Por Machado de Assis (1872)
Lívia aprovara a mudança sob a influência de igual idéia. Aqueles últimos dias tinham sido de plena e deliciosa paz. Seus projetos de futuro eram imensos, delineava uma vida independente de todas as escravidões sociais, vida exclusiva deles, cheia de todos os prestígios da poesia e do amor. Às vezes receava que esses sonhos fossem apenas sonhos. Ainda assim não os dera por nenhum preço deste mundo.
Estavam então nos primeiros dias de outubro; o casamento fora marcado para meado de janeiro. Marcado, entenda-se bem, apenas entre os dous, porque Félix conseguira da viúva a promessa de que a notícia seria dada nas vésperas do acontecimento.
— Mas a razão deste segredo? perguntou Lívia depois de lhe prometer o que pedia.
— Um capricho.
A razão verdadeira era a vacilação do seu espírito; mas a que ele deu contentou perfeitamente a moça.
— Se eu tivesse o teu coração, disse ela, desconfiava desta exigência; mas, vê lá, eu creio em ti.
Estavam sós na chácara; Viana, fiel ao seu programa de não perturbar os dous namorados, foi meditar a alguma distância nas reformas que pretendia fazer. Caminhavam os dous calados e distraídos, ou melhor, concentrados em si mesmos. De repente a viúva levantou a cabeça e disse como continuação das suas anteriores palavras:
— Há contudo ocasiões em que esta confiança parece abalar-se, não porque eu duvide de ti, mas porque duvido do destino. Já te disse que sou supersticiosa, - direito das mulheres e das crianças. Estremeço algumas vezes, quando encaro o futuro, e, sem saber por que, pergunto a mim mesma qual será o fim de tudo isto. Desmaios apenas, e raros, de um coração que ambiciona, talvez, mais do que poderia obter.
— Não te parece que eu esteja emendado? disse Félix sorrindo. Há quantos dias não há sequer...
— Cala-te! interrompeu Lívia tocando-lhe os lábios com os dedos. Tenho medo de te ouvir falar assim.
E depois de um instante de silêncio:
— Não é o teu coração que me faz tremer; o teu coração é bom. Não é também o teu espírito, apesar de caprichoso, visionário, inconstante. Receio do futuro, à vista do passado.
— Do passado? perguntou Félix estacando o passo.
Lívia suspirou.
— Que houve de mau no teu passado? continuou o médico fitando nela um olhar perscrutador.
— Tudo.
Havia perto um velho sofá de vime. Lívia encaminhou-se lentamente para ele e sentou-se. Félix contemplou-a algum tempo do lugar em que ficara. Já não sorria; a dúvida ensombrava-lhe os olhos. Enfim, deu alguns passos e parou em frente dela.
CAPÍTULO XI / O PASSADO
— SEREI INDISCRETO perguntando que passado foi esse? disse Félix depois de alguns instantes.
— Oh! descansa! Não me pesa nada na consciência; mas no coração...
— Amaste alguém?
— Amei a meu marido.
A esta resposta de Lívia seguiu-se novo e longo silêncio. A memória do passado a que ela tão misteriosamente aludira parecia doer-lhe na alma. Arfava-lhe o seio, e as mãos, em que o médico amorosamente tocou, estavam geladas e trêmulas.
— Não acreditas que eu possa compreender-te melhor que os outros? perguntou finalmente o médico.
— Talvez não.
Félix fez um gesto de despeito. A moça arredou o vestido e abriu espaço no sofá, onde o médico se sentou a um sinal dela.
— Talvez me não compreendas melhor que os outros, continuou Lívia, e com isto não quero dizer que sejas tão vulgar como os mais deles. Não o és; mas há cousas que um homem dificilmente compreenderá, creio eu.
— Nem quando ama? perguntou Félix.
Lívia não respondeu; Félix continuou:
— Mas que passado foi esse? Posso não compreender-te, como dizes, mas saberei dizer-te algumas palavras de consolação, e dissipar com elas a tristeza que te ficar desta confidencia, que não é um remorso, decerto.
— Amei a meu marido, começou Lívia, e toda a minha confidência se resume nessas poucas palavras. Tive uma paixão da primeira idade, quando a amor vem surpreender a ignorância do coração. Será esse o amor mais forte? Há quem diga que o primeiro amor nasce apenas da necessidade de amar. Pode ser. Hoje que te amo sinto que pode ser assim. Em todo o caso, aquele afeto dominou-me toda; cobrei uma vida que me parecia imortal.
— E ele?
— Amava-me, creio, mas não entendíamos o amor do mesmo modo; tal foi o meu doloroso e tardio desencanto. Para mim era um êxtase divino, uma espécie de sonho em ação, uma transfusão absoluta de alma para alma; para ele o amor era um sentimento moderado, regrado, um pretexto conjugal, sem ardores, sem asas, sem ilusões. . Erraríamos ambos, quem sabe?
— Vejo que eram incompatíveis, interrompeu Félix; mas, por que exigir de todos essa maneira de ver e sentir, que é mais da imaginação que da realidade? Lívia levantou os ombros.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.