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#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

A velha entrou depois e o carro partiu logo; Daniel olhou para dentro: a moça ia conversando com a velha, e sem prestar atenção a coisa alguma.

Toda esta cena, aliás rápida, escapou a Valadares; Daniel, um pouco despeitado com o gesto da moça, sorriu-se e tirou o relógio do bolso dizendo:

— Vamos jantar?

— Vamos, disse Valadares.

Na ocasião em que iam descer para o Hotel Inglês (onde Valadares jantava habitualmente), Daniel viu na calçada uma liga, abaixou-se e apanhou-a.

— Será a liga da pequena? perguntou Valadares.

—Honny soit qui mal y pense! respondeu Daniel sorrindo e guardando a liga no bolso. Foram jantar.

Durante o jantar, não se conversou mais no episódio da liga, nem da moça do Norte. Apenas, quando veio o café, Daniel perguntou onde morava aquela família, e soube que em Mata-cavalos. A conversa não passou disso.

A verdade histórica pede que se diga que ainda durante essa tarde a lembrança da dona da liga perturbou um pouco o espírito de Daniel; mas posso afirmar que à noite já ele de nada mais se lembrava.

Quando voltou à casa, atirou a liga para dentro de uma secretária, e nisto ficou tudo.

III

As senhoras do carro moravam em Mata-cavalos.

A velha era irmã de um deputado do Norte; chamava-se Madalena e era viúva de um oficial do exército. Augusta, sua filha, contava perto de vinte anos, e era, no dizer dos que a conheciam, a mais bela cara da província. Mas não se lhe notavam somente as feições; Augusta distinguia-se principalmente pela graça e elegância das maneiras, a que dava realce um certo ar de altivez.

Tendo sido eleito deputado, o dr. B..., irmão da velha e tio da moça, entendeu que aproveitaria e ensejo de ver a capital do império, trazendo consigo as duas senhoras. A proposta foi aceita com entusiasmo por Madalena e simples agrado por Augusta. Efetuou-se a viagem e na época em que começa esta narrativa já eles aqui se achavam havia dois meses, tendo vindo um mês antes da abertura das câmaras. Augusta fez sensação nas salas em que apareceu; a beleza, a graça, as maneiras da moça a todos impressionavam e todavia eram comuns essas coisas na vida fluminense; mas em Augusta tudo isso trazia um ar característico, um cunho pessoal, que distinguia a moça das demais mulheres.

Impressionado pela distinção de Augusta, um desalmado rapaz disse-lhe uma noite que não supunha a província capaz de produzir obra tão prima, e que ela era com certeza a fênix das provincianas.

— A natureza compensa tudo, respondeu Augusta; é possível que na província as senhoras como eu sejam raras, mas os homens como o senhor com certeza são raríssimos.

Esta resposta foi ouvida por um amigo do rapaz, que não tardou em espalhá-la, e dentro

de pouco tempo foram comentadas as palavras da bela provinciana.

— De mais a mais tem espírito, observou um sujeito.

— Parece.

A vítima do dito estava presente, e disse:

— É pena, porque é bonita.

— É um realce, acudiu o primeiro; e para resumir na mesma designação as suas graças e as suas arranhaduras, chamar-se-á a onça de Medicis.

O nome não pegou, porque dos cinco rapazes então presentes, apenas o autor da idéia sabia da existência de uma Vênus de Medicis, condição essencial para compreender o dito; contudo, foi este acolhido com o riso dos circunstantes, um desses risos esquerdos que não querem dizer coisa nenhuma.

A reputação de Augusta ficou firmada com mais um ou dois repentes iguais ao primeiro, de maneira que, quando a gente a encontrava, se sentia tomada por dois sentimentos diversos: a fascinação e o temor. Admirava-se a moça como se admirava uma bela pantera.

Nenhum destes antecedentes era conhecido pelos dois rapazes com quem travamos conhecimento na Rua do Ouvidor; Valadares, o único que conhecia a família, só a conhecia de vista, por tê-la encontrado em casa de terceiro.

Mas, se em vez de seguirem para o Hotel Inglês, tivessem entrado na loja, depois da partida do carro, ouviriam este diálogo dos dois deputados a meia voz:

— Como vão os seus negócios com a Augusta? perguntou o mais velho dos dois.

— Na mesma, respondeu o mais moço.

— Então, nenhuma esperança?

— Esperança sempre. Já lhe disse uma vez e repito: eu tenho a ambição de ser ministro de Estado, ou embaixador ou qualquer outra coisa por este gênero; não tanto porque esses cargos pudessem legitimamente seduzir a ambição política; mas principalmente porque talvez assim obtenha as boas graças de Augusta.

— Disse-me isso uma vez, respondeu o outro; mas cuidei que fosse simplesmente gracejo; há de lembrar-se que o disse rindo. Desta vez, fala-me com seriedade. Será certo que as suas ambições têm por principal esse motivo?

— Estou apaixonado.

O interlocutor sorriu e replicou:

— Espécie nova: político por amor. Há de ser bonito num romance, mas no Parlamento é...

— Ridículo, bem sei.

— Justamente.

— E, no entanto, é verdade.

Houve um instante de silêncio.

— Luís, disse o interlocutor do namorado, deixe-me dar-lhe este nome: tenho o direito da idade. Como contaremos com você, se o seu procedimento depende todo do capricho de uma moça ?

(continua...)

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