Por Machado de Assis (1866)
O talento e o cuidado é ter astúcia e tento.
Sente-se que isto é preto, e diz-se que isto é branco:
A tolice no caso é falar claro e franco.
Quero falar de um gato? O nome bastaria.
Não, senhor; outro modo usa a diplomacia.
Começa por falar de um animal de casa,
Preto ou branco, e sem bico, e sem crista e sem asa,
Usando quatro pés. Vai a nota. O argüido
Não hesita, responde: "O bicho é conhecido,
É um gato". "Não senhor, diz o argüente: é um cão".
JÚPITER
Tens razão, filho, tens!
VULCANO
Carradas de razão!
MARTE
Que acontece daqui? É que nesta Babel
Reina em todos e em tudo uma coisa - o papel.
É esta a base, o meio e o fim. O grande rei
É o papel. Não há outra força, outra lei.
A fortuna o que é? Papel ao portador;
A honra é de papel; é de papel o amor.
O valor não é já aquele ardor aceso;
Tem duas divisões - é de almaço ou de peso.
Enfim, por completar esta horrível Babel,
A moral de papel faz guerra de papel.
VULCANO
Se a guerra neste tempo é de peso ou de almaço,
Mudo de profissão: vou fazer penas de aço!
Cena IV
Os mesmos, CUPIDO
CUPIDO
(da porta)
É possível entrar?
JÚPITER
(a Marte)
Vai ver quem é.
MARTE
Cupido.
CUPIDO
(a Júpiter)
Caro avô, como estás?
JÚPITER
Voltas arrependido?
CUPIDO
Não; venho despedir-me. Adeus.
MARTE
Vai-te, insolente.
CUPIDO
Meu pai!...
MARTE
Cala-te!
CUPIDO
Ah! não! Um conselho prudente:
Deixai a divindade e fazei como eu fiz.
Sois deuses? Muito bem. Mas, que vale isso?
[Eu quis
Dar-vos este conselho; é de amigo.
MARTE
É de ingrato.
Do mundo fascinou-te o rumor, o aparato. Vai, espírito vão!
- Antes deus na humildade,
Do que homem na opulência.
CUPIDO
É fresca a divindade!
JÚPITER
Custa-nos caro, é certo: a dor, a mágoa, a afronta,
O desespero e o dó.
CUPIDO
A minha é mais em conta.
VULCANO
Onde a compras agora?
CUPIDO
Em casa do alfaiate;
Sou divino conforme a moda.
VULCANO
E o disparate.
CUPIDO
Venero o teu despeito, ó Vulcano!
MARTE
Venera
O nosso ódio supremo e divino...
CUPIDO
Quimera!
MARTE
... Da nossa divindade o nome e as tradições,
A lembrança do Olimpo e a vitória...
CUPIDO
Ilusões!
MARTE
Ilusões!
CUPIDO
Terra-a-terra ando agora. Homem sou;
Da minha divindade o tempo já findou.
Mas, que compensações achei no novo estado!
Sou, onde quer que vá, pedido e requestado.
Vêm quebrar-se a meus pés os olhares das damas;
Cada gesto que faço ateia imensas chamas.
Sou o encanto da rua e a vida dos salões,
Alfenim procurado, o ímã dos balões,
O perfume melhor da toilette, o elixir
Dos amores que vão, dos amores por vir;
Procuram agradar-me a feia, como a bela;
Sou o sonho querido e doce da donzela,
O encanto da casada, a ilusão da viúva.
A chibata, a luneta, a bota, a capa e a luva
Não são enfeites vãos: suprem o arco e a seta.
Seta e arco são hoje imagens de poeta.
Isto sou. Vede lá se este esbelto rapaz
Não é mais que o menino armado de carcaz.
MARTE
Covarde!
JÚPITER
Deixa, ó filho, este ingrato!
CUPIDO
Adeus.
JUPITER
Parte.
Adeus!
CUPIDO
Adeus. Vulcano; adeus, Jove; adeus, Marte!
Cena V
VULCANO, JÚPITER, MARTE
MARTE
Perdeu-se este rapaz...
VULCANO
Decerto, está perdido!
MARTE
(a Júpiter)
Júpiter, quem dissera! O doce e fiel Cupido
Veio a tornar-se enfim um homem tolo e vão!
VULCANO
(irônico)
E contudo é teu filho...
MARTE
(com desânimo)
É meu filho, ó Plutão!
JÚPITER
(a Vulcano)
Alguém chega. Vai ver.
VULCANO
É Apolo e Proteu.
Cena VI
Os mesmos, APOLO, PROTEU
APOLO
Bom dia!
MARTE
Onde deixaste o Pégaso?
APOLO
Quem? eu?
Não sabeis? Ora, ouvi a história do animal.
Do que acontece é o mais fenomenal.
Aí vai o caso...
VULCANO
Aposto um raio contra um verso
Que o Pégaso fugiu.
APOLO
Não, senhor; foi diverso
O caso. Ontem à tarde andava eu cavalgando;
Pégaso, como sempre, ia caracolando,
E sacudindo a cauda, e levantando as crinas,
Como se recebesse inspirações divinas.
Quase ao cabo da rua um tumulto se dava;
Uma chusma de gente andava e desandava.
O que era não sei. Parei. O imenso povo,
Como se o assombrasse um caso estranho e novo,
Recuava. Quis fugir, não pude. O meu cavalo
Sente naquele instante um horrível abalo;
E para repelir a turba que o molesta,
Levanta o largo pé, fere a um homem na testa.
Da ferida saiu muito sangue e um soneto.
Muita gente acudiu. Mas, conhecido o objeto
Da nova confusão, deu-se nova assuada.
Rodeava-me então uma rapaziada,
Que ao Pégaso beijando os pés, a cauda e as crinas,
Pedia-lhe cantando inspirações divinas.
E cantava, e dizia (erma já de miolo):
"Achamos, aqui está! é este o nosso Apolo!"
Compelido a deixar o Pégaso, desci;
E por não disputar, lá os deixei - fugi.
Mas, já hoje encontrei, em letras garrafais,
Muita ode, e soneto, e oitava nos jornais!
JÚPITER
Mais um!
APOLO
A história é esta.
MARTE
Embora! - Outra desgraça.
Era de lamentar. Esta não.
APOLO
Que chalaça!
Não passa de um corcel...
PROTEU
E já um tanto velho.
APOLO
É verdade.
JÚPITER
Está bem!
PROTEU
(a Júpiter)
A que horas o conselho?
JÚPITER
É à hora em que a lua apontar no horizonte,
E o leão de Neméia, erguendo a larga fronte,
Resplandecer no azul.
PROTEU
A senha é a mesma?
JÚPITER
Não:
"Harpócrates, Minerva - o silêncio, a razão".
APOLO
Muito bem.
JÚPITER
Mas Proteu de senha não carece;
De aspecto e de feições muda, se lhe parece. Basta vir...
PROTEU
Como um corvo.
MARTE
Um corvo.
PROTEU
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Os deuses de casaca. Rio de Janeiro, 1866.