Por Machado de Assis (1874)
— Dentro de casa?
— Sim.
— Bem digo eu; aqui há coisa. Estes objetos dizem claramente que Pedro Antão era feiticeiro.
Mendonça sorriu com desdém; posto que fosse supersticioso e timorato, Mendonça não acreditava em sortilégios. Eu era então um pouco dado a essas crenças, e ainda hoje não deixo de as ter. Depois que os filósofos modernos, com a mania de destruir tudo, afirmaram que o criador era uma invenção dos homens, eu, que não dou ao acaso as honras de ter criado o universo, substituí Deus por um grande feiticeiro, autor de todas as coisas, e nem por isso sou mais absurdo que os filósofos.
— Que quer dizer, continuei eu, esta madeixa de cabelos amarelos?
— É uma madeixa de cabelos, respondeu Mendonça; amareleceram com o tempo.
— E esta página de hebraico não quer dizer alguma coisa?
— Não sei se é hebraico ou siríaco.
— Deve ser hebraico. Eu não conheço essas línguas, mas conheço os caracteres; estes são hebraicos. Quanto a esta cruz metida entre um baralho de cartas, creio que não dirás ser o bem e o mal, emblema da vida humana. Mas deixemos isto; que houve notável na vida do tio?
— Coisa nenhuma. Viveu aqui recluso sem procurar a família; nem recebê-la em casa. Ao princípio, correu que o tio tinha alguma beleza escondida, e meu pai procurou saber disso conversando com o criado, mas o criado disse que não havia ninguém. Verdade é que o primo Antônio disse que uma noite, passando por aqui, viu da rua uma sombra de mulher passeando na sala de visitas; mas eu o convenci logo de que seria o mesmo tio, embrulhado em um lençol.
— Que diziam os vizinhos?
— Apenas um afirmou ter ouvido uma noite gemidos lúgubres cá dentro; no dia seguinte, não sei se por humanidade, se por curiosidade, mandou o vizinho saber o que era; o tio correu o portador a pau. Queres que te diga a minha opinião?
— Não, não digas. Veremos se eu descubro...
— Não tens nada que descobrir: creio que o tio era doido.
— É o que te parece. Veremos isso. Talvez esta secretária nos diga alguma coisa; mas está fechada. Como abri-la?
— Arrombe-se amanhã.
— Pois sim; mas vamos ver o resto do sótão.
Peguei na vela e encaminhamo-nos para o interior. No corredor que separava as duas salas, bati com o pé num objeto que foi parar três passos adiante.
Era um par de óculos de ouro.
Examinamos os óculos que nada particular indicavam; tinham asas grossas e vidros azuis sem grau. Conheci que era uma quarta espécie de óculos; usava-os Pedro Antão para abrandar os raios da luz quando trabalhasse ou lesse de noite. Um dos vidros estava rachado.
Seguimos levando os óculos.
Nenhuma mobília tinha a sala do fundo. Ao fundo havia uma janela que dava para o telhado. Estava fechada com uma pequena aldraba.
— Aqui não há que ver, disse Mendonça querendo voltar.
— Pelo contrário, disse eu.
— Que é?
— Vês isto?
O objeto que eu mostrava a Mendonça era uma escada de seda atirada a um canto. Estava gasta pelo uso e estragada pelo desuso.
— Creio que isto é alguma. Vejamos a janela.
Abri a janela, que era baixa. Dava para o telhado da própria casa. Olhei em redor; todas os casas eram baixas, exceto uma que ficava à esquerda, que era um sobrado e tinha uma janela que dava para o telhado. Junto da janela do sótão havia algumas telhas quebradas.
Fechei a janela, e disse rindo a Mendonça:
— Já me não escapa o homem!
— És um visionário, foi a única resposta de Mendonça.
Quando íamos a sair, Mendonça deu um grito.
— Que é?
— Vê.
Olhei e vi a um canto da sala dois olhos verdes fitos sobre nós. Quis aproximar-me; Mendonça agarrou-me pelas abas do paletó. Fiz um esforço e fui até o canto ver o que eram aqueles olhos.
Dei uma gargalhada.
Era um gato preto que ali se achava, o qual, assustado com a gargalhada, deitou a correr, desceu a escada e não apareceu mais.
Começo a tremer, disse Mendonça; que quer dizer este gato aqui em cima?
— Uma destas duas coisas; ou era companheiro do homem nos sortilégios; ou é um gato da vizinhança que se acostumou a vir aqui passar a noite em procura de ratos.
— Sera, será.
— Inclino-me à segunda hipótese, porque, ainda que eu suponha teu tio amante de feitiçarias, creio que não é essa a parte mais importante da vida dele.
— Qual será então?
— Meu caro, temos já todos os elementos de que compor um romance; vamos para a outra sala.
Quando ali chegamos, sentei-me tranqüilamente, acendi um charuto, e brincando com os óculos de Pedro Antão, comecei a falar.
— Viste aqui uma casa velha, trastes velhos, ares velhos, nada mais. Eu vi aqui dentro uma história misteriosa. Organizar no vácuo não é coisa que todos possam fazer. Vejamos se não me achas razão.
Mendonça sentou-se e eu comecei:
— Sabes a razão da reclusão do tio?
— Não, respondeu o meu companheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Os óculos de Pedro Antão. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.