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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Pança farta e pé dormente

Por Gregório de Matos (1696)

14
Para a missa do Santinho
mui pouco vinho se achou,
e ele fez, que inda sobrou,
porque é milagroso em vinho:
tomamos dali o caminho
para o porto das jangadas
ver as casas afamadas
do nosso Domingos Borges,
que sem levarmos alforjes
nos pôs as panças inchadas.

15
O Gil, que é tão folgazão
se foi ao pasto folgar,
e se outra cousa há de achar,
achou um camaleão:
lançou-lhe intrépido a mão,
e com pulsos tão violentos
cortou ao bruto os alentos,
que depondo o bruto a ira
disse, que depois o vira,
pelo Gil bebia os ventos.

16
Deu-nos gosto, e prazer arto
um caçador tão gentil,
porque vimos, que era o Gil
mais lagarto, que o lagarto:
e assim como estava farto
de vento o camaleão,
Gil assim de presunção
tão inchado estava, e duro,
que foi força dar-lhe um furo
para ter evacuação.

17
Sopas de leite almoçamos,
e logo o Guedes chegou,
que nem pão, nem leite achou,
e achou, que o apregoamos:
mas todos depois jantamos
uma olha imperial,
e houve repolho fatal
ensopado, e não de azeite
com pratos de arroz de leite,
e vontade garrafal.

18
Já levantados da mesa
se quis cantar, senão quando
a pança me estava impando
a goela entupida, e presa:
eu tenho esta natureza,
que depois de manducar
não me é possível piar:
será, porque certarnente
pança farta, e pé dormente,
como é adágio vulgar.

19
Sesteamos no areal
onde o mar por mazumbaia
refrescando estava a praia
com borrifos de cristal:
a onda piramidal,
que nos ares se desata,
descaindo em grãos de nata
pedia por bom conselho,
que em vez de Rio Vermelho
lhe chamem Rio da Prata.

20
O Sol vinha já descendo
por graus, ou degraus do Céu,
e a todos nos pareceu
o irmo-nos acolhendo:
forarn-se os rocins prendendo,
e selados, e enfreados,
allons dissemos a brados
já postos nos cavalinhos,
e alvoroçando os caminhos
chegando, fomos chegados.

SEGUNDA FUNÇÃO QUE TEVE COM ALGUNS SUGEYTOS NA ROÇA DE HUM AMIGO JUNTO AO DIQUE, ONDE TAM BEM SE ACHOU O CELEBRADO ALFERES THEMUDO, E SEU IRMÃO O DOUTOR PEDRO DE MAITOS, QUE ENTÃO ANDAVA MOLESTO DE SARNAS.

1
Fez-se a segunda jornada
da comédia, ou comedia,
que inda nos deu melhor dia,
do que a jornada passada:
vimos a mesma selada,
e de vinho a mesma cópia,
de ovos maior cornucópia
que a de Almatéia florida,
e sendo a mesma comida,
contudo não era a própria.

2
Já Pedro esperava adrede
da culatra tão sarnento,
que embalançando-se ao vento
era um cação em rede:
versos a matéria pede,
me disse a sua lazéria,
e se os faço com miséria,
não se espante, quem os lê,
de que tanta sarna dê
(se é podre) tanta matéria.

3
Cantou-se galhardamente
tais solos, que eu disse, ô
que canta o pássaro só,
e os mais gritam na semente:
tocou-se um som excelente,
que Arromba lhe vi chamar,
saiu Temudo a bailar,
e Pedro, que é folgazão
bailou com pé, e com mão,
e o cu sempre num lugar.

4
Pasmei eu da habilidade
tão nova, e tão elegante,
porque o cu sempre é dançante
nos bailes desta cidade:
mas em tal calamidade
tinha Pedro o cu sarnudo,
que dando de olho, ao Temudo
disse pelo socarrão,
assim tivera o cu são,
como tenho o cu sisudo.

5
Pôs-se a mesa, e escabelos,
foram seguindo-se os pratos,
que eram tanto à vista gratos,
como ao gasnate eram belos:
Pedro se pôs a lambê-los,
e dando-se a Berzabu
de não beber com Jelu
o licor, que o entorpeça,
porque o que dá na cabeça,
temeu, lhe desse no cu.

6
Não quis o cu inflamar,
por isso bebeu só água,
do que nós com grande mágoa
nos pusemos a chorar:
este fim teve um folgar
de tanto gosto, e alinho,
de que eu colho, e esquadrinho
a exemplo da vida breve,
que quem rindo o vinho bebe,
chorando desbebe o vinho.

DESCREVE A CAÇADA QUE FIZERAM COM ELLE SEUS AMIGOS NA VILIA DE S. FRANCISCO À HUMA PORCA REBELDE.

1
Amanheceu quarta-feira
com face serena, airosa
o famoso André Barbosa
honra da nossa fileira;
por uma, e outra ladeira
desde a marinha até a praça
nos bateu com tanta graça,
que com razões admirandas
nos tirou dentre as holandas
para levar-nos à caça.

2
O lindo Afonso Barbosa,
que dos nobres Francas é,
por Filho do dito André
rama ilustre, e generosa:
já da campanha frondosa
os matos mais escondidos
alvoroçava a latidos,
quando nós de mal armados
à vista dele assentados
nos vimos todos corridos.

3
Rasgou um porco da serra,
e foi tal a confusão,
que em sua comparação
menino de mama é a guerra:
depois de correr a terra,
e de ter os cães cansados
com passos desalentados
à nossa estância vieram,
onde casos sucederam
jamais vistos, nem contados.

4
Estava eu de uma grimpa
vendo a caça por extenso,
não a fez limpa Lourenço,
e só a porca a fez limpa:
porque como tudo alimpa
de cães, e toda a mais gente,
Lourenço intrepidamente
se pôs, e ao primeiro emborco
mão por mão aos pés do porco
veio a cair sujamente.

(continua...)

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