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#Contos#Literatura Brasileira

Pobre Finoca!

Por Machado de Assis (1891)

— Deus me livre! Isto era dar corda, e condenar-me.

— Mas, não olhando...

— É a mesma coisa; o que me perdeu foi isso mesmo, foi olhar algumas vezes, como já disse a você; meteu-se-lhe em cabeça que o adoro, mas que sou medrosa, ou caprichosa, ou qualquer outra coisa...

— Pois olhe, eu se fosse você olhava algumas vezes. Que mal faz? Era até melhor que ele perdesse as esperanças, quando mais contasse com elas.

— Não.

— Coitado! parece que pede esmolas.

— Você olhou outra vez?

— Olhei. Tem uma cara de quem padece. Recebeu o troco do dinheiro sem contar, só para me dizer que você é a moça mais bonita do Rio de Janeiro — não desfazendo em mim, já se vê.

— Você lê muita coisa...

— Eu leio tudo.

De fato, Macedo parecia implorar a amiga de Finoca. Talvez houvesse compreendido a confidência, e queria que ela servisse de terceira aos amores — a uma paixão do inferno, como se dizia nos dramas guedelhudos. Fosse o que fosse, não podia ficar na loja mais tempo, sem comprar mais nada, nem conhecer ninguém. Tratou de sair; fê-lo por uma das portas extremas, e caminhou em sentido contrário a fim de espiar pelas outras duas portas a moça dos seus desejos. Elas é que o não viram.

— Já foi? perguntou Finoca dali a instantes à amiga.

Alberta voltou a cabeça e percorreu a loja com os olhos.

— Já foi.

— É capaz de esperar-me na esquina.

— Pois você muda de esquina.

— Como? se não sei se ele desceu ou subiu?

E depois de alguns momentos de reflexão:

— Alberta, faz-me este favor!

— Que favor?

— O que lhe pedi há pouco.

— Está tola! Vamos embora...

— O tenente não apareceu hoje?

— Ele não vem às lojas.

— Ah! se ele desse algumas lições ao meu perseguidor! Vamos, mamãe? Saíram todos e subiram a rua. Finoca não se enganara; Macedo estava à esquina da Rua dos Ourives. Disfarçou, mas fitou logo os olhos nela. Ela não tirou os seus do chão, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa. Macedo agradeceu o favor.

— Nem caso! gemeu ele consigo; a outra, ao menos, parece ter compaixão de mim. Seguiu-as, meteu-se no mesmo bonde, que as levou ao Largo da Lapa, onde se apearam e foram pela Rua das Mangueiras. Nesta morava Alberta; a outra na dos Barbonos. A amiga ainda lhe deu uma esmola; a avara Finoca nem voltou a cabeça. Pobre Macedo! exclamarás tu, ao invés do título, e realmente, não se dirá que esse rapaz ande no regaço da Fortuna. Tem um emprego público, qualidade já de si pouco recomendável ao pai de Finoca; mas, além de ser público, é mal pago. Macedo faz proezas de economia para ter o seu lenço de seda, roupa à moda, perfumes, teatro, e, quando há lírico, luvas. Vive em um quarto de casa de hóspedes, estreito, sem luz, com mosquitos e (para que negá-lo?) pulgas. Come mal para vestir bem; e, quanto aos incômodos da alcova, valem tanto como nada, porque ele ama — não de agora — tem amado sempre, é a consolação ou compensação das outras faltas. Agora ama a Finoca, mas de um modo mais veemente que de outras vezes, uma paixão sincera, não correspondida. Pobre Macedo!

Cinco ou seis semanas depois do encontro no armarinho, houve um batizado na família de Alberta, o de um sobrinho desta, filho de um irmão empregado no comércio. O batizado era de manhã, mas havia baile à noite — e prometia ser de espavento. Finoca mandou fazer um vestido especial; as valsas e quadrilhas encheram-lhe a cabeça, dois dias antes do aprazado. Encontrando-se com Alberta, viu-a triste, um pouco triste. Miranda, o namorado, que era ao mesmo tempo tenente de infantaria, recebera ordem de ir para S. Paulo.

— Em comissão?

— Não; vai com o batalhão.

— Eu, se fosse ele, fingia-me constipado, e ia no dia seguinte.

— Mas já foi!

— Quando?

— Ontem de madrugada. Segundo me disse, de passagem, na véspera, parece que a demora é pequena. Estou pronta a esperar; mas a questão não é essa.

— Qual é?

— A questão é que ele devia ser apresentado em casa, no dia do baile, e agora... Os olhos da moça confirmaram discretamente a sinceridade da dor; umedeceram-se e verteram duas lágrimas pequeninas. Seriam as últimas? seriam as primeiras? Seriam as únicas? Eis ai um problema, que tomaria espaço à narração, sem grande proveito para ela, porque aquilo que se não acaba entendendo, melhor é não gastar tempo em explicá lo. Sinceras eram as lágrimas, isso eram. Finoca tratou de as enxugar com algumas palavras de boa amizade e verdadeira pena.

(continua...)

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