Por Gregório de Matos (1696)
5 Dizem, que quem perde o mês,
contudo não perde o ano,
mas neste caso magano
perde o ano quem perde a vez:
já vós, por seres má rês,
perdestes noutra hora a sorva:
sempre achais, quem vos estorva,
e perdestes, a ocasião,
sem que houvesse velha então,
que vos mijasse na escorva.
6 Amigo, a pura verdade
é que a velha do socrócio
não desfez este negócio;
bem o faz a mocidade:
culpai vossa frialdade
que a velha não fez o dano,
e senão, por desengano,
e contra o mal das Avós
tomai cantárida em pós
ou metei-vos franciscano.
DESPEDIDA EM CANTIGAS AMOROSAS QUE FAZ A HUMA DAMA QUE SE
AUSENTAVA.
Já vos ides, ai meu bem!
já de mim vos ausentais?
morrerei de saüdades,
se partis, e me deixais.
É forçoso este argumento,
tem conclusão infalível,
ires vós, e ficar eu,
meu amor, com é possível?
Meu amor, sem vós não sei,
como poderei ficar,
se vós partis, morrerei
ao rigor do meu pesar.
Esperai detende o passo,
que cada arranco, que dais,
sendo a vida da minha alma,
alma, e vida me levais.
Ó que rigoroso transe,
e saudosa despedida!
já sinto efeitos da morte
com os efeitos da vida.
Lágrimas aljofaradas,
como assim vos despenhais,
sem atender tiranias,
nem atender a meus ais.
Adeus de mim muito amada
Prenda, que me dais mil dores,
como mais não hei de ver-vos,
adeus, adeus, meus amores.
A DOMINGOS NUNES DO COUTO VIZINHO DO POETA A QUEM BURLARAM HUNS
AMIGOS FINGINDO-SE OFFICIAIS DE JUSTIÇA, E BATENDO ESTRONDOSAMENTE
NA PORTA, ELLE COMO CRIMINOSO FUGIO PELO QUINTAL FAZENDO, E
PADECENDO TUDO, O QUE O POETA PINTA.
1 Ontem sobre a madrugada
à porta do meu vizinho
foi bater certo meirinho
com toda a justiça armada:
o vizinho à matinada
de tão grande rebuliço,
quis logo erguer o toutiço,
mas não deu passo o coitado,
que ficou embasbacado,
porque era tudo feitiço.
2 A um bater tão porfiado,
que ele atento porfiou,
quando se desenganou,
então foi mais enganado:
cuidou, que era já tomado
da Justiça, que madruga:
ergue-se, dizendo esbruga,
e tendo por justa causa
cantar-lhe a turba sem pausa,
lhe quis responder com fuga.
3 "Cerca, cerca o aposento",
e apenas ele ouviu tal,
tinha varado o quintal
a sua pá como um vento:
achou por impedimento
espinhas de um limoeiro,
um bosque, um tronco, um madeiro,
e tudo isto quanto achou,
um só Nunes arrastou,
como se fora um Ribeiro.
4 Com tanto medo no rabo
o levou com mil pesares
a Justiça pelos ares,
como se fora o diabo:
achando-se já por cabo
no mar entre mil cardumes,
hoje faz muitos queixumes
aos fratelos, e fratelas,
de que tem dor de canelas,
sem ninguém lhe dar ciúmes.
5 Sobre isto teima, e porfia
da dor entre os desatinos,
que com tão maus Teatinos
não quer fazer companhia:
que de noite, nem de dia
há de ir aos homiziados,
e a mais que venham soldados,
antes ir preso se atreve
do que por culpa tão leve
sofrer brincos tão pesados.
6 Não remoqueia às escuras,
mas diz muito claramente,
que antes preso a uma corrente,
que sofrer estas solturas:
queixa-se em tais desventuras
ao Surgião, e ao Barbeiro,
dizendo por derradeiro
lastimoso, e lastimado,
que o chasco o tem tão picado,
que lhe criara um unheiro.
7 Queixa-se de que a Mãe velha
lhe nascesse nesta festa
um bom corno sobre a testa
como vaca, sendo ovelha:
a Mãe como velha relha
está sobre a testa inchada
de praguejar tão cansada,
que diz, que antes de morrer
sobre o Lobinho há de ver
a justiça, justiçada.
8 Curando-se o Filho estava,
a casa se confundia,
a crioula lhe carpia,
e a tal velha praguejava:
tudo em confusão andava,
o ferido a se curar,
a crioula a trabalhar,
o Surgião a ir, e vir,
toda a Justiça a se rir,
quando a Velha a praguejar.
PINTURA GRACIOSA DE HUMA DAMA CORCOVADA.
1 Laura minha, o vosso amante
não sabe, por mais que faz,
quando ides para trás,
nem quando para diante:
olha-vos para o semblante,
e vê no peito a cacunda,
é força, que se confunda,
pois olha para o espinhaço,
e vendo segundo inchaço,
o tem por cara segunda.
2 Com duas corcovas postas,
que amante não duvidara,
se tendes costas na cara,
se trazeis a cara às costas:
quem fizer sobre isso apostas,
não é de as ganhar capaz,
que a vista mais perspicaz
nunca entre as confusas ramas
vê, se as pás trazeis nas mamas,
se as mamas trazeis nas pás.
3 Entre os demais serafins,
que há ali de belezas raras,
só vós tendes duas caras,
e ambas elas mui ruins:
quem vos for buscar os rins,
que moram atrás do peito,
nunca os há de achar a jeito,
crendo, que adiante estão,
com que sois mulher, que não
tem avesso, nem direito.
4 Vindo para mim andando,
cuido (como é cousa nova
trazer no peito a corcova)
que vos ides ausentando:
cuido (estando-vos olhando
no peito o corcoz tremendo)
que às costas vos estou vendo:
e porque vos vejo assim
vir co'a giba para mim,
que as costas me dais, entendo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.