Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

5 A vossa corcova rara
deixe o peito livre, e cru,
ou crerei, que é vosso cu
parecido à vossa cara:
e se acaso vos enfara
dar-vos por tão verdadeira
esta semelhante asneira,
por mais que vos descontente,
hei de crer, que é vossa frente
irmã da vossa traseira.

6 Um bem tem vosso aleijão
mui útil, a quem vos ama,
e é, que haveis de dar na cama
mais voltas do que um pião:
se o pião de um só ferrão
voltando em giros continos
dá gostos tam peregrinos,
vós pião de dois ferrões
sereis sem comparações
desenfado dos meninos.

VEM, QUE ESTOU PARA TAS DAR.

MOTE

Dá-mas, Mana, que tas dou,
que tas estou esperando,
mete-me a língua na boca,
enquanto tas estou dando.

1 Vem, que estou para tas dar,
chega-te, vida, que morro,
necessito de socorro,
não me queiras acabar:
estou já para estalar,
não me ajudas, por quem sou?
que para tas dar estou:
pois que é isto? tanto tardas?
acaba, vida, que aguardas?
Dá-mas, Mana, que tas dou.

2 Meu coração, que me abraso,
morro com tão lindo gosto,
que em perigo me tem posto
gosto de tão lindo vaso:
vê, que se vem passo a passo
estas lágrimas chegando:
dize, meu bem, para quando,
hão de ser? olha, que vem:
acaba, dá-mas, meu bem,
Que tas estou esperando.

3 Acrescenta o excessivo,
para o gosto acrescentar,
não queiras, vida, matar,
a quem morre, estando vivo:
e se em modo tão esquivo
o gosto sempre se apouca,
por que seja igual a troca,
que fazemos neste caso,
pois tens o membro no vaso,
Mete-me a língua na boca.

4 Hás, pois, vida, de advertir
que em modo tão sublimado
se acha menos desmaiado,
quem mais se deixa dormir:
para mais tempo sentir,
o que estamos trabalhando,
quisera, vida, que quando
me canso para tas dar,
nunca quisera acabar,
Enquanto tas estou dando.

DESCREVE O QUE LHE ACONTECEO EM S. GONÇALLO DO RIO VERMELHO COM
AVISTA DE HUMA DAMA FORMOSA, E BEM ADORNADA.

Fui à missa a São Gonçalo,
e nunca fora à tal missa,
que uma custa dous tostões,
e esta há de custar-me a vida.
Estava eu fora esperando,
que o Clérigo se revista,
quando pela igreja entrou
o sol numa serpentina.
Uma mulher, uma flor,
um Anjo, uma Paraninfa,
sol disfarçado em mulher,
e flor em Anjo mentida.
Fui ver a metamorfósis,
vi uma moça divina
ocasionada da cara,
quando arriscada de vista.
Onde tal risco se corre,
ou onde tanto se arrisca,
que menos se há de perder,
que a liberdade, e a vida.
Desde então fui seu cativo,
seu morto daquele dia,
e dentre ambos quis Amor,
que só o cativo Ihe sirva.
Serve o cativo talvez,
mortos não têm serventia,
e se tiver de matar-me
vanglória, o terei por dita.
Por entre a nuvem do manto,
que a luz própria então vencia,
às claras estive vendo
aquela estrela divina:
Aquele sol soberano,
que pela elítica via
de seu rosto anda fazendo
um solstício a cada vista.
Acabou-se a missa logo,
e foi a primeira missa,
que por breve me enfadou,
pois toda a vida a ouvira.
Foi-se para sua casa,
e eu a segui a uma vista,
passou o rio, e cobrou-se,
cheguei ao rio, e perdi-a.
Vi-a no monte, e Ihe fiz
co chapéu as despedidas,
e Ihe inculquei meu amor
por meio da cortesia.
Não tornei a São Gonçalo,
nem tornarei em meus dias,
que entre beleza, e adorno
todo o home ali periga.

APPLICA O POETA O CASO SEGUINTE A IGNACIO PISSARRO SENDO APANHADO
COM HUA MOÇA POR SEUS IRMÃOS.

MOTE

Maria mais o Moleiro,
tiveram certas razões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Maria todos os dias
levava a moer o trigo:
vem o Moleiro inimigo
rapa-lho todo em maquias.
Tiveram certas porfias
andaram aos empuxões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.
Maria escapou da briga,
mas logo no outro dia,
eis o Moleiro, e Maria
qual de cu, qual de barriga:
qual de baixo, qual de riba
jogaram os repelões,
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Com tão grandes travessuras
Maria tanto esbofou,
que a candeia se apagou,
e ficaram às escuras:
ela cruzou logo as curvas,
e ele deu-lhe uns bofetões;
Maria caiu-lhe a saia
e o Moleiro os calções.

Em aperto tão urgente
tanto o Moleiro suou,
que a fralda em suor molhou,
não sei se é assim, ou se mente:
ela afirma que ele mente,
que era caldo dos culhões:
Maria caiu-lhe a saia,
e ao Moleiro os calções.

Mas por lograr a ocasião
quis o triste do Moleiro
levar a praça a dinheiro,
não à força do canhão:
puxou pelo seu bolsão,
e dando-lhe dous tostões
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

Maria inda que cansada
gritava com tal pujança,
que acudiu a vizinhança
vendo tanta matinada:
mas vendo a luz apagada
cuidaram, que eram ladrões:
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

Veio a luz num castiçal,
e sem temer maus agouros,
acham a Maria em couros,
ao Moleiro outro que tal:
ela a contar o seu mal
e ele a dar suas razões,
Maria caiu-lhe a saia
e ao Moleiro os calções.

DESCREVE METHAFORICAMENTE AS PERFEYÇÕES DE HUMA DAMA PELOS
NAYPES DA BARALHA.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2627282930...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →