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#Contos#Literatura Brasileira

Possível e Impossível

Por Machado de Assis (1867)

Teófilo sorriu-se.

Depois perguntou:

— Achas esquisito?

— Acho. É a tua última palavra?

— Bem.

E como o outro se afastasse tristemente, Teófilo deu um passo para ele e perguntou-lhe se esta escusa o magoava.

— Sim, respondeu o amigo. Vou ser indiscreto. Eu e alguns outros imaginamos convidar te para esta partida a ver se te distraías e saías da tristeza em que andas. Era um serviço de amigo. Convencionamos nada dizer-te, mas eu sou forçado a isto. Não queres? Dou por finda a minha missão.

— Espera, disse Teófilo.

O moço deteve o passo.

Teófilo refletiu um bocado e respondeu:

— Pois sim, vou. Agradeço a vocês o cuidado que tomaram por mim.

— Muito bem.

— Onde é a partida?

— É em casa do comendador N... Conheces?

— Falamo-nos duas vezes.

— É quanto basta. Além de que ele próprio insta para que tu vás. A partida é sábado.

— Até sábado.

Separaram-se os dois.

Teófilo gastou uma noite inteira em construir as expressões com que devia dar parte à mãe de que ia à partida do comendador N... Parecia-lhe crime ir divertir-se e deixar em casa aquelas duas pessoas que estremecia.

D. Teresa, quando soube da resolução arrancada a seu filho pelas instâncias dos amigos, respondeu-lhe com palavras de verdadeira alegria.

— Ainda bem, dizia ela, que vais sair da vida monótona em que andas. Que mocidade a tua! Nem uma distração, nada! É preciso não estragar os melhores anos, Teófilo! Quanto a Helena, se Teófilo reparasse melhor, viria que atrás do sorriso de prazer que a moça procurava desfolhar dos lábios vermelhos, havia outro sorriso de mágoa e de pesar. Seria mágoa e pesar de moça por não ir tomar parte igualmente no sarau? Chegou o sábado aprazado.

Teófilo tinha pouco que fazer nesse dia. Voltou para casa cedo, a fim de aproveitar, na companhia da família, as horas que ia perder no baile do comendador. À hora marcada vestiu-se e saiu.

Em casa do comendador estavam reunidas algumas entidades políticas, outras literárias, outras elegantes, outras sem definição. Estes eram em maior número. Augusto, o amigo que convidara Teófilo, apresentou-o à família do comendador e a algumas das pessoas mais notáveis da reunião.

Teófilo tinha um ar modesto e discreto que não podia ajudá-lo nas relações com os outros. O grande talento da conversação é saber calar-se, diz A. Karr; Teófilo tinha esse talento, mas em excesso; não podia fazer fortuna.

Era a primeira vez que o poeta se achava em uma reunião de certa ordem. Tudo ali contribuía para fasciná-lo. O esplendor das mulheres, a abundância das luzes e das flores, as condecorações, os nomes ilustres que se pronunciava de cada lado, o bulício, o perfume, tudo se acumulava para dar ao rapaz a idéia de um mundo novo e imaginário.

Augusto, como bom amigo, serviu a Teófilo de cicerone. Apresentou-o a algumas mulheres em quem fizeram impressão o ar tímido e recatado do poeta. Augusto obrigou-o mesmo a dançar uma quadrilha.

No fim de uma hora, Augusto, Teófilo e alguns outros amigos estavam em uma sala contígua ao salão do baile, mas perfeitamente deserta naquela ocasião.

— Como achas o baile? perguntou um dos rapazes a Teófilo.

— Esplêndido!

— Bem, disse Augusto. Vamos agora à eleição. Nós somos os grandes eleitores da rainha do baile. Faço de presidente com um voto na matéria. Digam lá vocês quem lhes parece que seja a rainha.

— Mas falta uma que só vem às onze horas, disse um.

— Quem?

— A Sílvia.

— Venha ou não, disse outro, eu já achei a rainha.

— Quem é?

— É a Leocádia Martins.

— Não digas isso, exclamaram alguns rapazes.

— Por quê?

— Porque é uma tolice!

— Tolice!

— Até o nome, disse Augusto. Ora vejam lá: a rainha Leocádia.

— São gostos.

Augusto voltou-se para Teófilo e perguntou-lhe:

— Mas independente de não estar completo este Olimpo, quem é Juno na tua opinião?

— Não sei: acho-as todas igualmente belas.

— Não reparaste bem. Há algumas superiores.

— Será por não reparar bem; mas até aqui pareceu-me que eram todas igualmente belas.

— Esperemos pela Sílvia. Que horas são?

— Falta um quarto para as onze.

— Esperemos.

Os rapazes conversaram sobre coisas diversas, apreciando minuciosamente as belezas do baile, e apreciando não menos minuciosamente alguns ridículos já observados durante a noite.

Teófilo não tomava grande parte na conversa. Estava absorto em reflexões. Recordava lhe sua mãe e sua irmã de coração, talvez acordadas àquela hora trabalhando à roda da modesta mesa de família. Comparava aqueles esplendores do sarau com a simplicidade e a nudez da casa em que deixara as duas criaturas cuja felicidade buscava. Uma espécie de remorso doía-lhe na consciência e um peso lhe apertava o coração.

De repente estremeceu. Augusto reparou nisso e dirigiu-se ao poeta:

— Que tens?

Teófilo não respondeu. Tinha os olhos cravados na direção da sala de dança. Todos olharam para lá.

— E Sílvia! exclamaram.

Com efeito, uma moça alta acabava de entrar e atravessava o salão, com a majestade com que Juno devia atravessar o Olimpo, nos tempos em que havia Olimpo e Juno.

(continua...)

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