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#Contos#Literatura Brasileira

Possível e Impossível

Por Machado de Assis (1867)

D. Teresa não entende a metáfora, e seria de crer que a agregada também não entendesse, se um sorriso sonso e inteligente não lhe roçasse nos lábios a esta resposta de Teófilo.

É que o ponto de admiração que Teófilo preparava para a posteridade, guardando-lhe um poeta incógnito, não era mistério para a moça. Seria ela a musa dos versos? Não era. Teófilo não reparava no sorriso, e a mesma cena repetia-se dias depois. Esta agregada era órfã. Os pais morreram pobríssimos e deixaram a filha aos cuidados da família do major, onde viveu no mais perfeito pé de igualdade com as filhas deste. Recebera a mesma educação, tinha as mesmas qualidades e sentimentos, e se era mais bonita que elas nem por isso se desvanecia, antes parecia afligir-se de uma superioridade que de algum modo humilhava as suas protetoras.

Imagine-se uma beleza suave e angélica, fazendo adivinhar a singeleza e a pureza do coração através das linhas puras e suaves do rosto e do brilho sereno e sincero dos olhos claros. Modesta no trajar, no gesto e nos sentimentos, Helena (tal era o seu nome) era admirada por todos, invejada por muitos, ambicionada... por ninguém.

Helena era a filha de coração de D. Teresa. Era a ultima que lhe restava, depois do casamento das suas próprias. A boa senhora estimava-a como estimava Teófilo; Helena, por seu lado, consagrava a D. Teresa um amor de filha, além do reconhecimento que lhe devia pelos benefícios que recebera dela. Teófilo amava Helena como irmã. Eram uma só família.

Como disse acima, Teófilo escrevia versos que guardava no cioso fundo da gaveta. Ninguém, nem sua mãe, nem Helena, nem os amigos mais íntimos, mereciam a confiança do poeta. Era um verdadeiro Harpagão, mas um Harpagão sublime, que levava a avareza intelectual ao ponto de não confiar, nem dos mais insuspeitos, as impressões, as palpitações, as inspirações, os sonhos, as quimeras, isto é, toda a sua alma.

Era respeitável este sentimento. De que serve, muitas vezes, confiar à multidão o sentimento que nos domina, a aspiração que nos impele, a comoção que nos abala? Teófilo sentia-se puro no meio do silêncio e da obscuridade ; parecia-lhe que, do momento em que abrisse a todos o íntimo do seu coração, murchava-lhe a flor do sentimento e a sua alma ficava menos pura.

Mas a que vinha o sorriso de Helena? Aqui vai a explicação.

Havia uma escrava que servia à família de D. Teresa. Todavia, Helena não consentia que os arranjos de certa natureza estivessem a cargo dessa escrava, e tomava a si a obrigação de cuidar deles. Assim, por exemplo, era Helena quem se encarregava de pôr em ordem o gabinete de Teófilo. Foi em uma dessas ocasiões, estando ausente o poeta, que Helena achou em cima de uma mesa um quarto de papel onde estavam escritas algumas linhas paralelas e de tamanho desigual. São versos, pensou a moça. Picada de curiosidade, pegou no papel e leu o que estava ali. Reconheceu a letra de Teófilo, e, mais ainda, reconheceu a alma dele. A moça tinha os olhos úmidos quando acabou de ler o papel ; beijou-o e tornou a deixá-lo no mesmo lugar.

Quando o poeta voltou, reparou no esquecimento em que caíra de não guardar os versos; mas de modo algum suspeitou que os tivessem lido. Guardou-os onde guardava os outros.

Helena, uma vez descoberto o mistério, não parou aí. No dia seguinte cresceu-lhe a curiosidade.

— É impossível, pensava ela, que ele só tenha escrito estes versos; eu bem me lembro que ele fez alguns quando eu era criança e os leu; lá há de haver outros. E deitou-se a procurar.

Tanto procurou, que encontrou em uma das gavetas uma pequena pasta cheia de autógrafos. Eram as inspirações do poeta traduzidas na linguagem de Petrarca, e ali deixadas sem que ainda o poeta as polisse da primitiva aspereza.

A moça leu e releu os versos; muitas vezes enxugou os olhos. Havia nas composições de Teófilo um eco às secretas aspirações da alma dela. Era que a situação de ambos era quase a mesma.

A moça, quando acabou de ler todos aqueles escritos poéticos, restituiu-os à pasta e colocou esta na gaveta de modo que não deixasse suspeitar a violação inocente que acabava de cometer.

Depois saiu.

Teófilo não reparou em nada.

Tal e a explicação do riso da moça, que, depois de ouvir muitas vezes a resposta misteriosa do poeta, chegou a compreender-lhe o alcance e ria-se à socapa, como quem dizia que o ponto de admiração de que falava o moço não o era para ela. Estavam as coisas neste pé, quando uma tarde, ao voltar para casa, Teófilo encontrou no caminho um amigo que se chegou a ele e perguntou-lhe:

— Tens que fazer sábado?

— Não muito; por quê?

— Então dá-me a tua palavra de honra que aceitas nm convite meu.

— Convite para quê?

— Convite para uma partida.

— Não posso.

— Por quê?

— Porque não quero ir só a divertimento algum...

— Mas...

— E minha família não pode ir.

— Que singularidade!

— É a coisa mais que natural do mundo. O que é talvez singularidade é a franqueza com que te digo que minha família não pode ir por lhe faltarem os meios de ostentar o rigor que essas coisas requerem.

— Ora!

(continua...)

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