Por Machado de Assis (1870)
O destino. E sabes quem me escreve?
CLÉON
Tua mãe.
MIRTO
Já morreu.
CLÉON
Algum antigo amante?
MIRTO
Lísicles.
CLÉON
Vive?
MIRTO
Sim. Depois de andar errante
Numa tábua, à mercê das ondas, quis o céu Que viesse encontrá-lo um barco do Pireu. Pobre Lísicles! teve em tão cruenta lida A dor da minha morte e a dor da própria vida. Em vão interrogava o mar cioso e mudo. Perdera, de uma vez, numa só noite, tudo, A ventura, a esperança, o amor, e perdeu mais: Naufragaram com ele os poucos cabedais. Entrou em Samos pobre, inquieto, semimorto, Um barqueiro, que a tempo atravessava o porto, Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a aventura Da malfadada Mirto.
CLÉON
É isso, a sorte escura
Voltou-se contra mim; não consente, não quer Que eu me farte de amor no amor de uma mulher. Vejo em cada paixão o fado que me oprime; O amar é já sofrer a pena do meu crime. Íxion foi mais audaz amando a deusa augusta; Transpôs o obscuro lago e sofre a pena justa, Mas eu não. Antes de ir às regiões infernais São as graças comigo Eumênides fatais!
MIRTO
Caprichos de poeta! Amor não falta às damas; Damas, tem-Ias aqui; inspira-lhe essas chamas.
CLÉON
Impõe-se leis ao mar? O coração é isto; Ama o que lhe convém; convém amar a Egisto Clitemnestra; convém a Cíntia Endimião; É caprichoso e livre o mar do coração;
De outras sei que eu houvera em meus versos [cantado;
Não lhes quero... não posso.
MIRTO
Ai, triste enamorado.
CLÉON
E tu zombas de mim!
MIRTO
Eu zombar? Não; lamento
A tua acerba dor, o teu fatal tormento.
Não conheço eu também esse cruel penar? Só dois remédios tens; esquecer, esperar. De quanto almeja e quer o amor nem tudo alcança;
Contenta-se ao nascer coas auras da esperança; Vive da própria mágoa; a própria dor o alenta.
CLÉON
Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão lenta!
MIRTO
Não sabes esperar? Então cumpre esquecer. Escolhe entre um e outro; é preciso escolher.
CLÉON
Esquecer? sabes tu, Mirto, se a alma esquece o prazer que a fulmina, e a dor que a fortalece?
MIRTO
Tens na ausência e no tempo os velhos pais do [olvido,
O bem não alcançado é como o bem perdido, Pouco a pouco se esvai na mente e coração; Põe o mar entre nós... dissipa-se a ilusão.
CLÉON
Impossível!
MIRTO
Então espera; algumas vezes
A fortuna transforma em glórias os reveses.
CLÉON
Mirto, valem bem pouco as glórias já tardias.
MIRTO
Um só dia de amor compensa estéreis dias.
CLÉON
Compensará, mas quando? A mocidade em flor Bem cedo morre, e é essa a que convém a amor. Vejo cair no ocaso o sol da minha vida.
MIRTO
Cabeça de poeta, exaltada e perdida!
Pensas estar no ocaso o sol que mal desponta?
CLÉON
A clepsidra do amor não conta as horas, conta As ilusões; velhice é perdê-las assim;
Breve a noite abrirá seus véus por sobre mim.
MIRTO
Não hás de envelhecer; as ilusões contigo Flores são que respeita Éolo brando e amigo. Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as colhamos.
CLÉON
Se eu a Lesbos não vou.
MIRTO
Podem colher-se em Samos.
CLÉON
Voltas breve?
MIRTO
Não sei.
CLÉON
Oh! sim, deves voltar!
MIRTO
Tenho medo.
CLÉON
De quê?
MIRTO
Tenho medo... do mar.
CLÉON
Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica. Lesbos é para ti mais formosa e mais rica. Mas a pátria é o amor; o amor transmuda os ares. Muda-se o coração? Mudam-se os nossos lares. Da importuna memória o teu passado exclui; Vida nova nos chama, outro céu nos influi. Fica; eu disfarçarei com rosas este exílio; A vida é um sonho mau: façamo-la um idílio. Cantarei a teus pés a nossa mocidade. A beleza que impõe, o amor que persuade, Vênus que faz arder o fogo da paixão,
Teu olhar, doce luz que vem do coração. Péricles não amou com tanto ardor a Aspásia, Nem esse que morreu entre as pompas da Ásia, A Laís siciliana. Aqui as Horas belas
Tecerão para ti vivíssimas capelas.
Nem morrerás; teu nome em meus versos há de ir, Vencendo o tempo e a morte, aos séculos por vir.
MIRTO
Tanto me queres tu!
CLÉON
Imensamente. Anseio
Por sentir, bela Mirto, arfar teu brando seio, Bater teu coração, tremer teu lábio puro, Todo viver de ti.
MIRTO
Confia no futuro.
CLÉON
Tão longe!
MIRTO
Não, bem perto.
CLÉON
Ah! que dizes?
MIRTO
Adeus?
(passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papiro) Curiosa que sou!
CLÉON
São versos.
MIRTO
Versos teus?
(Lísias aparece ao fundo.)
CLÉON
De Anacreonte, o velho, o amável, o divino.
MIRTO
A musa é toda iônia, e o verso é peregrino. (abre o papiro e lê)
"Fez-se Níobe em pedra e Filomena em pássaro. "Assim
"Folgaria eu também me transformasse Júpiter "A mim.
"Quisera ser o espelho em que o teu rosto mágico "Sorri;
A túnica feliz que sempre se está próxima "De ti;
"O banho de cristal que esse teu corpo cândido "Contém;
"O aroma de teu uso e donde eflúvios mágicos "Provêm;
"Depois esse listão que de teu seio túrgido "Faz dois;
"Depois do teu pescoço o rosicler de pérolas; "Depois...
"Depois ao ver-te assim, única e tão sem êmulas "Qual és,
"Até quisera ser teu calçado, e pisassem-me "Teus pés."[1]
Que magníficos são!
CLÉON
Minha alma assim te fala.
MIRTO
Atendendo ao poeta eu pensava escutá-la.
CLÉON
Eco do meu sentir foi o velho amador;
Tais os desejos são do meu profundo amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma ode de Anacreonte. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 12-25, jan. 1870.