Por Gregório de Matos (1696)
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Pois o fogo, água, terra, e os ventos
são quatro elementos,
que alentam a idade,
venham achar-se
aos anos felizes
que hoje se aplaudem.
Porque aplausos de amor, e fortuna
celebrem constantes
a terra florida,
o fogo abrasado,
o mar furioso,
e as auras suaves.
ROMPE O POETA COM A PRIMEYRA IMPACIENCIA QUERENDO DECLARAR-SE E TEMENDO PERDER POR OUZADO.
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
SEGUNDA IMPACIENCIA DO POETA.
Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.
Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.
Quem pertende alcançar, espera, e cala
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.
Pois se aquele, que espera sempre alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, peder toda esperança.
FALLA O POETA COM SUA ESPERANÇA.
Não te vás, esperança presumida,
A remontar a tão sublime esfera,
Que são as dilações dessa quimera
Remora para o passo desta vida.
Num desengano acaba reduzida
A larga propensão, do que se espera,
E se na vida o adquirir te altera,
Para penar na morte te convida.
Mas voa, inda que breve te discorres,
Pois se adoro um desdém, que é teu motivo,
Quando te precipitas, me discorres.
Que ne obriga meu fado mais esquivo,
Que se eu vivo da causa, de que morres,
Que morras tu da causa, de que vivo.
AUSENTE O POETA DAQUELLA CASA, FALLECEO D. THEREZA HUA DAS IRMÃS, E COM ESTA NOTICIA SE ACHOU O POETA COM VASCO DE SOUZA A PEZAMES, ONDE FEZ O PRESENTE SONETO.
Astro do prado, Estrela nacarada
Te viu nascer nas margens do Caípe
Apolo, e todo o coro de Aganipe,
Que hoje te chora rosa sepultada.
Por rainha das flores aclamada
Quis o prado, que o certo participe
Vida de flor, adonde se antecipe
Aos anos a gadanha coroada.
Morrer de flor é morte de formosa,
E sem junções de flor nasceras peca,
Que a pensão de acabar te fez pomposa.
Não peca em fama, quem na morte peca,
Nácar nasceste, e eras fresca rosa:
O vento te murchou, e és rosa seca.
EPITAFIO À MESMA BELLEZA SEPULTADA.
Vemos a luz (ó caminhante espera)
De todas, quantas brilham, mais pomposa,
Vemos a mais florida Primavera,
Vemos a madrugada mais formosa:
Vemos a gala da luzente esfera,
Vemos a flor das flores mais lustrosa
Em terra, em pó, em cinza reduzida:
Quem te teme, ou te estima, ó morte, olvida.
LIZONGEA O POETA A VASCO DE SOUZA FAZENDO EM SEU NOME ESTA LACRIMIMOSA NENIA.
Morreste, Ninfa bela,
na florescente idade:
nasceste para flor,
como flor acabaste.
Viu-te a Alva no berço,
a Véspora no jaspe,
mimo foste da Aurora,
a lástima da tarde.
O nácar, e os alvores
da tua mocidade
foram, se não mantilhas,
mortalha a teus donaires.
Oh nunca flor nasceras,
Se imitando-as tão frágil,
no âmbar de tuas folhas
te ungiste, e te enterraste.
Morreste, e logo Amor
quebrou arco, e carcases;
que muito se lhe faltas,
que logo se desarme?
Ninguém há neste monte,
ninguém naquele vale,
o cortesão discreto,
o pastor ignorante:
Que teu fim não lamente,
dando aos quietos ares
já fúnebres endechas,
já trágicos romances.
O eco, que responde
a qualquer voz do vale,
já agora só repete
meus suspiros constantes.
A árvore mais forte,
que gemia aos combates
do vento, que a meneia
ou do raio, que a parte,
Hoje geme, hoje chora
com lamento mais grave
forças da tua estrela
mais que a força dos ares.
Os Ciprestes já negam
às aves hospedagem,
porque gemendo tristes,
andarn voando graves.
Tudo enfim se trocou,
montes, penhas, e vales,
o penedo insensível,
o tronco vegetável.
Só eu constante, e firme
choro o teu duro transe,
o mesmo triste sernpre
por toda a eternidade.
Ó alma generosa,
a quem o Céu triunfante
usurpou a meus olhos
para ser lá deidade.
Aqui onde o Caípe
já te erigiu altares
por Deusa destes montes,
e por flor destes vales:
Agrário o teu Pastor
não te forma de jaspes
sepulcro a tuas cinzas
túmulo a teu cadáver.
Mas em lágrimas tristes,
e suspiros constantes
de um mar tira dois rios,
de um rio faz dois mares.
LIZONGEA OS SENTIMENTOS DE DONA VICTORIA COM ESTE SONETO FEYTO EM SEU NOME.
Alma ditosa, que na empírea corte
Pisando estrelas vais de sol vestida,
Alegres com te ver fomos na vida,
Tristes com te perder somos na morte.
Rosa encarnada, que por dura sorte
Sem tempo do rosal foste colhida,
Inda que melhoraste na partida,
Não sofre, quem te amou, pena tão forte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Ângela. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.