Por Machado de Assis (1891)
- É gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que não morreu, ele engoliu-a, com certeza.
Sofia, reclinada no canapé, ria das graças do marido. Criticaram ainda alguns episódios da tarde e da noite; depois, Sofia, acariciando os cabelos do marido, disse-lhe de repente
-E você ainda não sabe do melhor episódio da noite.
-Que foi?
-Adivinhe
Palha ficou algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual tinha sido o melhor episódio da noite. Não podia acertar; acudia-lhe isto ou aquilo, nada; Sofia abanava a cabeça.
-Mas então que foi?
-Não sei; adivinha.
-Não posso. Dize logo.
-Com uma condição, acudiu ela; não quero zangas nem barulhos.
Palha foi ficando mais sério. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava ele. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso forçado e resignado. Olhou bem para ela, e perguntou lhe o que era.
-Você promete o que lhe disse?
-Vá lá. Que foi?
-Pois saiba que ouvi nada menos que uma declaração de amor
Palha empalideceu. Não prometera deixar de empalidecer. Gostava da mulher, como sabemos, até o ponto singular de publicá-la; não podia ouvir a frio a notícia. Sofia viu a palidez, e gostou da má impressão causada; para saboreá-la mais, inclinou o busto, soltou o cabelo atrás, que a incomodava um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido, que ficara de pé.
-É verdade, meu velho, namoraram-te a mulher.
-Mas quem foi o patife? disse ele impaciente.
-Mau, se vamos assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Há de ouvir sossegado. Foi o Rubião.
-O Rubião?
-Nunca imaginei tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não é o hábito que faz o monge. De tantos homens que aqui vêm não ouvi nunca o menor dito. Olham para mim; naturalmente, porque não sou feia. . . Para que estás andando assim de um lado para outro? Pára, que não quero levantar a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração positiva...
- Ah! não? acudiu vivamente o marido.
-Não, mas vem a dar na mesma.
E depois de contar o que se passara no jardim, desde que ali chegaram os dous, até que o major apareceu
-Foi só isto, concluiu; mas é bastante para ver que se ele não disse amor é porque não lhe chegou a língua, mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos . . . Só isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas é preciso trancar-lhe a porta,-ou de uma vez ou aos poucos; eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?
Mordendo o beiço inferior, Palha ficou a olhar para ela a modo de estúpido. Sentou-se no canapé calado. Considerava o negócio. Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a cativar um homem,-e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto no Rubião, que o bilhete que Sofia mandara a este acompanhando os morangos, foi redigido por ele mesmo; a mulher limitou-se a copiá-lo, assiná-lo e mandá-lo. Nunca, entretanto, lhe passou pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguém, menos ainda a Sofia, se é que era amor deveras; podia ser gracejo de intimidade. Rubião olhava para ela muita vez, é certo; parece também que Sofia, em algumas ocasiões, pagava os olhares com outros... Concessões de moça bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir alguns raios deles. Não havia de ter ciúmes do nervo óptico, ia pensando o marido.
Sofia levantou-se, foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e deu uma olhada ao espelho para ver-se com a trança caída. Quando voltou ao canapé, o marido pegou lhe na mão, rindo.
-Parece-me que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos de uma moça às estrelas, e as estrelas aos olhos, afinal de contas é cousa que até se pode fazer à vista de todos, em família, e em prosa ou verso para o público. A culpa de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas, sabes que ele é ainda matuto . . .
-Então o Diabo também é matuto, porque ele pareceu-me nada menos que o Diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro, a fim de que as nossas almas se encontrassem ?
-Isso, sim, isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês que é um pedido de alma cândida. É assim que as moças falam aos quinze anos; é assim que falam os tolos em todos os tempos, e os poetas também; mas ele nem é moça nem poeta.
-Creio que não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?
Palha teve um calafrio; a idéia do contacto das mãos e da força empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente, se pudesse, era capaz de ir ter com ele, e deitar-lhe as mãos ao gasnate. Outras idéias, porém, acudiram e dissiparam o efeito da primeira; de modo que, cuidando Sofia havê-lo irritado, viu-o dar de ombros com desprezo, e responder-lhe que efetivamente era um ato de grosseria.
- E depois, Sofia, que lembrança foi essa de convidá-lo a ir ver a lua, não me dirás?
- Chamei D. Tonica para ir conosco.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.