Por Machado de Assis (1873)
Também não basta ter os predicados que eu imagino para me seduzir logo. Anda agora aqui em casa um sujeito que nos foi apresentado há pouco tempo; qualquer outra moça ficava presa pelas maneiras dele; a mim não me faz a menor impressão.
E por que?
A razão é simples; toda a graça que ele ostenta, toda a afeição que simula, todos os cortejos que me faz, quer saber o que é Luísa? é que eu sou rica. Descanse; quando me aparecer aquele que é o céu me destina, você será a primeira a ter notícia. Por ora estou livre, como as andorinhas que estão agora a passear na chácara.
E para vingar-me da calúnia, não escrevo mais. Adeus.
Raquel
V
À MESMA
Corte, 15 de novembro
Estive doente estes dois dias; foi uma constipação forte que apanhei saindo do ginásio, onde fui ver uma peça nova, muito falada e muito insípida?
Sabe quem estava lá? A Mariquinhas com o noivo no camarote, e o enteado também, o futuro enteado, se Deus quiser. Não se pode imaginar como ela parecia contente, como ela conversava com o noivo! E olhe que de longe, à luz do gás, o tal velho é quase tão moço como o filho. Quem sabe? Bem pode ser que ela viva feliz!
Dou-lhe muitos parabéns pela notícia que me dá de que brevemente veremos um nenê. A mamãe também lhe manda parabéns. O Luís leva com esta carta os figurinos.
Raquel
VI
À MESMA
Corte, 27 de novembro
A sua carta chegou quando estávamos almoçando, e foi bom tê-la lido depois, porque se a leio antes não acabava de almoçar. Que história é essa, e quem lhe meteu na cabeça semelhante coisa? Eu, namorada do Alberto! Isso é caçoada de mau gosto, Luísa! Se alguém lhe mandou dizer tal, teve certamente a intenção de me envergonhar. Se você o conhecesse, não era necessário este meu protesto. Já lhe disse as boas qualidades dele, mas os seus defeitos são para mim superiores às qualidades. Você bem sabe como eu sou; para mim a menor nódoa, destrói a maior alvura. Uma estátua... estatua é o termo próprio, porque o tal Alberto tem certa rigidez escultural.
Ah! Luísa, o homem que o céu me destina ainda não veio. Sei que não veio porque ainda não senti dentro de mim aquele estremecimento simpático que indica a harmonia de duas almas. Quando ele vier, fique certa de que será a primeira a quem eu confiarei tudo.
Dir-me-á que, eu sou assim fatalista, devo admitir a possibilidade de um marido sem todas as condições que exijo.
Engano.
Deus que me fez assim, e me deu esta percepção íntima para conhecer e amar a superioridade, Deus me há de deparar uma criatura digna de mim.
E agora que me expliquei deixe-me ralhar-lhe um pouco. Por que motivo dá tão facilmente ouvidos a uma calúnia contra mim? Você me conhece há tanto devia ser a primeira a por de quarentena esses ditos sem senso comum. Por que o não fez?
Gastou você duas páginas para defender a Mariquinhas. Eu não a acuso; deploro-a Pode ser que o noivo venha a ser um excelente marido, mas não creio que esteja na altura dela. E é neste sentido que eu a deploro.
A nossa divergência tem natural explicação. Eu sou uma moça solteira, cheia de caraminholas, sonhos, ambições e poesia; você é já uma dona de casa, esposa tranqüila e feliz, mãe de família dentro de pouco tempo; vê a coisa por outro prisma.
Será isto?
Parece que a companhia lírica não vem. A cidade está hoje muito alegre; andam bandas de música nas ruas; chegaram boas notícias do Paraguai. Naturalmente sairemos hoje; não tem saudades de cá?
Adeus.
Lembranças de todos a seu marido.
Raquel
VII
À MESMA
Corte, 20 de dezembro
Tem razão; pareço ingrata. Há quase um mês que lhe não escrevo, apesar de ter recebido já duas cartas. Seria longo explicar esta demora, e eu infelizmente não tenho tempo para tanto, porque estão aqui, alguns dias, as primas Alvarengas.
Com que então, você confessa que apenas me quis experimentar? Eu logo vi que ninguém lhe poderia dizer semelhante coisa a respeito do Dr. Alberto.
O casamento de Mariquinhas está marcado para véspera de Reis. Iremos assistir ao sacrifício. Desculpe-me, Luísa; bem sabe que sou sarcástica, e às vezes... Desculpe-me, sim? E todavia, quer saber uma coisa? Mudei de opinião a certo respeito. Hoje penso que antes o pai que o filho. Que espírito frívolo! que sujeito superficial e tolo é o tal Alberto! O pai é grave e sabe ser amável; e é amável sem deixar de ser grave. Tem uma distinção própria, uma conversa animada, é engenhoso e sagaz.
Mil vezes o velho... para ela.
Pergunta-me o que farei eu no caso de nunca encontrar o ideal que procuro? Já lhe disse: nesse caso fico solteira. O casamento é uma grande coisa, é a flor dos estados, concordo; mas é mister que não seja um cativeiro, e cativeiro é tudo o que não realiza as nossas aspirações íntimas.
Agradeço os seus conselhos, mas quer que lhe diga? Você fala como quem é feliz; pareceu lhe que o casamento, quaisquer que sejam as condições, é um antegosto do paraíso. Creio que nem sempre há de ser assim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ponto de vista. In: ______. Histórias da meia-noite. Rio de Janeiro: Garnier, 1873.