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#Contos#Literatura Brasileira

Onze anos depois

Por Machado de Assis (1875)

— Não te direi, disse Alves, concluindo a história que acabo de resumir, e que ele contou ao amigo, à mesa da casa do Carceller — não te direi que Eulália se mostrasse loucamente apaixonada por mim. Não havia sequer paixão. Havia, porém, boa vontade; o meu amor fez o resto; casamo-nos, e hoje creio que sou feliz. Minha sogra morreu alguns meses depois, e, como boa alma que era, agradeceu-me o ter dado à filha a felicidade de que era era digna, e pediu-me que fosse sempre esposo exemplar.

Ouviu Moreira toda esta história com a natural curiosidade que inspiram os acontecimentos da vida de um amigo, com quem a gente se encontra no fim de onze anos. Não teve de referir nenhuma história de casamento; mas falou de amores fortuitos, de que fora herói durante a viagem na Europa.

Não quer isto dizer que não tivesse também a sua página séria no livro da vida. Uma teve, mas anterior à viagem.

— Qual? perguntou Alves.

— Coisas que lá vão.

— Não me contaste nada desse tempo...

— Não pude contar; tinha então a dor no coração. Foi essa página, séria e triste, a causa da minha saída do Brasil.

— Ah!

Um silêncio.

— Mas que foi?

— Que seria? Amores.

— Amores, tu!

— Pois então? disse Moreira, alguma vez me havia de chegar. Gostava de uma moça, quase uma menina de 17 anos incompletos.

— E ela?

— Morria por mim. Minha intenção era casar-me; assim o disse a meu tio e a minha mãe. Opuseram-se ambos, pela razão de que me destinavam uma prima. Insisti; resistiram ambos; até que, para ver-me livre da situação em que me achava, entendi que era melhor abrir as asas e correr mundo.

— Aposto eu que, ao pisar terras de Europa, nunca mais te lembraste dela?

— Oh! não! ainda me lembrei uns quinze dias; depois vieram acontecimentos estranhos e de todo a esqueci... De todo, repara bem, porque se perguntares o nome dela, não sei se te posso dizer.

— Sempre o mesmo!

— Não; muito outro; acho-me de todo mudado.

A conversa continuou por este teor até muito mais tarde do que os dois amigos imaginavam ali ficar. Foram desenterrados muitos episódios do passado, tanto por um como por outro, e ambos tinham muita coisa que dizer. Afinal separaram-se, não sem custo, porque Alves queria a todo transe que Moreira fosse jantar com ele e Moreira igualmente tinha vontade disso. Havia, porém, uma circunstância: o tio de Moreira, o comendador Pinto, esperava-o em casa. Foram obrigados a separar-se.

— Mas irás ver-me hoje de noite?

— Talvez.

— Em todo caso, jantas amanhã comigo?

— Sim.

— Até logo.

— Até logo.

II

Alves foi para casa sinceramente alegre por ter encontrado um amigo de tantos anos. Moreira sentiu o mesmo durante dez ou doze minutos, porque, ao cabo desse tempo, indo já a entrar a um tílburi, bateu com a mão na cabeça e exclamou:

— Eulália! mas parece que ela era também Eulália! A descrição da mãe, a tristeza da moça... Será a mesma?

O cocheiro, ouvindo este monólogo do freguês, que apenas tinha um pé no estribo e outro no chão, entendeu que tratava com um alienado; e ia já tocar o cavalo, quando Moreira entrou de todo no carro e sentou-se na almofada, dizendo:

—Aterrado!

O cocheiro tinha razões para não conduzir malucos; quis murmurar uma desculpa, mas não teve ânimo; o receio de irritar o freguês tapou-lhe a boca. Lançou-lhe um olhar de esguelha e chicoteou o animal.

Moreira ficava todo entregue a uma nova ordem de idéias. Teve prazer em ver o amigo; mas a idéia de ir ver de novo a antiga namorada foi para ele prazer maior. Acrescentarei até que mil planos formulou ele na fantasia, cada qual mais atrevido e menos fiel à amizade. Quando deu acordo de si estava no fim do Aterrado, e ele morava nas imediações do Gás; teve de retroceder; entrou em casa, jantou com o tio, e pois que está fazendo a digestão, deixamo-lo em paz durante algumas linhas.

Alves foi para casa, onde a mulher já o esperava havia muito para jantar. No meio do jantar entendeu Alves que devia explicar à mulher a causa da demora, e falou de um

amigo que não via há onze anos, e que chegara da Europa no último paquete.

— Quis que ele viesse jantar conosco, disse Alves, mas não pôde; afirmou-me, porém, que virá amanhã, e que hoje de noite talvez nos visite.

Eulália ouviu todas estas explicações do marido com algum sobressalto; mas qual não foi o sobressalto quando ele disse:

— Hás de gostar muito do Moreira!

Moreira! onze anos! Europa! Estas três expressões dizem ao leitor que a moça era efetivamente a namorada do nosso viajante, pois se o não fosse não se sobressaltaria. Quis todavia saber o nome todo do amigo de Alves, e quando o ouviu, se alguma dúvida tivera, nenhuma lhe ficou.

Seria ela bonita aos 17 anos? É provável; aos 28, que agora tinha, era extremamente formosa. Tinha-se desenvolvido toda a mulher. A sua beleza era dessas que muito ganham com a severidade do gesto, e Eulália era quase sempre severa, ou melhor, triste, metida consigo. Fora sempre dócil para o marido, meiga às vezes, mas nunca se mostrou apaixonada nem alegre.

(continua...)

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