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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

ENCONTRO QUE TEVE COM HUMA DAMA, MUY ALTA CORPOLENTA, E
DESENGRAÇADA.

1 Mui alta, e mui poderosa
Rainha, e Senhora minha,
por poderosa Rainha,
Senhora por alterosa:
permiti, minha formosa,
que esta prosa envolta em verso
de um Poeta tão perverso
se consagre a vosso pé,
pois rendido à vossa fé
sou já Poeta converso.

2 Fui ver-vos, vim de admirar-vos,
e tanto essa luz me embaça,
que aos raios da vossa graça
me converti a adorar-vos:
servi-vos de apiedar-vos,
ídolo d'alma adorado,
de um mísero, de um coitado,
a quem só consente Amor
por galardão um rigor,
por alimento um cuidado.
3 Dai-me por favor primeiro
ver-vos uma hora na vida,
que pela vossa medida
virá a ser um ano inteiro:
permiti, belo luzeiro
a um coração lastimado,
que por destino, ou por fado
alcance um sinal de amor,
que sendo vosso o favor
será por força estirado.

4 Fodamo-nos, minha vida,
que estes são os meus intentos,
e deixemos cumprimentos,
que arto tendes de comprida:
eu sou da vossa medida,
e com proporção tão pouca
se este membro vos emboca,
creio, que a ambos nos fica
por baixo crica com crica,
por cima boca com boca.

FUGINDO HUMA MULATINHA COM O SUGEYTO, QUE A TINHA FORRADO,
DESCREVE O POETA OS EXCESSOS, E SENTIMENTO, QUE MOSTRAVA HUMA
FULANA DE LIMA SUA SENHORA.

1 Fonseca - Senhora Lima, o que tem,
que amanheceu tão sentida?
diga-me por sua vida,
assim Deus Ihe faça bem:
diga-me qual é, e quem
Ihe causa tanta tristeza?
porquanto eu por natureza
sinto, se é ingratidão,
ou talvez murmuração
dessa sua sutileza.

2 Lima - Que hei de ter, minha Fonseca?
Um tormento, que me mata.
Fugiu Ilária a mulata,
porque já não quer ser peca:
despediu-se assim tão seca.

Fons. - Não chore, que ela virá.
Lim. - Jesus! que o mundo dirá!
que a mandei a Sor Martinho.
Fons. - Veja em casa do vizinho.
Lim. - Meu Estrela, tem-na lá?

3 Estr. - Quem, Senhora, cá tão cedo?
Lim. - Ilária, Senhor, pergunto,
que não sei, se algum defunto
ma levou tanto em segredo;
Ai vida cansada! hei medo,
pelo que se há de dizer.
Onde se iria esconder,
se ela não sabe caminho,
nem carreira? Meu vizinho.
Estr. - Senhora Lima? Lim. Que hei de fazer?

4 Lim. - Chica, que é de Ilarinha?
dize, negra do diabo.
Vai vê-la, senão teu rabo
pagará, por vida minha;
Chic. - Eu não sei da mulatinha,
nem me entendo com papéis:
quem deu cinqüenta mil-réis
a deve de ter em casa
porque aqui nunca fez vaza.
Lim. - Ó putona, isso dizeis?

5 Chic. - Digo, que Ilária é forra.
Lim. - Há de ser, quando eu morrer,
que isso está no meu querer;
cala essa boca, cachorra:
traga-me aqui logo, e corra,
que hei de quebrar-lhe o focinho.
Tem-na lá, senhor vizinho,
a minha Ilária, Senhor?
Estr. - Fugiu perdida de amor
pela manhã bem cedinho.

CO CIRRO NOS ESTREFOLHOS

MOTE

Ó meu pai, tu qués, que eu morra?

1 Co cirro nos estrefolhos
se queixava um negro cono
de ver, Ihe fincava o mono
o fodedor dos antolhos:
e revirando-lhe os olhos
dizia a puta cachorra,
desencaixa um pouco a porra,
eu venho a regalar-me,
e tu fodes a matar-me?
Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?

2 Fretei uma negra mina
e fodendo-a todo o dia
a coitada não podia
porém era puta fina:
a porra nela se inclina
inclino com força a porra,
e forcejando a cachorra
ela me disse esperai,
e eu Ihe disse chegai,
Ó meu Pai, tu qués, que eu morra?

AUSENTE DE SUA CASA PONDERA O POETA O SEU MESMO ÊRRO,EM OCCASIÃO
DE SER BUSCADO POR SUA MULHER.

MOTE

Foi-se Brás da sua aldeia,
Sabe Deus, se tornará,
que viu no caminho a Menga,
e a Gila não quer ver mais.

1 Brás um Pastor namorado
tão nobre, como entendido
das Pastoras tão querido,
como na aldeia invejado:
dos arpões do Amor crivado
tanto os sentidos Ihe enleia,
Menga, e tanto se Ihe afeia
Gila em seu ciúme esquivo,
que por um, e outro motivo
Foi-se Brás da sua aldeia.

2 Gila, que esta ausência sente,
movida de seus pesares
correu terras, passou mares
zelosa, e impaciente:
nenhuns vestígios persente
das passadas, que Brás dá,
mas tendo notícia já,
que o leva um novo cuidado,
disse, se vai namorado,
Sabe Deus, se tornará.

3 No tempo, em que Brás me olhava,
e a vista não divertia,
então sim que me queria,
e de querer me adorava:
porém hoje, que da aljava,
de Amor, que tanto o derrenga,
anda ferido: que arenga,
que razão, que pundonor
há de virar a um Pastor,
que viu no caminho a Menga?

4 Se anda atrás de uma beleza,
um garbo, uma bizarria,
e é homem Brás, que varia
por gosto, e por natureza,
quem o tirará da empresa
de merecer prendas tais,
se os meus suspiros, e ais
valem com ele tão pouco,
que se anda por Menga louco,
E a Gila não quer ver mais.

A HUMA DAMA FULANA DE MENDONÇA FURTADO, COM QUEM FOY O POETA
ACHADO POR SUA MULHER.

1 Rifão é justificado
desde o Índio ao Etiópio,
que sabendo muito próprio,
muito mais sabe o furtado:
eu deste engodo levado,
que desde menino ouvia,
forçado da simpatia,
ou da minha ardente chama,
a furto da própria Dama,
a vossa nata comia.

(continua...)

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