Por Gregório de Matos (1696)
Simples cantas, e incauto garganteias,
Sem ver, que estás chamando o homicida,
Que te segue por passos de garganta!
Não cantes mais, que a morte lisonjeias;
Esconde a voz, e esconderás a vida,
Que em ti não se vê mais, que a voz, que canta.
MORALIZA O POETA NOS OCIDENTES DO SOL A INCONSTANCIA DOS BENS DO
MUNDO.
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
A HUMA DAMA QUE SE MOSTRAVA PARA O POETA TODA DESDENHOSA, E
CRUEL.
MOTE
Gileta siempre cruel,
mira-me piedosa un dia,
pues saben todos, que matas,
sepan, que puedes dar vida.
1
Que diré de tu crueldad,
de tu rigor que diré,
Gileta, si no que fué
mi estrella, y fatalidad:
que eres mi estrella, es verdad,
pero tan mala, y infiel
no lo dirá mi pincel,
solo diré de sentido,
que para mi ruego has sido,
Gileta, siempre cruel.
2
Ni un solo dia pudiste
perder tu fiero rigor,
que para perder mi amor
tu condicion no perdiste:
si ni aun esto conseguiste
de la fé, y firmeza mia,
ociosa es la tyrannia,
y pues no sierve a tu affecto
ser tyranna sin effecto,
Mira-me piedosa um dia.
3
Si por matar-me inhumana
te precias de rigorosa,
quien puede matar de hermosa,
no me mate de tyranna:
y se a que más soberana
te sepan, los que maltratas,
tantas vidas desbaratas,
conocida tu inclemencia,
ya escusas la diligencia,
Pues saben todos, que matas.
4
Quando a dar muertes te inclina
tu ser, humana te muestra,
que si a dar vidas te adiestra,
te acreditas por divina:
tu fama haze peregrina,
si eres, Gileta entendida,
y a todos, bella homicida,
muestra tu poder, de suerte
que aquellos, a quien dás muerte,
Sepan, que puedes dar vida.
A HUMA DAMA A QUEM NÃO RENDIÃO FINEZAS.
Sobre esta dura penha,
que repartida em rocas
contra o mar inimigo
quatro fileiras forma:
Dos mares combatida,
escalada das ondas,
incêndios de salitre
não rendem tanta força.
A rocha permanente
às ondas porfiosa,
cheio o mar de coragem
a penha de vitórias.
Não há um desengano
para fúrias tão loucas
de um elemento débil,
a quem o vento assopra.
Mas o curso dos dias,
e a carreira das horas,
que dão a todo o mundo
escarmento e memória,
Hão de mostrar-lhe enfim,
que nas maiores forças
não há intento sisudo
com esperanças loucas.
Aqui pois onde o fado
me conduz, ou me arroja
a escrever desenganos
ao mar desde esta roca:
Quero queixar-me ao céu
nas cordas numerosas
de minha triste lira
já de queixar-me rouca.
Porque razão, pergunto,
a esfera luminosa
me fez tão semelhante
desta invencível roca?
A roca inexpugnável
reveste-se animosa
da pólvora dos ventos,
que dentro d'água estoura:
E eu também me resisto,
há mais de mil auroras
aos vaivéns da fortuna,
vários, como ela própria.
A penha incontrastável,
cada maré se molha,
e leva o branco pé
nas sucessivas ondas.
Eu também incansável
rne levo cada hora
no sucessivo pranto,
que me inunda, e me afoga.
As ondas à porfia
até ver se se prostra
o firme de um penhasco
o duro de uma rocha.
Também minha fortuna
tenaz, e porfiosa
insiste, em que se prostre
minha firmeza heróica.
ESTRIBILHO
Oh nunca semelhante
fora eu desta roca,
oh nunca foram tantos
nem tão fortes meus males
como as ondas.
A HUMA DAMA, QUE SE RECATAVA DE PAGAR FINEZAS.
1
Filena: eu que mal vos fiz,
que sempre a matar-me andais,
uma vez, quando me olhais,
outra quando me fugis:
vi-vos, e logo vos quis
tão inseparavelmente,
que nem a vista ao presente
ao menos sabe dizer-me,
entre ver-vos, e render-me
qual foi primeiro acidente.
2
Vós sois tão esquiva, e tal,
que outras cousas não sabendo,
da vossa esquivança entendo,
que o meu amor me fez mal:
não cabe em meu natural
fugir, de quem me maltrata,
e se me sai tão barata
a vingança de querer-vos,
quero amar-vos, e sofrer-vos,
porque fiqueis mais ingrata.
3
Não sinto esta pena atroz,
que me fazeis padecer,
antes folgo de morrer,
vendo, que morro por vós:
e se com passo veloz
vejo a morte já chegar,
não sinto ver-me acabar,
sinto a glória, que vos cresce,
que uma ingrata não merece
a glória de me matar.
4
Vivam vossas esquivanças,
e vossa crueldade viva,
que a sem-razão de uma esquiva
acredita as esperanças:
tudo tem certas mudanças,
também se muda o rigor,
e se Amor me dá valor
para sofrer-vos, e amar-vos,
claro está, que hão de mudar-vos
firmezas do meu amor.
A HUMAS SAUDADES.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MATOS, Gregório de. Alguns passos discretos e tristes. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.