Por Machado de Assis (1897)
Isto aconteceu de manhã. De tarde, não pude vir a casa, jantei com os rapazes. Na manhã seguinte, quando abri a janela, já achei na outra do morro a figura da véspera. Esperava-me, decerto; a atitude era a mesma, e, sem poder jurar que lhe vi algum movimento de longe, creio que fez algum. Era natural fazê-lo, caso me esperasse. No terceiro dia cumprimentei-a cá de baixo; não respondeu ao gesto e pouco depois entrou. Não tardou que voltasse, com os mesmos olhos, se os tinha, que eu não podia ver nada, estirados para mim. Estes preliminares duraram cerca de duas semanas.
Então eu fiz uma reflexão filosófica, acerca da diferença de classes; disse comigo que a própria fortuna era por essa graduação dos homens, fazendo com que a outra moça, rica e elegante, de alta classe, não desse por mim, quando estava a tão poucos passos dela, sem tirar dela os olhos, ao passo que esta outra, medíocre ou pobre, foi a primeira que me viu e me chamou a atenção. É assim mesmo, pensei eu; a sorte destina-me esta outra criatura que não terá de subir nem descer, para que as nossas vidas se entrelacem e nos dêem a felicidade que merecemos. Isto me deu uma idéia de versos. Lancei-me à velha mesa de pinho, e compus o meu recitativo das Ondas: "A vida é onda dividida em duas..." "A vida é onda dividida em duas..." Oh! quantas vezes disse eu este recitativo aos rapazes da Escola e a uma família da Rua dos Arcos! Não freqüentava outras casas; a família compunha-se de um casal e de uma tia, que também fazia versos. Só muitos anos depois vim a entender que os versos dela eram maus; naquele tempo achava-os excelentes. Também ela gostava dos meus, e os do recitativo dizia-os sublimes. Sentava-se ao piano um pouco desafinado, logo que eu lá entrava, e, voltada para mim:
— Sr. Josino, vamos ao recitativo.
— Ora D. Adelaide, uns versos que...
— Que o quê? Ande: "A vida é onda dividida em duas..."
E eu:
— A vida é onda dividida em duas...
— Delicioso! exclamava ela no fim, entornando os olhos murchos e cobiçosos.
Os meus colegas da Escola eram menos entusiastas; alguns gostavam dos versos, outros não lhes davam grande valor, mas eu lançava isto à conta da inveja ou da incapacidade estética. Imprimi o recitativo nos semanários do tempo. Sei que foi recitado em várias casas, e ainda agora me lembro que, um dia, passando pela Rua do Ouvidor, ouvi a uma senhora dizer a outra: "Lá vai o autor das Ondas".
Nada disso me fez esquecer a moça do morro do Castelo, nem ela esquecia. De longe, sem nos distinguirmos um ao outro, continuávamos aquela contemplação que não podia deixar de ser muda, posto que eu às vezes desse por mim a falar alto: "Mas quem será aquela criatura?" e outras palavras equivalentes. Talvez ela perguntasse a mesma cousa. Uma vez, lembrando-me de Sílvia, consolei-me com esta reflexão:
"Será uma por outra; esta pode ser até que valha mais. Elegante é; isso vê-se cá mesmo de longe e de baixo."
Os namoros dos telhados são pouco sabidos das pessoas que só têm namorado nas ruas; é por isso que não têm igual fama. Mais graciosos são, e romanescos também. Eu já estava acostumado a eles. Tivera muitos, de sótão a sótão, e mais próximos um do outro. Víamo-nos os dous, ela estendendo as roupas molhadas da lavagem, eu a folhear os meus compêndios. Risos de cá e de lá, depois rumo diverso, um pai ou mãe que descobria a troca de sinais e mandava fechar as janelas, uma doença, um arrufo e tudo acabava.
Desta vez, justamente quando eu não podia distinguir as feições da moça, nem ela as minhas, é que o namoro estava mais firme e continuava. Talvez por isso mesmo. O vago é muito em tais negócios; o desconhecido atrai mais. Assim foram decorrendo dias e semanas. Já tínhamos horas certas, dias especiais em que a contemplação era mais longa. Eu, depois dos primeiros tempos, temi que houvesse engano da minha parte, isto é, que a moça olhasse para outro sótão, ou simplesmente para o mar. O mar não digo: não prenderia tanto, mas a primeira hipótese era possível. A coincidência, porém, dos gestos e das atitudes, a espécie de respostas dadas à espécie de perguntas que eu lhe fazia, trouxeram-me a convicção de que realmente éramos nós dous os namorados. Um colega da Escola, por esse tempo meu camarada íntimo, foi o confidente daquele mistério.
— Josino, disse-me ele, e por que é que não vais ao morro do Castelo?
— Não sei onde fica a casa.
— Ora essa! Marca bem a posição cá de baixo, vê as que lhe ficam ao pé e sobe; se não estiver na ladeira, há de estar no alto em algum lugar...
— Mas não é só isto, disse eu; penso que se lá for e achar a casa é o mesmo que nada. Poderei conhecê-la, mas como é que ela saberá quem eu sou?
— É boa! Tu ficas conhecendo a pessoa, e escreve-lhe depois que o moço assim e assim lhe passou pela porta, em tal dia, a tantas horas, é o mesmo do sótão da Rua da Misericórdia.
— Já pensei nisso, respondi dali a um instante, mas confesso-te que não quis tentar nada.
— Por quê?
— Filho, o melhor deste meu namoro é o mistério...
— Ah! poesia!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma por outra. A Estação, Rio de Janeiro, 15 set. a 15 dez. 1897.