Por Machado de Assis (1873)
— Não te iludas, disse ele, a melhor lição deste mundo não vale um mês de experiência e de observação. Abre um moralista; encontrarás excelentes análises do coração humano; mas se não fizeres a experiência por ti mesmo pouco te valerá o teres lido. La Rochefoucauld aos vinte anos faz dormir; aos quarenta é um livro predileto...
Estas últimas palavras revelaram no C. um desses indivíduos doentes que andam a ver tudo cor de morte e do sangue. Eu que vinha para divertir-me, não queria estar a braços com um segundo volume de nosso Padre Tomé, espécie de Timon cristão, a quem darás a ler esta carta, acompanhada de muitas lembranças minhas.
— Sabes que mais? disse eu ao meu cicerone, vim para divertir-me, e por isso acho-te razão; tratemos da crise. Mas por enquanto nada sabemos, e...
— Aqui vem o nosso Abreu, que há de saber alguma coisa.
O Dr. Abreu que entrou nesse momento, era um homem alto e magro, longo bigode, colarinho em pé, paletó e calças azuis. Fomos apresentados um ao outro. O C. perguntou-lhe o que sabia da crise.
— Nada, respondeu misteriosamente o Dr. Abreu; apenas ouvi ontem de noite que os homens não se entendiam...
— Mas eu já hoje ouvi dizer na praça que havia crise formal, disse o C.
— É possível, disse o outro. Saí agora mesmo de casa, e vim logo para aqui... Houve Câmara?
— Não.
— Bem; isso é um indício. Estou capaz de ir à Câmara...
— Para quê? Aqui mesmo saberemos.
O Dr. Abreu tirou um charuto de uma charuteira de marroquim encarnado, e fitando muito os olhos no chão, como quem está seguindo um pensamento, acendeu quase maquinalmente o charuto.
Soube depois que era um meio inventado por ele para não oferecer charutos aos circunstantes.
— Mas que lhe parece? perguntou-lhe o C. passando algum tempo.
— Parece-me que os homens caem. Nem podia deixar de ser assim. Há mais de um mês que andam brigados.
— Mas por quê? perguntei eu.
— Por várias coisas; e a principal é justamente a presidência da sua província...
— Ah!
— O Ministro do Império quer o Valadares, e o da fazenda insiste pelo Robim. Ontem houve conselho de ministros, e o do Império apresentou definitivamente a nomeação do Valadares... Que faz o colega?
— Ora, vivam! Então já sabem da crise?
Esta pergunta era feita por um sujeito que entrou pela loja mais rápido que um foguete. Trazia na cara uns ares de gazeta noticiosa.
— Crise formal? perguntamos todos.
— Completa. Os homens brigaram ontem de noite; e foram hoje de manhã a S. Cristóvão...
— É o que dizia, observou o Dr. Abreu.
— Qual o verdadeiro motivo da crise? perguntou o C.
— O verdadeiro motivo foi uma questão da guerra.
— Não creia nisso!
O Dr. Abreu disse estas palavras com um ar de tão altiva convicção, que o recém chegado replicou um pouco enfiado:
— Sabe então o verdadeiro motivo mais do que eu que estive com o cunhado do Ministro da Guerra?
A réplica pareceu decisiva; o Dr. Abreu limitou-se a fazer aquele gesto com que a gente costuma dizer: Pode ser...
— Seja qual for o motivo, disse o C., a verdade é que temos crise ministerial; mas será aceita a demissão?
— Eu creio que é, disse o Sr. Ferreira (era o nome do recém-chegado).
— Quem sabe?
Ferreira tomou a palavra:
— A crise era prevista; eu há mais de quinze dias anunciei ali em casa do Bernardo, que a crise não podia deixar de estar iminente. A situação não podia prolongar-se; se os ministros não concordassem a Câmara os obrigaria a sair. Já a deputação da Bahia tinha mostrado os dentes, e até sei (posso dizê-lo agora) sei que um deputado do Ceará estava para apresentar uma moção de desconfiança...
Ferreira disse estas palavras em voz baixa, com o ar misterioso que convém a certas revelações. Nessa ocasião ouvimos um carro. Corremos à porta; era efetivamente um ministro.
— Mas então não estão todos em S. Cristóvão? observou o C.
— Este vai naturalmente para lá.
Ficamos à porta; e o grupo foi-se pouco a pouco aumentando; antes de um quarto de hora éramos oito. Todos falavam na crise; uns sabiam a coisa de fonte certa; outros por ouvir dizer. O Ferreira saiu pouco depois dizendo que ia à Câmara saber o que havia de novo. Nessa ocasião apareceu um desembargador e indagou se era exato o que se dizia relativamente à crise ministerial.
Afirmamos que sim.
— Qual seria a causa? perguntou ele.
O Abreu, que dera antes como causa a presidência lá da província, declarou agora ao desembargador que uma questão da guerra produzira o desacordo entre os ministros.
— Está certo disso? perguntou o desembargador.
— Certíssimo; soube-o hoje mesmo do cunhado do Ministro da Guerra.
Nunca vi maior facilidade em mudar de opinião, nem maior descaro em colher as afirmações alheias. Interroguei depois o C. que me respondeu:
— Não te espantes; em tempo de crise é sempre bom mostrar que se anda bem infocrmado.
Dos presentes eram quase todos oposicionistas, ou pelo menos faziam coro com o Abreu, que fazia diante do cadáver ministerial o papel de Bruto diante do cadáver de César. Alguns defendiam a vítima, mas como se defende uma vítima política, sem grande calor nem excessiva paixão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tempo de crise. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, abr. 1873.