Por Machado de Assis (1870)
Exposta ao Vento e ao mar, quase a expirar-lhe a vida. A beleza pagava o emprego de uma esmola; Dentro em pouco era Mirto a flor de toda a escola.
CLÉON
Lembrou-te convidá-la então para um festim?
LÍSIAS
Foi um pouco por ela e um pouco mais por mim.
CLÉON
Também amas?
LÍSIAS
Eu? não. Quis ter à minha mesa
Vênus e o louro Apolo, a poesia e a beleza.
CLÉON
Oh! a beleza, sim! Viste já tanta graça,
Tão celestes feições?
LÍSIAS
Cuidado! Aquela caça
Zomba dos tiros vãos de ingênuo caçador!
CLÉON
Incrédulo!
LÍSIAS
Eu sou mestre em matéria de amor.
Se tu, atento e calmo, a narração lhe ouvisses Conheceras melhor o engenho desta Ulisses. Aquele ardente amor a Lísicles, aquele
Fundo e intenso pesar que à sua pátria a impele, Armas são com que a astuta os ânimos seduz.
CLÉON
Oh! não creio.
LÍSIAS
Por quê?
CLÉON
Não vês como lhe luz
Tanta expressão sincera em seus olhos divinos?
LÍSIAS
Sim, têm muita expressão... para iludir meninos.
CLÉON
Pois tu não crês?
LÍSIAS
Em quê? No naufrágio? Decerto.
Em Lísicles? Talvez. No amor? é mais incerto. Na intenção de voltar a Lesbos? isso não! Sabes o que ela quer? Prender um coração.
CLÉON
Impossível!
LÍSIAS
Poeta! estás na alegre idade
Em que a ciência da vida é a credulidade. Vês tudo azul e em flor; eu já me não iludo. Pois amar cortesãs! isso demanda estudo, Não vai assim, que as tais abelhitas do amor Correm de bolsa em bolsa e não de flor em flor.
CLÉON
Mas não as amas tu?
LÍSIAS
Decerto... à minha moda;
Meu grande coração co'os vícios se acomoda; Sacrifícios de amor não sonha nem procura; Não lhes pede ilusões, pede-lhes só ternura. Não me empenho em achar alma ungida no céu: Se é crime este sentir, confesso-me, sou réu. Não peço amor ao vinho; irei pedi-lo às damas? Delas e dele exijo apenas estas chamas Que ardem sem consumir, na pira dos desejos. Assim é que eu estimo as ânforas e os beijos. Lá protestos de amor, eternos e leais, Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os mortais Somos todos assim.
CLÉON
Ai, os mortais! dize antes
Os filósofos maus, ridículos pedantes, Os que não sabem crer, os fartos já de amores, Esses, sim. Os mortais!
LÍSIAS
Refreia os teus furores,
Poeta; eu não quisera amargurar-te, e enfim Não podia supor que a amasse tanto assim. Cáspite! Vais depressa!
CLÉON
Ai, Lísias, é verdade,
Amo-a como não amo a vida e a mocidade; De que modo nasceu esta afeição que encerra Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a terra Por que é mais bela ao sol e às auras matinais? Amores estes são terríveis e fatais.
LISIAS
Vês com olhos do céu coisas que são do mundo; Acreditas achar esse afeto profundo,
Nestas filhas do mal! Se a todo o transe queres Obter a casta flor dos célicos prazeres, Deixa a alegre Corinto e todo o luxo seu; Outro porto acharás: procura o gineceu. Escolhe aquele amor doce, inocente e puro, Que inda não tem passado e vive no futuro. Para mim, já to disse, o caso é diferente; Não me importa um nem outro; eu vivo no [presente.
CLÉON
Deu-te amiga Fortuna um grande cabedal: Viver, sem ilusões, no bem como no mal; Não conhecer o amor que morde, que se nutre Do nosso sangue, o amor funesto, o amor abutre; Não beber gota a gota este brando veneno Que requeima e destrói; não ver em mar sereno Subitamente erguer-se a voz dos aquilões. Afortunado és tu.
LÍSIAS
Lei de compensações!
Sou filósofo mau, ridículo pedante,
Mas inveja-me a sorte; oh! lógica de amante.
CLÉON
É a do coração.
LÍSIAS
Terrível mestre!
CLÉON
Ensina
Dos seres imortais a transfusão divina!
LÍSIAS
A lição é profunda e escapa ao meu saber;
Outra escola professo, a escola do prazer!
CLÉON
Tu não tens coração.
LÍSIAS
Tenho, mas não me iludo.
É Circe que perdeu o encanto e a juventude.
CLÉON
Velho Sátiro!
LÍSIAS
Justo: um semideus silvestre.
Nestas coisas do amor nunca tive outro mestre. Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.
Três artigos da lei: gozar, beber, dormir.
CLÉON
Compras com isso a paz; a mim coube-me o tédio, A solidão e a dor.
LÍSIAS
Queres um bom remédio,
Um filtro da Tessália, um bálsamo infalível? Esquece empresas vãs, não tentes o impossível. Prende o teu coração nos laços de Himeneu; Casa-te; encontrarás o amor no gineceu. Mas cortesãs! jamais! São Górgones! Medusas!
CLÉON
Essas que conheceste e tão severo acusas - Pobres moças! - não são o universal modelo: De outras sei a quem coube um coração singelo, Que preferem a tudo a glória singular
De conhecer somente a ciência de amar; Capazes de sentir o ardor da intensa chama Que eleva, que resgata a vida que as infama.
LÍSIAS
Se achares tal milagre, eu mesmo irei pedir-to.
CLÉON
Basta um passo, achá-lo-ei.
LÍSIAS
Bravo! chama-se?
CLÉON
Mirto.
Que pode conquistar até o amor de um deus!
LÍSIAS
Crês nisso?
CLÉON
Por que não?
LÍSIAS
Tu és um néscio; adeus!
Cena IV
CLÉON
Vai, cético! tu tens o vício da riqueza:
Farto, não crês na fome... A minha singeleza Faz-te rir: tu não vês o amor que absorve e mata; Mirto, vinga-me tu da calúnia insensata;
Amemo-nos. É ela!
Cena V
CLÉON, MIRTO
MIRTO
Estás triste!
CLÉON
Oh! que não.
Mas deslumbrado, sim, como se uma visão...
MIRTO
A visão vai partir.
CLÉON
Mas muito tarde...
MIRTO
Breve.
CLÉON
Quem te chama?
MIRTO
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Uma ode de Anacreonte. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 12-25, jan. 1870.