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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

Alves não reparou na impressão que causou na mulher com as suas notícias a respeito de Moreira. Continuou a falar dele com o mesmo entusiasmo e volubilidade. Nada lhe disse, todavia, acerca da paixão; foi ela que encaminhou a conversa para esse lado.

— Mas por que motivo esteve ele tanto tempo fora? perguntou.

— Naturalmente porque se deu bem, respondeu Alves partindo uma pêra e acompanhando com os olhos o movimento da faca, e portanto sem ver a expressão de ansiosa curiosidade da mulher.

Houve um silêncio.

— A causa que o levou é que foi curiosa, disse ele repentinamente.

— Que foi?

— Uma paixão.

— Ah!

— Mas paixão que acabou logo, ao que parece, disse Alves.

— Fraca devia ser.

— Coisas da mocidade.

Eulália não fez nenhuma outra observação. Alves não deu fé da impressão que as suas palavras haviam causado na mulher. A tarde passou-se sem novidade; de noite apareceu Moreira, conforme havia prometido.

Não é preciso dizer ao leitor que, apesar dos onze anos passados e da mudança que parecia ter-se operado no espírito de Moreira, alguma coisa devia ele sentir ao transpor a soleira da porta do advogado. Não era amor, era antes curiosidade. A curiosidade porém não foi tão prontamente satisfeita como ele quisera, porque Eulália não apareceu na sala. Durante meia hora a conversa entre os dois amigos foi a mais aborrecida do mundo, não por culpa do advogado, que fazia largamente as despesas dela, mas por causa de Moreira que apenas contribuía com monossílabos.

Enfim apareceu Eulália.

Se nenhum deles estivesse prevenido, é provável que se desse algum desses lances de teatro que são o sinal de inesperadas catástrofes; ambos eles, porém, estavam prevenidos; o encontro não produziu nenhuma exclamação.

O que houve, sim, foi uma grande impressão em ambos, maior nela que nele, ou antes diferente, porque em Eulália falou principalmente a lembrança do passado, em Moreira falou a admiração do presente. A gentil menina que ele deixara aparecia-lhe agora formosa e imponente mulher.

Esta impressão dominou tudo mais. Isto, e certo interesse que tinha o ex-namorado em se mostrar acabrunhado, fez com que o Moreira da noite não parecesse o mesmo da manhã. Alves notou a diferença e atribuiu-a ao natural acanhamento a que o obrigava a presença da mulher.

Nem por isso deixou Moreira de contar alguns episódios (imaginários) da sua viagem pela Europa, os quais tendiam todos não só a dar a melhor idéia dos seus costumes, mas também a mostrar à moça que a imagem dela o acompanhou a toda a parte. Alves notou essa diferença de estilo e de história; mas, ainda aqui, era ela natural. Poderia ele contar em presença da esposa as aventuras de que lhe falou no café de manhã?

Evidentemente não.

— Patife! murmurou-lhe uma vez ao ouvido em ocasião em que Eulália se levantara; quem te ouvir, pensará que és um santarrão.

E nunca melhor nome assentou num homem do que o que lhe dera o advogado. Moreira era verdadeiramente um patife, um gentil patife se quiserem; mas, em todo caso, patife. Em tão pouco tempo mostrou ele aos olhos do leitor que nem amara a moça como parecera, nem era amigo do seu amigo. Patife embora, ou por isso mesmo, aceitou tomar uma xícara de chá, e prometeu ir lá jantar no dia seguinte.

No dia seguinte foi tão alvoroçado, mais alvoroçado do que na véspera. A razão era que lhe pareceu não estar de todo extinto no coração da moça o fogo que ele lhe acendera outrora. A leitora curiosa deseja naturalmente saber se Moreira se enganava. Não lhe sei dizer senão que nesse dia Eulália não apareceu absolutamente ao ex-namorado; pretextou uma dor de cabeça e meteu-se na cama.

O jantar, já se vê, não foi tão alegre como os dois amigos esperavam que fosse. Não o foi o jantar; mas foi-o com certeza a sobremesa. Encetavam a sobremesa quando Eulália apareceu na sala de jantar, com grande espanto de um e de outro, e ainda mais alegria que espanto. Moreira entendeu que alguma faísca, adormecida na cinza, de novo se ateara no coração da moça.

Seria isso?

Naquele dia era temerário julgá-lo; mas quinze dias depois estaria na verdade quem dissesse que os onze anos de ausência não haviam de todo vencido o primeiro amor de Eulália. Leu-lho o namorado nos olhos e muito antes havia-o ela lido no seu próprio coração.

A luta não podia ser mais cruel para uma moça honesta como ela, que assaz discreta para ver que o esposo a amava como no primeiro dia e que antes de tudo estavam os seus deveres. Longos e cruéis foram os padecimentos íntimos de Eulália. Ninguém os suspeitou contudo; porque o seu ar de costume não era alegre, e ela esforçava-se por mostrar boa cara a todos, e guardava-se para sofrer na solidão.

III

Cerca de dois meses depois do jantar em casa de Alves, fazia Moreira consigo as seguintes reflexões, à proporção que ia engolindo o café em casa do tio, no Aterrado:

(continua...)

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