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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Letrados

Por Gregório de Matos (1696)

A princípios tão raros, e elegantes
As Musas já se prostrarn reverentes,
Querendo duplicar-vos muitas frentes,
Porque um laurel não são lauréis bastantes

Canta pois, doce espírito engenhoso,
Nunca a Lira deponhas, nem suspendas,
Porque das nove o coro soberano

Se põem no Sacro Monte deleitoso
Umas, porque Mecenas as acendas,
Outras, porque as emendes Mantuano.

AO DOUTOR ANTONIO RODRIGUES DA COSTA CAVALHEYRO DO HABITO CHRISTO, CHEGANDO DE PORTUGAL COM HUM VESTIDO VERDE, E CANHÕES DE VELUDO, O QUAL SE FEZ ABORRECIDO DO POETA POR MAO LETRADRO, E JURISTA INTRUSO.

1
Quem vos viu na terra entrar
com libréia de Lacaio
verde cor de papagaio,
que há de vos esperar?
haveis de papagaiar,
e fazer tal garalhada,
que fique a gente pasmada
com raiva, e sem paciência
vendo a Casa da audiência
reduzida em milharada.

2
As mangas veludo inteiro,
e a roupeta verde pano
é libréia em todo o ano
da grande casa de Aveiro:
Vós sois tão vil malhadeiro,
que não pode a minha idéia
presumir, que tão má preia
serviu tão alto solar,
salvo vós por vos honrar
lhe furtastes a Libréia.

3
Bem é verdade constante,
que éreis na praça, e na feira
um prólogo do Fronteira,
pois lhe íeis sempre diante:
que essa Libréia flamante
fez ele para uma tropa
de Lacaios fraca roupa
em uns touros como uns ouros,
e por seres contra os touros,
vos lançou de si Europa.

4
Daqui a gente malvada
vendo-vos na cara um zás,
não cuida, que foi gilvaz,
mas cuida, que foi cornada:
vós fostes na Lacaiada,
quando o Marquês à espanhola
quantos touros vê, degola,
e bem que andastes na praça,
suposto que sois caraça,
contudo não sois carola.

5
E como o parto suposto
é delito atroz, e grave,
tendes na cara esse cabe
por lacaio pressuposto:
dá-me grandíssimo gosto
ver-vos ir peão peão
co'a capa arrastando o chão,
pois a crer, que sois me arrisco
na cinza de São Francisco
São Ivo da procissão.

6
A ver-vos com sobrecéu
fôreis em retrato fiel
Rainha Santa Isabel
sem rosas, mas com chapéu:
ganhais por isso o troféu
aos advogados, porquanto
a todos excedeis tanto,
que ainda dos condenados
os demais são advogados,
contudo vós sois o Santo.

7
Só vós sabeis, quanto a mim,
os prelúdios, que fazeis,
Casus est iste, dizeis,
reverente: é grão Latim!
dissera um vilão ruim
tirado ant'onte das cabras
tais latins, nem tais palavras?
vá lavar-se ao mar Euxino
o latim do Calepino,
e o do Padre Manuel Abrás.

8
Ó lacaio alatinado,
ó macarrônico ilustre,
ó Jurista balaústre
ao machado torneado!
pois sois tão grande Letrado,
vede, que dizem doutores,
que os Rábulas ladradores
por isso cães se chamavam,
porque aos ouvidos ladravam
dos míseros pleiteadores.

9
Cuidais, caraça de broma,
que as Leis dos Imperadores
se hão de levar a clamores,
como a espada as de Mafoma?
se a língua vos dá, que coma,
pode dar-vos, que jejue,
e bem que a pança se atue
com gritos, pode a Bahia
acordar sisuda um dia,
e é força descontinue.

10
Com homens, que têm por pulha
tomar-vos por seu Lacaio,
nem heis de ser papagaio,
nem menos heis de ser grulha:
navegai por outra agulha,
e atai melhor vossos molhos,
porque em chegando aos abrolhos
a ressaca muita, ou pouca,
se não tapares a boca,
há de fechar-vos os olhos.

AO MESMO LETRADO QUE HAVENDO ARTICULADO CONTRA HUMA PARTE EM TOTAL PERJUIZO DE HUMA HERANÇA, ESTA HUMA NOYTE LHE METTEO NA CABEÇA HUMA PANELLA DE MERDA, DIZENDO, QUE ERAM CAMARÕES. O POETA LHE CHAMA AQUI GILVAZ, PORQUE TINHA HUMA CUTILADA NA CARA.

1
Estava o Doutor Gilvaz
à margem da livraria,
cuidando, no que faria,
e estudando, o que não faz:
quando uma parte sagaz
lhe entrou com certas questões,
e ao pagar-lhe das razões
lhe transformou no bofete
a panela em capacete,
e em câmara os camarões.

2
Uns camarões em panela
era o mimo, e o presente,
que aquela parte insolente
levava ao Doutor cabrela:
ele arremessou-se a ela,
mas mostrou-lhe o seu pecado,
que do ofício de advogado,
em que estriba o seu sustento,
era aquele um provimento
pela Câmara passado.

3
Porque da Câmara era,
diz a Parte, que o levara,
que reverente o beijara,
e na cabeça o pusera:
que a panela se escorrera,
e da cara mascarada
saíra tal enxurrada,
que o Doutor nesta ocasião
não cegou de privação,
ficou cego de privada.

4
Deste sucesso infeliz
logo, e a todo o correr
teve notícia a Mulher
por avisos do nariz:
e posto que ver não quis
tal cara com tal salmoura,
viu na cabeleira cara,
que a afeia, e a desdoura,
que adequada a tornara
mais suja, porém mais loura.

5
Por evitar maior perda,
água água pediu logo,
senão para tanto fogo,
água para tanta merda:
lavou-lhe cabelo, e cerda,
lavou-lhe roupa, e vestido,
e como o tinha sentido,
disse medrosa, a velhaca,
vede vós toda esta caca,
não me cheira bem, Marido.

(continua...)

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