Por Machado de Assis (1867)
Ernesto lançou rapidamente os olhos para um espelho e reparou que estava realmente pálido.
Mas esta palidez não resultava de moléstia alguma, ou antes resultava de uma moléstia que só agora se manifestava em toda a sua ação.
Onda estava segura de seu triunfo. Via o efeito que produzia no espírito de Ernesto e comprazia-se nessa vitória que tão voluntariamente adiara. O essencial era convencer a Ernesto que ela o amava. Ora, o tom das suas palavras, a magia do seu olhar, faziam entrar no espírito do moço esta convicção.
Depois de duas horas de conversa, em que o tempo pareceu correr mais rapidamente do que costumava, para Ernesto entende-se, Onda estendeu graciosamente a mão esquerda para Ernesto e perguntou-lhe:
- Vai ao Teatro Lírico?
- Oh! com certeza!
Ernesto não se pôde furtar a um desejo de tomar alguma coisa do tesouro que se lhe oferecia. Levou a mão de Onda aos lábios e imprimiu-lhe um beijo apaixonado. - Deste beijo, pensava Ernesto, pode nascer a minha ventura. Talvez até hoje ninguém ousasse a isto.
E na verdade, Onda pareceu estremecer sentindo os lábios do moço na pele alva e fina da sua mão de princesa.
Quanto às duas amigas, essas voltaram o rosto e não puderam esconder um sorriso, ao ver a figura de Ernesto e a graça cortesã com que ele se curvou e beijou a mão de Onda. Ernesto saiu com os sentidos exaltados, o coração palpitante, as idéias confusas; estava definitivamente namorado, e, o que é mais, pensava ele, tinha agarrado a bela fugitiva. À noite foi ao Teatro Lírico. Charton, que então fazia as delicias do público fluminense, cantava nesse dia uma das suas melhores criações. O teatro estava cheio; todos aplaudiam a artista com sincero entusiasmo ; nessa noite não cantava a competidora de Charton, a Emmy Lagrua; e, como é sabido, os freqüentadores do teatro tinham-se dividido em dois partidos extremados, fogosos, mais fogosos e extremados que os partidos episcopais no concílio de Nicéa.
Só Ernesto não se filiava a nenhum partido; o único objeto de partido para ele fulgia em um camarote da 2ª ordem. Onda estava esplêndida nessa noite. De sua cadeira Ernesto assestava quase constantemente o seu binóculo contra o camarote. Onda, que acompanhava todos os gestos e movimentos de Ernesto, fitava o olhar nos vidros do binóculo do moço e deixava errar nos lábios um sorriso fascinador.
Ernesto sabia que o sorriso era para ele, e subia proporcionalmente ao sétimo céu. Mas seria Ernesto o único cortesão da beleza de Onda que se achava no teatro? Outros havia que, de diversos pontos da sala, como outros tantos observadores astronômicos, estudavam a marcha e a beleza daquele planeta. No fim do primeiro ato convenceram-se todos de que havia na sala um preferido.
- Quem será? foi a primeira pergunta que cada qual fez a si.
E a resposta mental que para eles mesmos deram a esta pergunta foi:
- É natural que ele vá ao camarote.
E todos, caminhando por vias diversas e separadamente, chegaram quase ao mesmo tempo a um mesmo ponto: o camarote de Onda.
Eram três. Ernesto completava o número de quatro. Foi o último que entrou, radiante e feliz.
Quando entrou viu os três competidores, que ele já conhecia, conversando alegremente com a esquiva dama.
Por que alegremente?
Onda, ao primeiro que apareceu e que a censurara com meias palavras, respondeu:
- Pelo indiferente, ri-se; pelo escolhido... sente-se.
O pretendente sentiu bater-lhe o coração violentamente.
A tia de Onda, que se achava no camarote, não ouviu a conversa, nem que ouvisse lhe prestaria atenção.
Ao segundo despeitado Onda respondeu com um olhar significativo, como aquele que abatera Ernesto; ao terceiro poupou os olhos para poder falar a mão graciosa cujos músculos pareciam outros tantos fios elétricos.
De modo que, supondo-se cada qual mais feliz que o outro, enchia-se de certa vaidade e olhava com sincera compaixão para os outros.
E mais que todos Ernesto, que entrou no camarote com aquela confiança de quem sabe que causa uma grande satisfação, tão grande como seria grande o aborrecimento que os outros causariam.
E nenhum, depois de meia hora de conversação, mudava de parecer. Onda sabia conservar no espírito de cada um a convicção da sua preferência: uma palavra ambígua, um meneio de leque, um olhar, um gesto, tudo lhe eram armas para combater a dúvida e afirmar a fé no coração dos seus adoradores.
O resto da noite passou-se do mesmo modo, repetindo-se as visitas e confirmando cada um no espírito do outro a opinião de que era néscio e importuno.
No fim do espetáculo foi Ernesto que teve a honra de acompanhar Onda ao carro. Ia de cabeça alta, lançando um olhar de desdém para todos, e dirigindo-se freqüentemente a Onda, que lhe respondia com suma graça e volubilidade.
Junto aos últimos degraus da escada da porta lateral que dá para a Rua dos Ciganos estavam os seis amigos da aposta, risonhos e interrogativos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Onda. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1867.