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#Contos#Literatura Brasileira

Uma por outra

Por Machado de Assis (1897)

— Não é poesia. Eu, se me aproximo dela, posso vir a casar, e como me hei de casar sem dinheiro? Para ela esperar que eu me forme, e arranje um emprego...

— Bem; é então um namoro de passagem, sempre dá para versos e para matar tempo.

Deitei fora o cigarro, apenas começado (estávamos no Café Carceller), e dei um murro no mármore da mesa; acudiu o criado a perguntar o que queríamos, respondi-lhe que fosse bugiar, e após alguns instantes declarei ao meu colega que não pensava em matar tempo.

— Vá que faça versos; é um desabafo, e ela merece-os; mas matar o tempo, deixá-la ir aos braços de outro...

— Então... queres... raptá-la?

— Oh! não! Tu bem sabes o que eu quero, Fernandes. Eu quero e não quero; casar é o que eu quero, mas não tenho meios, e estou apaixonado. Esta é a minha situação.

— Francamente, Josino; fala sério, não me respondas com chalaças. Tu estás deveras apaixonado por essa moça?

— Estou.

— Essa moça, quero dizer, esse vulto, porque tu não sabes ainda se é moça ou velha.

— Isso vi; a figura é de moça.

— Em suma, um vulto. Nunca lhe viste a cara, não sabes se é feia ou bonita.

— É bonita.

— Adivinhaste?

— Adivinhei. Há um certo sentido na alma dos que amam que faz ver e saber as cousas ocultas ou obscuras, como se fossem claras e patentes. Crê, Fernandes; esta moça é bela, é pobre, e está douda por mim; eis o que te posso afirmar, tão

certo corno aquele tílburi estar ali parado.

— Que tílburi, Josino? perguntou-me ele depois de puxar uma fumaça ao cigarro. Aquilo é uma laranjeira. Parece tílburi por causa do cavalo, mas todas as laranjeiras têm um cavalo, algumas dous; é a matéria do nosso segundo ano. Tu mesmo és um cavalo pegado a uma laranjeira, como eu; estamos ambos ao pé de um muro, que é o muro de Tróia, Tróia é dos troianos, e a tua dama naturalmente cose para fora. Adeus, Josino, continuou ele erguendo-se e pagando o café; não dou três meses que não estejas doudo, a menos que o doudo não seja eu.

— Vai caçoar para o diabo que te leve! exclamei furioso.

— Amém!

Este Fernandes era o chalaceiro da Escola, mas todos lhe queriam bem, e eu mais que todos. No dia seguinte foi visitar-me ao sótão. Queria ver a casa do morro do Castelo. Verifiquei primeiro se ela estava à janela; vendo que não, mostrei-lhe a casa. Reparou bem onde era, e acabou dizendo-me que ia passar por lá.

— Mas eu não te peço isto.

— Não importa. Vou descobrir a caça, e direi depois se é má ou boa. Ora espera; lá está um vulto.

— Entra, entra, disse-lhe puxando por ele. Pode ver-te e desconfiar que estou publicando o nosso namoro. Entra e espera. Lá está, é ela...

A vista de meu colega não dava para descobrir de baixo e de longe as feições da minha namorada. Fernandes não pôde saber se ela era feia ou bonita, mas concordou que o ar do corpo era elegante. Quanto à casa estava marcada; iria rondar por ela, até descobrir a pessoa. E por que não comprava eu um binóculo? perguntou-me. Achei-lhe razão. Se na ocasião achasse igualmente dinheiro teria o binóculo na manhã seguinte; mas, na ocasião faltava-me dinheiro e os binóculos já então não eram baratos. Respondi com a verdade, em primeiro lugar; depois aleguei ainda a razão do vago e do incerto. Era melhor não conhecer a moça completamente. Fernandes riu-se e despediu-se.

A situação não mudou. Os dias e as semanas não fizeram mais que apartar-nos um ao outro, sem estreitar a distância. Mostras e contemplações de longe. Cheguei aos sinais de lenços e ela também. De noite, tinha vela acesa até tarde; ela, se não ia até à mesma hora, chegava às dez, uma noite apagou a vela às onze. De ordinário, apesar de já não ver a luz dela, conservava a minha acesa, para que ela dormisse tarde, pensando em mim. As noites não foram assim

seguidas, desde princípio; tinha hábitos noturnos, passeios, teatros, palestras ou cafés, que eram grande parte da minha vida de estudante; não mudei logo. Mas ao cabo de um mês, entrei a ficar todas as noites em casa. Os outros estudantes notavam a ausência; o meu confidente espalhava que eu trazia uns amores secretos e criminosos.

O resto do tempo era dado às musas. Convocava-as — elas vinham dóceis e amigas. Horas e horas enchíamos o papel com versos de vária casta e metro, muitos dos quais eram logo divulgados pelas gazetas. Uma das composições foi dedicada à misteriosa moça do Castelo. Não tinham outra indicação; aquela pareceu-me bastante ao fim proposto, que era ser lido e entendido. Valha-me Deus! Julguei pelas suas atitudes daquele dia que realmente os versos foram lidos por ela, entendidos finalmente e beijados.

Chamei-lhe Pia. Se me perguntares a razão deste nome, ficarás sem resposta; foi o primeiro que me lembrou, e talvez porque a Ristori representava então a Pia de Tolomei. Assim como chamei Sílvia à outra, assim chamei Pia a esta; mania de lhe dar um nome. A diferença é que este se prestava melhor que o outro a alusões poéticas e morais; atribuí naturalmente à desconhecida a piedade de uma grande alma para com uma pobre vida, e disse isto mesmo em verso — rimado e solto.

(continua...)

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