Por Machado de Assis (1892)
Quando ficou de todo restabelecida, Xavier propôs-lhe virem ao Rio de Janeiro, passar a temporada lírica; ela aceitou, menos por gosto, menos ainda por distração, que por ceder ao pequeno acesso de ternura do marido. Com efeito, ele expediu ordens para que arranjassem casa e todas as comodidades. Vieram; Xavier assinou um camarote. D. Paula tinha aqui parentes, amigos, conhecidos; a vida teve desde logo um bom aspecto. Pela sua parte, o marido mostrava-se mais atento aos seus desejos. Era uma renascença? Ela supôs que sim e isto ajudou a fazê-la sarar da alma. Não faltava quem a cortejasse, quem a admirasse, e naturalmente, quem a invejasse, pela beleza, pela graça, pelas maneiras simples e discretas, particularmente suas. Xavier parecia tirar vaidade desse efeito geral. Seria mais um elo que os prendesse intimamente. Entretanto, pouco depois de chegados, começaram as suas noitadas fora de casa. Da primeira vez, quando ele se recolheu (quatro horas da manhã) ainda D. Paula estava acordada, ansiosa, vestida, e atirou-se a ele, satisfeita de o ver. Sinceramente receava algum perigo; não pensou em amores nem cartas. Xavier não correspondeu à ansiedade da mulher, nem entendeu os seus receios. Respondeu-lhe irritado; disse-lhe que fizera mal em não ter dormido.
— Sou alguma criança?
— Mas, Xavier...
— Roceiro, sou; mas conheço a cidade na ponta dos dedos. Você está já com as manchas das moças da corte; não tarda algum ataque de nervos. Que choro é esse? Vá dormir, não me aborreça. Descanse, que não me perco.
A segunda noitada foi dali a três dias; D. Paula só tarde pôde dormir; acordou, quando ele chegou, mas não descerrou os olhos. Desconfiou que fossem mulheres; ele confessou lhe, no dia seguinte, que estivera em casa de um amigo, jogando o voltarete. — Quando demos por nós eram duas horas da noite, concluiu.
Dali em.diante, quando tinha de passar fora a noite, não saía de casa sem lhe dizer.
— Vou ao voltarete. D. Paula soube que era verdade, e acostumou-se a dormir à hora da roça, porque nas noites de teatro ou de visitas, ele não deixava de a acompanhar, e dormiam naturalmente tarde.
V
Voltaram à corte uma e muitas vezes, até que Xavier abandonou de todo a fazenda nas mãos do administrador, e ficou a viver aqui. Por casa, entregou a mulher a si mesma e continuou a vida de sempre. Eram já passados três anos. O costume e o decoro os prendiam; nenhum deles amava o outro. Não veio nenhum filho que pudesse suprir as lacunas do amor conjugal.
Dona Paula ia ficando cada vez mais formosa. A corte aperfeiçoou os encantos naturais. No interior não tinha necessidade de observar todo o ritual elegante nem a grande variedade da moda.
Na corte, a necessidade impunha-se, e achava na alma dela excelente disposição. Gostava de andar bem, de aparecer muito, de ir a toda parte; e não lhe faltavam amigos nem parentes que a acompanhassem e lhe satisfizessem todos os desejos. Bailes, teatros, passeios, teve tudo o que quis, não lhe negando o marido dinheiro para coisa alguma. Às vezes, estremunhado do jogo, ele respondia-lhe errado:
— O baile do Vergueiro?
— Sim; é no dia 7.
— Mas o trunfo era espadas.
— Que espadas?
— Eu tinha o rei e o quatro.
— Ora, Xavier, não falo de cartas, falo do baile do Vergueiro, no dia 7 de outubro; estamos convidados.
Não pareça demais essa confusão do homem. Naturalmente, alguma partida especial, grave, luta grande, ou pelo dinheiro ou pela honra da vitória, tomara a casa do cérebro onde nenhuma outra idéia achava alojamento. Dona Paula chegava já a rir desses desconchavos. Depois, explicava o riso, e ele ria também, e referia o motivo da trapalhada. Quando ela notava que isso mesmo o aborrecia, evitava explicações. O marido era enfadonho, longo, repisava o que dizia, e achava pequeno interesse em coisas que, para ela, não valiam nada. Já lhe não importavam horas de chegada. Ele entrava de madrugada, às vezes de manhã, às seis horas e mais. Dona Paula dormia até nove, e almoçava só. Outras vezes, o jogo era em casa; mas a casa era grande, e a sala do jogo era ao fundo. Na frente ela recebia, tocava e ria. Era convenção entre ambos, em tais casos, dizer que ele estava fora.
VI
Correu assim um ano, e mais. Dona Paula ia para vinte e seis anos, como quem sobe de esplendor em esplendor, devia ser uma daquelas mulheres que os trinta aperfeiçoam, e os quarenta não conseguem enxovalhar. Que era mais natural que a admirassem? Não lhe faltavam olhos cobiçosos, nem desejos mal sofridos. Ela saboreava-os com discrição, sem corresponder a nada, durante os primeiros tempos; mas a liberdade, o número dos adoradores, a persuasão de não perder com isso, fê-la receber agradecida e lisonjeada o culto de tanta gente. Contavam-lhe muitas conversações a seu respeito; os homens idosos, mas brincalhões, repetiam-lhe na cara, ao pé das próprias mulheres, coisas que corriam fora — nomes que lhe davam, estrela do sul, rainha das salas e outros tão banais, como esses, mas igualmente sinceros.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma partida. A Estação, Rio de Janeiro, n. 24, p. 282-284, 31 dez. 1892.