato me miava.
3
Temi logo a malquerença
da vaca tão marralheira,
e o medo me deu em reira,
que é melhor do que em corrença:
rompi pela mata densa,
e dei com meu envoltório
de um vale no território,
tomando por meu sossego,
não las de Villa Diego,
mas as de Vila Gregório.
4
Subi num monte comprido,
que do vale é Polifemo,
que quando uma vaca temo,
subo mais do que um valido:
vim à casa espavorido,
achei Lourenço pasmado,
mudo, e desassisado,
e eu disse: se escapo, vaya,
que quem fugiu pela praia,
força é que esteja areado.
5
Deu-se-nos grande matraca,
e com ser dia de peixe,
sem que a consciência se queixe,
todos gostamos da vaca:
o Padre aguçou a faca,
e afeiçoou um bordão,
e tais ralhos disse então,
que me convidou enfim
para diante de mim
dar na vaca um bofetão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Pança farta e pé dormente. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.