Por Machado de Assis (1874)
Mendonça viu-me fazer esta operação com um sorriso de homem resignado a tudo.
— A casa não é má, disse eu, sentando-me em uma das cadeiras para lhe dar exemplo; e a mobília pode ser restaurada. Teu tio tinha gosto.
— Vamos ver o resto da casa, disse Mendonça.
— Espera.
— Esperar o quê? ficaremos agora a contemplar a sala?
— Pareces-me tolo, respondi; tu queres a herança do tio, e eu quero conhecer o homem. A sala é um primeiro indicio. Vês este painel sobre a mesa?
Mendonça aproximou-se da mesa.
— Vejo, disse ele, é a Madona da cadeira.
— Cópia de Rafael. Já por aqui sabemos que o homem amava as artes. A cópia não é má, e a moldura é severa.
— Cá temos outro painel, disse Mendonça apontando para a parede. Subi ao sofá e aproximei a luz do quadro.
— Não conheço este, disse eu.
— É um Velásquez, disse Mendonça; vi um igual em casa do conde de Chantilly.
— Que conde é esse?
— Não era conde, respondeu Mendonça acendendo um charuto; chamavamo-lo assim por ser um dos primeiros heróis das corridas de Chantilly.
— Aposto que morava no boulevard...
— Dos Italianos.
Acendi também um charuto enquanto Mendonça me contava uma aventura parisiense em que entravam ele, o conde e uma estrela do bosque de Bolonha. Deixei que a conversa levasse esse caminho, porque era o meio de reter o meu companheiro. Já vês, disse eu voltando ao meu assunto, já vês que teu tio tinha gosto; Rafael e Velásquez são alguma coisa. Vamos ver o resto da casa.
Seguia-se outra sala menor que a primeira, onde nada havia que seja digno de nota.
Apenas vimos sobre uma mesa um cachimbo alemão, que necessariamente devia ter pertencido ao cavaleiro Teodoro Hoffmann, pois a sua forma era de todo fantástica. Representava uma figura do diabo, com chapéu de três bicos, cruzando as pernas, que eram de cabra.
— Olé! disse Mendonça; o tio fumava!
— Parece que sim; e o cachimbo não me parece ortodoxo.
— Pelo contrário, respondeu Mendonça; não pode ser mais ortodoxo do que é; meter fogo na cabeça do diabo não te parece digno de um servo de Deus?
— Tens razão! disse eu sorrindo.
Mendonça readquiria o seu bom humor e era isso justamente o que eu queria. Se não fosse assim, era provável que nos fôssemos embora dentro de dez minutos. Agora estava tranqüilo; quando Mendonça estava de bom humor obedecia a tudo. Depois de examinarmos o cachimbo que, além daquela não oferecia nenhuma particularidade, seguimos por um corredor e fomos ter à sala de jantar. Esta como outras salas e quartos da casa, nada tinham que se parecesse com mistério. Passando por um dos corredores vimos uma escada que ia ter a um sótão. Subimos. No meio da escada, Mendonça estacou; ouvira um rumor em cima.
— São ratos, disse-lhe eu.
— Serão? perguntou Mendonça empalidecendo um pouco.
— Querias que fosse a alma do Antão?
Subi afoitamente; Mendonça, envergonhado, subiu também. A coragem de muita gente não tem outra explicação. Não é sempre por valentia que os homens são valentes, diz La Rochefoucauld.
Vasto era o sótão. Compunha-se de uma sala de estudo e de escrita, uma alcova na frente, e uma vasta sala no fundo. Era por assim dizer um segundo andar. O que primeiro examinamos foi a sala da frente cuja mobília se compunha de algumas cadeiras, uma secretária, duas estantes, um sofá, tudo como qualquer mortal pode ter. Havia sobre a secretária dois bustos de mármore, e aqui começa o fantástico: uma era a cabeça de Cristo, outra a de Satanás. Cristo estava à direita, Satanás à esquerda.
— Bravo! exclamei; vou penetrando no homem. Achas ainda alguma ortodoxia nesta aproximação de bustos?
Mendonça, que estava enlevado no primor da escultura, respondeu:
— Toda.
— Explica-te.
— O tio juntava-os para emblema da vida humana, que se compõe do mal e do bem; o bem está aqui para corrigir o mal. É o Ceci tuera cela, de Vítor Hugo. — Está feito; tu explicas tudo. Mas é porque aqui a simetria das coisas te favorece. Cristo e Satanás ao lado um do outro é uma simetria de poeta; mas eu creio que Pedro Antão era outra coisa. Olha aqui para o chão; vês esta reunião de coisas extravagantes? Um par de chinelas, uma imagem da Virgem, uma trança de cabelos amarelos, um baralho de cartas, uma cruz, uma página de hebraico; vês?...
À proporção que eu ia inventariando os objetos encontrados no chão, ia o Mendonça examinando atentamente, tendo previamente calçado um par de luvas a fim de não macular as mãos.
Abri uma janela a fim de que o ar penetrasse nos aposentos. Depois, sacudindo o pó de duas cadeiras, sentei-me numa delas, e disse a Mendonça:
— Sabes que mais? Já não vou daqui sem que me contes alguma coisa do tio. Que idade tinha ele?
— Quarenta anos.
— Viveu sempre recluso?
— Desde muito tempo. Nos últimosúltimos cinco anos nem saia de casa. Era um criado que lhe trazia o que precisava. Esse mesmo criado morreu na véspera de morrer o tio.
— Qual foi o motivo da morte do criado?
— Não sei; creio que uma apoplexia.
— Quem sabe? Talvez a morte do criado explique a morte do seu tio. Estou a ver aqui um assassinato e um suicídio. De que morreu o tio?
— De uma queda.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Os óculos de Pedro Antão. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1874.