Por Machado de Assis (1872)
— Mal, repetiu o coronel, definitivamente mal. A pouca esperança que tínhamos veio tirar no-la o médico. O senhor não sabe o que é perder assim metade da alma. Félix disse algumas palavras banais de consolação, e chegou até a falar de esperança; mais ainda que a esperança fala sempre ao coração dos desgraçados, o bom velho em outra coisa não acreditava mais que na morte.
Algum tempo estiveram calados; enfim o coronel rompeu o silêncio:
— Raquel é muito sua amiga, disse ele. Duas vezes perguntou pelo senhor.
— Desde quando está doente?
— De cama está há quinze dias; mas já sofria antes disso. A princípio não me deu muito cuidado; a moléstia, porém, agravou-se rapidamente, e tem ido a pior. Foram interrompidos pelo médico assistente. Tinha este sido companheiro de Félix na escola. Ao vê-lo ali suspeitou que o tivessem mandado chamar; Félix apressou-se a explicar o motivo da sua visita.
— Em todo o caso, doutor, disse o outro, aproveito as suas luzes, e façamos, se lhe parece, uma conferência.
O coronel foi ver se Raquel estava acordada; voltou pouco depois e acompanhou os dois médicos à alcova da doente. Félix foi o primeiro que assomou à porta; parou alguns instantes, impressionado com o espetáculo que se lhe oferecia.
Sentada à cabeceira da cama estava D. Matilde, descorada e abatida, com os olhos túmidos, e porventura cansados de chorar. Aos pés da cama via-se uma moça amiga da infância de Raquel, e sua dedicada enfermeira, nesta ocasião. Ambas, triste e silenciosamente, contemplavam a doente.
Raquel estava branca como a fronha do travesseiro em que descansava a formosa cabeça. Tinha os lábios entreabertos e a respiração curta e difícil. O pequeno rumor que fizeram os médicos ao entrar um pouco a sobressaltou. Raquel abriu os olhos, que ardiam de febre.
Quando Félix se aproximou do leito e tomou o pulso da moça, esta olhou para ele e fez um gesto de espanto. Olhou depois em volta de si, como se duvidasse do lugar em que se achava. D. Matilde inclinou-se para a filha e disse:
— É o Dr. Félix.
Raquel olhou outra vez para Félix, com aquele sorriso apagado e triste dos doentes e murmurou:
— Obrigada!
— Como se sente? perguntou Félix.
— Melhor, disse ela com uma voz tão fraca que parecia um suspiro
— Deveras melhor?
Raquel fez um gesto de indiferença e não respondeu.
— Vamos lá, não desanime, disse Félix, e sobretudo não faça entristecer seus pais, que lhe querem tanto.
Félix examinou a doente, fazendo-lhe algumas perguntas, a que ela debilmente respondia. Quando ele cessou de a interrogar, a moça murmurou:
— Morro, não é?
— Não, disse Félix, não há de morrer, não deve morrer. Tem ainda vida larga, mas é preciso ânimo.
Raquel fez um gesto de quem não acreditava nas boas palavras do médico e voltou as olhos para a mãe. D. Matilde tinha os seus cravados em Félix, como se lhe quisesse ler no rosto a sentença da filha. A doente pareceu adivinhar o pensamento, e disse com esforço:
— Por que não dá as suas consolações a mamãe?
A conferência não durou muito tempo. Félix começou opinando por uma modificação no tratamento até ali seguido, e declarou que não julgava todas as esperanças perdidas. O colega concordou facilmente na alteração pedida por Félix, tanto mais, disse ele, quanto as esperanças eram nenhumas.
Em sua opinião, Raquel estava irremediavelmente perdida. Não era opinião aérea e infundada; ele podia demonstrá-la com argumentos cabais e irrefutáveis. Demonstrou-o efetivamente, durante vinte minutos, com a justa apreciação dos fatos, os dados seguros da ciência, e uma dialética tão cerrada que era impossível fazer-lhe a menor objeção.
Quinze dias depois, entrava Raquel em convalescença.
No sentir dos pais, era Félix o salvador da filha. Fora ele quem lhes restituíra a esperança, e a realizara com os seus bons conselhos e diligente desvelo.
O colega de Félix, para quem o restabelecimento da moça era a destruição de todas as noções médicas recebidas, ficou profundamente surpreendido com esse resultado. Em todo caso, era impossível negá-lo; limitou-se a aplaudi-lo, e quando a moça entrou em convalescença aconselhou os pais que a mandassem para algum arrabalde da cidade, a fim de respirar ares melhores.
Não podia vir mais a propósito o conselho. Lívia mudara-se para as Laranjeiras. A idéia da mudança era de Viana, que um dia a propôs à irmã, e fora aprovado por ela. A casa ficava pouco acima da de Félix, do lado oposto.
Era um prédio elegante, levantado no meio de uma chácara, não extensa nem esmeradamente tratada. Viana, entretanto, organizara um programa de reforma, que prometia executar pontualmente. Seu contentamento parecia não ter limites; além de preferir aquele bairro ao outro em que morava, havia a circunstancia de ir ficar ao pé da casa de Félix, - o que era já meia felicidade, dizia ele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.