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#Contos#Literatura Brasileira

Onda

Por Machado de Assis (1867)

- Ora! exclamaram em coro os seis ministros decaídos.

- Isso não é responder.

Um dos interlocutores respondeu:

- Mas é impossível domá-la! disse um que era poeta.

- Impossível? exclamou Ernesto. Meus amigos, se Penélope não tivesse pressentimento de que, mais tarde ou mais cedo, Ulisses lhe apareceria em casa, não fiaria tanto, e em vez de sustentar a tantos pretendentes, sustentaria apenas um, o que era mais acertado, no duplo ponto de vista da economia e do coração. Onda, como lhe chamam, espera sem dúvida Ulisses que sou eu, e os vai iludindo até que eu apareça para entrar na posse do direito que a natureza me conferiu. Esta é a verdade...

Cada qual dos seis pretendentes desenganados tinha consciência de ter feito os últimos esforços, consciência em que entrava um tanto de fatuidade; mas tinham isso, e foi por isso que, quando Ernesto acabou de falar, responderam todos com a mais estrondosa gargalhada.

A fatuidade falara em primeiro lugar no espírito de Ernesto; a gargalhada ofendeu-lhe o amor-próprio; insistiu, já sério, ou antes com aquele riso especial que em nossa língua se exprime tão bem pelo riso amarelo; depois de dez minutos de renhida discussão, assentou-se que, no caso de vitória, Ernesto teria direito às seguintes prendas:

Um jantar no Hotel de Europa.

Um cavalo.

Um mês de verão em Petrópolis.

Uma assinatura do Teatro Lírico.

Um milheiro de charutos de Havana.

Saldar todos os credores.

Um manuscrito de Voltaire.

Esta última aposta era do poeta que se gabava de possuir muitos manuscritos de homens célebres, e que, declarando o que perderia, teve cuidado de fazer observar que perderia mais que todos.

No caso em que Ernesto fosse derrotado pagaria aos outros, coletivamente, um lauto banquete.

Nisto despediram-se.

Ernesto estava compenetrado da situação. Perder era correr-se de vergonha, sobretudo depois do tom em que falara e da confiança que mostrava ter em si. Outras razões aduzia ainda: ganhar era, não só envergonhar a tantos, como ainda entrar de cabeça alta na posse de uma mulher formosa e de uma fortuna regular.

Já por esta reflexão fica o leitor instruído de que Ernesto não era homem de dar uma polegada de si ao ideal. Uns através dos olhos da mulher queriam ver a alma; Ernesto enxergou simplesmente uma bolsa recheada. Este modo de traficar a própria pessoa não é nenhuma descoberta, nem eu me dou por Arquimedes. Aponto simplesmente mais este traço do nosso herói.

Ora, o nosso herói, pesadas as coisas, ficou determinado a entrar em combate. "Qu'allait-il faire dans cette galère?" perguntaria Geronte.

O caso é que foi.

A primeira coisa que Ernesto resolveu no seu espírito foi não ceder um palmo ao encanto de Onda. Era o melhor meio para operar melhor. Estando a frio podia calcular, e calcular era, pelo menos, criar as mesmas vantagens da inimiga.

Não nos demoremos, leitor, com as primeiras cenas deste namoro, que nos não adiantam nada. Saltemos uns vinte dias e cheguemos a uma tarde de junho em que Onda, em companhia de duas amigas, espera a visita de Ernesto.

Depois de certa espera anuncia-se a chegada do herói. Onda recebe-o com o melhor dos seus sorrisos.

Ernesto, contente de si, cumprimentou o mais graciosamente que podia a bela e as amigas, e depois, com uma graça que procurava ser natural, assentou-se na cadeira que Onda lhe indicara com um gesto.

Até este dia Ernesto tinha procedido muito elementarmente: fazia um louvor à beleza de Onda entre dois suspiros que magoavam à força de parecerem magoados. Era, na opinião de Ernesto, o primeiro meio, o mais natural, o mais próprio. O que é certo é que, depois de alguns dias, Onda lhe parecera decidida a aceitá-lo. Mas não seria fingimento? dizia consigo Ernesto; e concluindo pela afirmativa, procurou empregar todas as suas armas, de maneira que não só pudesse aferir a sinceridade dos sentimentos da moça, mas ainda inspirar-lhe sentimentos verdadeiramente sinceros e profundos.

Ora, eis aqui como ele estreou a conversa:

- Já sei que está com saudades de mim?

- Ande lá, respondeu Onda, ainda bem que é o primeiro a fazer o capítulo da própria acusação.

- Sou criminoso.

- Talvez, não... Mas sabe por que tive saudades?

- Porque não venho aqui há cinco dias.

- Bem. E por que não veio?

Dizendo isto Onda cravou em Ernesto um desses olhares que, procurando animar uma resposta, deixam o espírito em perplexidade e confusão.

Ernesto esteve dois minutos sem responder, mas também sem desviar os seus olhos dos olhos da moça.

É que aquele olhar era de fogo grego que Onda guardara para a ocasião oportuna. Depois de uma ausência de cinco dias, parecendo que a presa se escapava, cumpria prendê-la de modo que não lhe desse mais ocasião de tão longos esquecimentos. Esse olhar era tudo. Derrubaram-se os projetos de Ernesto: vinha com a intenção de experimentar o ciúme da moça, trazia já redigida a mentira que servia de arma, mas tudo se lhe esqueceu, tudo se inutilizou.

Sem desviar os olhos de Onda, Ernesto balbuciou estas palavras:

- Estive doente...

- Doente? Com efeito, esta pálido.

(continua...)

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