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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta - Machado de Assis

Por Machado de Assis (1867)

Deitemos isto fora, que não presta: cartas de alguns indivíduos que se diziam amigos meus, no princípio, no meio e no fim. Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz... Mas a que vem esta filosofia? Deitemos fora, simplesmente, estas cartas.

Aqui estão uns versos: As margaridas. Ah! foram versos que eu escrevi quando ela me deu aquelas flores... São versos do bom tempo. Devo guardá-los? Para quê? Não, não servem; eram talvez bonitos; mas cantavam a mentira, endeusavam a falsidade... Não prestam.

Mais versos... São fragmentos de um poema humorístico: Os solidéus. É do tempo da Academia. Diziam todos que era esta a minha veia. Talvez fosse. Mas as circunstâncias mudam tudo, o gênio, o caráter e as tendências; e o homem de ontem nem sempre é o de hoje, como o de hoje nem sempre é o de amanhã. Foi o que me sucedeu. Se eu tivesse direito a uma biografia ou a um elogio histórico dava este ponto ao escritor para estudar e desenvolver.

Este poema, se eu tivesse acabado, havia de agradar, talvez. Tem por assunto o aparecimento do solidéu e o açodamento com que toda a gente deitou-se a imitá-lo para cobrir, mesmo aos seculares, as coroas que tivessem. O padre Simão era o meu herói em cuja boca punha eu muitas coisas boas de serem lidas... Devia tê-lo acabado. Infelizmente ficou no primeiro canto. De que serve mais? Não presta... Uma carta de Carlota. Foi das primeiras. É apaixonada. Ainda me lembra do júbilo em que fiquei quando a recebi. Parecia doido. Minha mãe não compreendia a alegria de que eu estava possuído e receava pela minha razão. Tranqüilizei-a contando-lhe tudo, as minhas esperanças, os meus projetos...

Cuidas, escrevia-me Carlota, que há frieza em mim? Oh! não creias! Amo-te como nunca amei a ninguém; sinto que encontrei em ti o corpo vivo dos meus sonhos de moça infeliz. Como te não hei de amar? Fria eu? Sou reservada, porque é preciso sê-lo. Meu tio destinou-me a um homem que eu aborreço; mas teima nisso e eu não tenho querido romper de uma vez. Tenho esperança de convertê-lo à razão. Mas se julgas que por prova do meu amor devo deixar e acompanhar-te, fala, eu sou tua escrava. Acredita, meu poeta, que eu te amo como ainda não amou mulher alguma. — Tua escrava! Esta expressão matou-me. Escrava! isto é, dependia de mim, vivia de mim, por mim, para mim. Era o amor como eu o compreendia, como a minha alma ardente o desejava: o amor escravidão, o amor que não faz valer direitos, nem vontades, nem caprichos. Viver assim um do outro, pelo outro, para o outro, tal era o modo do amor que pode resgatar a pequenez moral dos homens, em que o interesse e o cálculo frio substituíram todos os sentimentos generosos e magnânimos. Este ideal encontrara eu em Carlota; como não ficaria contente? Mas depressa...

Guardemos esta carta. Há de ficar ao lado desta outra, tão diversa, contraste tamanho que assusta e repugna, irrita e admira; reverso da medalha; face sombria depois da face brilhante; ponto corrompido depois do ponto são. Ou não: a primeira era a rede do engano: o fundo moral daquela mulher está na última, negro, repulsivo, mas verdadeiro. Era toda má.

Que me respondia ela às minhas exprobrações?

... O que deve fazer é fugir de mim. Se é real esse amor que me diz ter, dou-lhe de conselho que mude de terra, de modo que longe dos olhos fique-lhe eu longe do coração, o que será uma fortuna para nós ambos. Isto é fácil e proveitoso. Quanto aos juramentos que me recordou, respondo que eu mereceria censura se fizesse de mim tão infalível que nunca errasse. Ora, eu erro, errei. Salvo-me do erro, reconhecendo que foi erro e dizendo francamente que a leviandade é que teve parte nessas promessas tão puerilmente solenes. Pense nisto, e verá se não é assim. Console-se e anime-se, é o que lhe tenho a dizer...

A carta continua; é toda no mesmo sentido; a impudência e a crueldade. Ah! se tu soubesses, Carlota, o que me fizeste e fazes ainda sofrer! ...

Sinto passos. É o médico. Fechemos a gaveta.

VII

— Bom dia, doutor.

— Viva, meu doente.

— Como me acha?

— A julgar pelas feições, melhor. Como passou a noite?

— Assim, assim.

— Mas por que não está deitado?

— Não posso. E nem quero. Seria incivilidade esperar a minha grande visita deitado numa cama.

— Que visita?

— A morte.

— Ora!

— Com certeza. Há de dizer-me que não. É o que se diz a todos os doentes. Parece que isto os anima. Mas se os anima, descuida-os; e é exatamente o que não me acontece. Estava eu agora cuidando de arranjar uns papéis, a fim de que nada me fique por arranjar quando eu mudar de domicílio...

— Deixe essas idéias.

— Entristece-se? Que faria quando eu lhe contasse a idéia que eu tive ontem?

— Que idéia foi?

— Foi a de mandar aprontar e medir eu mesmo o meu caixão...

— Faz um favor?

— Qual? doutor.

— Não fale assim.

— É fácil.

— Não fale, porque não só isso atrasa-lhe a cura, como ainda há de entristecer sua mãe.

— Mas eu não lhe digo nada...

(continua...)

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