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#Romances#Literatura Brasileira

Ressurreição

Por Machado de Assis (1872)

— Sou eu, disse o visitante levantando-se e indo apertar a mão ao dono da casa. Admira se de me ver aqui? Tomei a liberdade de o esperar, a despeito das observações que me fez o seu criado.

Félix não pôde encobrir o desprazer que lhe causava a visita. Moreirinha leu-lhe isso claramente nos olhos, e continuou:

— Talvez não lhe seja agradável a minha presença, sobretudo porque me parece ter alguma coisa que parece ter alguma cousa que o molesta nesta ocasião; mas não podia ser de outro modo...

Félix levantou os ombros.

— E maior será ainda o seu desgosto, continuou Moreirinha. quando souber que não lhe peço asilo só por uma hora, mas até amanhã.

Dizendo isto, estendeu-lhe a mão. Félix estendeu-lhe a sua, e friamente lhe disse que podia ficar o tempo que quisesse.

Quando o coração padece não há maior importuno que um conversador indiferente e frívolo. Esta circunstancia veio ainda azedar mais o espírito de Félix. A solidão lhe daria talvez um bálsamo salutar, se o havia para ele. O acaso deparou-lhe entretanto, uma testemunha diante de quem lhe era forçoso aparentar a serenidade que não tinha. O hóspede compreendeu a situação, e francamente lhe disse que o não queria perturbar, viera como asilado, não como visita; não tinha direito às atenções do dono da casa. Félix respondeu o melhor que pode a esta cortesia, que aliás o obrigava ainda mais. Não havendo meio de escapar, procurou ao menos ser igualmente cortês. Demais, Moreirinha não era tão importuno como pareceria, porque falava sempre, e não tinha o sestro dessa outra casta de importunos que interrompem a cada passo os discursos com perguntas. . . de boca e de gesto.

Não se demorou o hóspede em dizer a causa que o trouxera ali era Cecília. Apesar da situação em que se achava, Félix não pôde deixar de lhe prestar atenção.

— Cecília? perguntou ele.

— É verdade: é o meu mau anjo. Lembra-se dos elogios que lhe fiz dela? Eram sinceros, e eram também justos naquele tempo. Até então não havia encontrado docilidade igual. Não sou piegas, sabe mas gosto de um episódio assim. Não sei que lhe fizeram à boa rapariga, que de todo mudou e veio a ser um verdadeiro diabo. Aquelas cadeias tão leves que nos prendiam um ao outro, e que eu chamava cadeias de rosas, tornaram-se de ferro pesado. Quero fugir-lhe e não posso; tenho tentado tudo para escapar-lhe, mas em vão. Escondo-me em casa, na casa dos amigos, nos hotéis; onde quer que esteja lá irá buscar-me, e então Deus sabe o que sofro. Hoje lembrou-me vir passar aqui o resto do dia e a noute com o senhor; estou certo de que não dará comigo.

Félix ouvira atentamente a exposição do Moreirinha, não sem achar alguma relação entre o estado dele e o seu. Moreirinha referiu então muitos episódios do que ele chamava sua escravidão.

— E não conhece nenhum meio de lhe escapar por uma vez?

— Nenhum; ainda quando eu pudesse sair da corte, estou certo de que ela iria buscar-me a bordo do navio ou à portinhola do carro que me levasse.

Tão notável mudança no caráter de Cecília não deixou de chamar a atenção de Félix. Compreendeu facilmente que era obra do próprio amante. A rola fizera-se gavião, pela única razão de que Moreirinha lhe dera ensejo de conhecer a própria força. De abatimento em abatimento chegara Moreirinha à miserável posição atual. Não era ele homem de salutares reações nem de resignações filosóficas: era, sim, homem de fugir e adiar, - caráter feito de inércia e medo, maravilhosamente disposto para os desesperos inúteis e as capitulações vergonhosas.

— Mas, por que não sai da corte algum tempo? disse Félix após alguns minutos. Sempre há de haver meio de fugir...

Moreirinha refletiu um instante.

— Por duas razões, disse ele: a primeira é que, apesar de tudo, não deixo de gostar dela, e se pudesse escapar-lhe durante trinta dias, ia no trigésimo primeiro procurá-la... A segunda razão, interrompeu Félix a quem parecia incomodar essa ingênua confissão.

— A segunda razão, respondeu Moreirinha com hesitação, é que... não posso. Félix desceu os olhos no vestuário do rapaz, e viu nele o comentário das palavras que acabava de ouvir. Elegância ainda havia, mas já pobre e rafada; os botins tinham sinais de longo serviço; o paletó aliás bem lançado, era de fazenda visivelmente inferior. Trazia luvas cor havana, mas ao olhar curioso de Félix não escapou a circunstância de que as pontas dos dedos já estavam assinaladas por uma leve pasta de cor preta, vestígio de aturado uso.

Não era preciso grande perspicácia para compreender que aquilo tudo era obra de Cecília. Nem ficaria longe da verossimilhança quem afiançasse que Moreirinha estava eternamente condenado ao capricho daquela mulher. Não tinha decerto o rapaz com que lhe satisfazer todas as vaidades e necessidades; ela incumbia-se de abrir outras verbas no orçamento da receita, mediante um bem combinado sistema de impostos.

Félix compreendeu tudo isso de relance, e procurou trazer o espírito de Moreirinha a idéias mais alegres, menos ainda por ele que por si.

(continua...)

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