Por Machado de Assis (1860)
— Tu estás doido! Não me dirás de que maneira se fará esse chamado?
— Simplesmente, respondeu com tranqüilidade Ernesto Guimarães; incumba-se alguém de lhe captar a atenção, de se insinuar primeiro no espírito, e depois no coração. Entre um que adora e outro que a trata com indiferença, é possível que a escolha não se demore, e tudo está salvo. Que te parece?
— Sim, o meio não seria mau, respondeu Luís; mas não é decisivo nem pronto.
— Decisivo não é, mas é um meio e pode ser tentado; pelo que respeita à prontidão, o casamento não é já e há tempo para mudar muita coisa.
Luís refletiu alguns instantes.
— Que te parece? perguntou outra vez Ernesto Guimarães.
— Uma tolice. Duas objeções oponho que deitam por terra o teu projeto.
— Vejamos a primeira.
— A primeira é que eu não vejo quem se encarregará de atrair a Fernanda.
— Eu.
— Tu?
— Que tem?
Luís não pôde deixar de rir-se às bandeiras despregadas. O amigo riu-se também, mas afinal foi obrigado a interromper a hilariedade do amigo pedindo-lhe que dissesse em que pecava a sua pessoa para o papel a que se propunha.
— Em coisa nenhuma, respondeu o bacharel; acho-te excelente.
— Rio-me de ver que te queres prestar a este capítulo de romance, verdadeiro capítulo de maçada.
— Vejamos a segunda objeção, disse Ernesto.
— A segunda objeção é clara e não tem fácil resposta. Vamos que alcancemos tudo. Que adiantamos nós? A Fernanda não é um fim, é um meio; meu pai quer casar-me, é o seu fim. Escolhe minha prima porque ela me tem alguma afeição; no caso em que ela goste de outro, nem por isso meu pai desiste do primeiro intento.
Ernesto abanou a cabeça.
— És um pateta, Luís. Não nasceste para as grandes dificuldades. Que importa que teu pai não desista do intento? Daqui até março tens tempo bastante para iniciar certa reforma de costumes...
— Reforma?
— Aparente.
— Ah!
— Dissipada a paixão de tua prima, não é crível que teu pai ache logo à mão outra noiva. Tu continuas, entretanto, a tua reforma; vais ao júri; encomendas algumas coisas; eu posso até mandar citar o Martins por uns cem mil-réis que me deve há quinze dias. Teu pai vai perdendo a idéia do casamento à medida que te for vendo moderado... e o resto à sorte.
— Não há que dizer, observou Luís quando o amigo acabou de expor-lhe assim a traços largos o seu sistema; a idéia não é má e visto que não há outra, é certamente a melhor. Está dito; vais salvar-me.
— Às tuas ordens.
— Pobre amigo! é um verdadeiro sacrifício o que vais fazer.
— Não é, replicou Ernesto Guimarães, é distração. Eu ando enjoado, Luís; é-me necessário torcer por algum tempo o rumo à vida para lhe achar depois melhor sabor. A monotonia é o veneno do espírito. Um ano mais da vida que levo mata-me de aborrecimento; mas se me afastar dela alguns meses, com que alegria não voltarei depois! com que novas forças me atirarei a este mundo, que é o meu! Não é um favor que te faço; é um remédio que tomo e me há de curar. Incapaz de namorar uma moça por mim mesmo, acho certo prazer para servir a um amigo. Eis tudo.
— Sabes a minha opinião a teu respeito?
— Dize.
— Acho-te feroz.
— Eu acho-me angélico.
— Tenho medo de vir a ser como tu.
— Então casa-te.
— Antes a morte.
— Ou esta vida.
— Apoiado!
— Fica pois assentado que eu vou sitiar o coração de tua prima. É bonita?
— Não é feia.
— Espirituosa?
— Como um cepo.
— Paciência! é uma paixão interina. Vamos jantar.
— Vamos.
CAPÍTULO IV
Mal sabia D. Fernanda Tavares a que experiências a destinavam estes dois amigos, e de que maneira nova e romântica o primo se queria desfazer dela. Que ela gostava do primo era coisa que podia ver quem lhe examinasse os olhos nas ocasiões em que se achavam juntos na casa dele ou na casa dela. Só o bacharel nunca reparara nisso; a mãe dele porém que a amava como filha, e que desde longa data imaginara uma união entre ambos, logo percebeu o que se passava no coração da sobrinha. Não se demorou em comunicá-lo à mãe de Fernanda, que era sua irmã mais moça, e, depois, ao desembargador. Nenhum caso fez este da descoberta durante os primeiros tempos; mas um dia vendo que o filho não tomava emenda, achou que era azado meio casar os dois primos, e comunicou, como vimos, a resolução ao bacharel. Sua opinião era que o rapaz ia ficar contentíssimo.
Tinha razão de o supor.
Fernanda era realmente bonita. Tinha a cor morena, os olhos negros e naturalmente lânguidos, todas as feições delicadas e corretas. As mãos em que o bacharel nunca reparara, eram obras-primas, e o pé, nas poucas vezes em que se atrevia a transpor a fímbria do vestido, convenceu aos profanos de que além daquilo só se fosse invisível de todo.
Nenhum desses dotes, nem todos juntos, seduziram nunca o coração desocupado do primo Luís. O amor em que ela ardia era silencioso e paciente. Tinha esperança de que mais tarde ou mais cedo viria a triunfar, e com essa esperança vivia e sofria. Uma só palavra de Luís causaria alegria a toda a família — a prima, o pai, a mãe, e a tia; mas essa palavra os lábios dele teimavam em não dizer.
— Esperemos, dizia o coração de Fernanda.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quem boa cama faz... A Marmota, Rio de Janeiro, 1860.