Por Gregório de Matos (1696)
Pelos naipes da baralha
vos faço, Nise, um retrato,
levantai, que eu dou as cartas.
Saiu de ouros. Vou trunfando.
Ouro é o vosso cabelo,
e de preço, e valor tanto,
que desse pêlo as manilhas
eu co'a espadilha não ganho.
A testa é de outro metal,
que na baralha não acho,
que muito, que me ganheis,
se jogais com naipes falsos.
Não acho em toda a baralha
o naipe de prata, salvo
copas: são copas de prata,
que à vossa testa comparo.
Os olhos são matadores,
verbi gratia, sota, e basto
com que me dais os capotes,
e com que vaza não faço.
Em vosso rosto o nariz
grande, nem pequeno o acho,
que isso é carta, que não joga,
e diz, se joga, eu me ganho.
Boca, e dentes são espadas
pelo risco, e pelo estrago,
que vão às almas fazendo,
se os ides desembainhando.
Os dous peitos, e a garganta
é um jogo soberano
de sota, cavalo, rei,
e garatusa com ganhos.
As mãos vós todas ganhais,
porque nas cartas pegando
todos os trunfos vos tocam,
e as minhas pintais em branco.
Para ser o vosso pé
não acho em todo o baralho
mais que o ás, que val um ponto,
como tem vosso sapato.
Porém a carta coberta,
que metem assaz picado,
eu vo-la direi depois,
que inda vou bruxuleado.
A D. MARTHA SOBRAL QUE SENDOLHE PEDIDA DO POETA HUMA ARROBA DE
CARNE DE HUMA REZ, QUE MATÁRA, RESPONDEO, QUE LHA FOSSE TIRAR DO
OLHO DO CU.
Ó tu, ó mil vezes tu,
que se uma arroba de vaca
te pedia, és tão velhaca,
que me ofreces do teu cu:
essa carne a Berzabu
a devias dar em pó,
a mim não, porque em meu pró
não me atrevo a escolher
nem teu cu pelo feder,
nem pelo podre o teu có.
A HUM CABRA DA INDIA QUE SE AGARRAVA À ESTA MARTHA VIVENDO DE
ENGANAR POR FEYTICEYRO À SUAS ESCRAVAS, E A OUTRAS.
Veio da infernal masmorra
um cabra, que tudo cura,
às Mulatas dá ventura,
aos homens aumenta a porra:
acudiu toda a cachorra
e tratar do seu conchego,
e o cabra pelo pespego,
tanto a todos melhorou,
que aos amigos lhes deixou
as porras com seu refego.
Tanto cada qual se estira
nos refegos, que trazia,
que nos canos parecia
óculo de longa mira:
porém a mim não me admira,
que esta, e aquela putinha
desse a saia, e a vasquinha
pela cura, e pelo enredo,
senão que rompa o segredo
para perder a mezinha.
O Cura soube da cura,
e ao céu levantando as palmas
disse, que em curar as almas
ele somente era o Cura:
e porque de acusar jura
ao cabra das pataratas,
e em conseqüência às Mulatas,
elas ao Cura temeram,
e como a cura perderam,
ficaram muito malatas.
Sobre isto houve matinadas,
fostes vós, e não fui eu,
o cabra a vida perdeu,
e elas estão mal curadas:
as porras acrescentadas
estão na sua medida,
a meizinha está perdida,
o dinheiro se gastou,
e porque Chica falou,
anda de medo fugida.
Houve grande desafio
do sítio para a Catala,
na Antonica não se fala,
que enfim foi Moça de brio:
viu-se pendente de um fio
quase a Cajaíba toda,
e o que a mim mais me acomoda,
é, que vão durando as rinhas,
e arranhem-se as Mulatinhas
sobre a questão de uma foda.
A Custódia, e Antonica
se matam, porque se invejam,
sobre mais, ou menos pica:
o que a medicina aplica
ao mal da fodengaria
é, que a cada uma o seu dia
se dê para pespegar,
porque saibam conjugar
tu fodias, e eu fodia.
MORTO O CABRA LHE FAZ O POETA O TESTAMENTO NA MANEYRA SEGUINTE.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.