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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta - Machado de Assis

Por Machado de Assis (1867)

— Não, minha mãe. Quero passar hoje o dia inteiro no meu quarto. É dia de descanso. Não é hoje Natal? Quero hoje viver no pleno repouso do espírito. Demais, esta janela põe-me em comunicação com a natureza. Como está bonito o dia! É em honra do nascimento do Salvador, não? E virá o desejado de todas as gentes. É do profeta. Minha mãe sentou-se e fez-me sentar ao pé de si.

— Meu filho, disse-me ela, serás capaz de viver? Deixarás de ajudar com o teu desânimo a ação da moléstia que te consome? Ah! por mim te peço, por teu pai...

— Em que ajudo eu a minha moléstia, minha mãe? Não estou alegre? Olhe, já fiz a minha saudação ao sol. É bom sinal o sol. Eu sempre o adorei como o olhar profundo de Deus. Ele basta para me dar vida. Não morrerei hoje, decerto. Hei de morrer no dia em que alguma nuvem cobrir o astro do dia. Então as sombras me levarão às sombras. Acredite...

— Oh! não fales em morrer.

— É mau?

— É triste, meu filho.

— Não é. Quero ser filósofo o meu tanto. Olhemos a morte como ela deve ser olhada: livramento e não aniquilamento. Ah! é que realmente sofro...

Minha mãe abraçou-me. Senti que duas lágrimas me corriam pelas faces. Essas lágrimas eram já resultados de uma recordação que me acabava de atravessar o espírito. Minha mãe leu em minha alma.

— Não te esquecerás disso?

Minha resposta foi muda. Levantei-me, fui a uma mesa e beijei um ramo de flores secas, o ramo dela, o ramo fatídico, o ramo destruidor. É ali que está a minha morte, ali e não na moléstia. Sinto que é assim.

Depois de alguns instantes de silêncio, minha mãe levantou-se e veio a mim.

— Meu filho, disse ela, deixa que eu arrede por algum tempo estas flores. Quando estiveres bom dar-te-ei de novo. Mas agora de que te servem?

— Não, disse eu, as flores ficam. Não fazem mal a ninguém.

— Fazem-te mal.

— A mim? Pobres flores!...

Minha mãe insiste, mas eu recuso. As flores ficam no meu quarto...

V

Meio dia...

Acabo de ler duas páginas dos Salmos de Davi. O rei-poeta consolou minha alma. É destas consolações que eu preciso, destas que preparam o espírito para a eternidade... Hoje de manhã acusava a natureza por vir garrida e alegre assistir talvez ao meu último dia. Como estava o meu coração! A dor desvaira e eu não sei o que penso nem o que digo. Mas a verdade é uma; a verdade é esta grande verdade. Ó infinito, é enfim para ti que eu vou, como gota de água desviada que se recolhe ao oceano! Disse há pouco para consolar minha mãe, mas disse o que realmente é: a morte é livramento, não é aniquilamento. Sinto que há dentro de mim uma coisa que anseia por livrar-se desta prisão para lançar-se na eternidade e no infinito. Grande, suave, consoladora esperança! Sem ti, que fora o passamento senão a maior dor e o maior suplício? Mas, deixar o mundo com a esperança de que aos olhos mortais se abre mundo novo, tão outro que não este, mundo em que a virtude resplandecerá e a paz eterna compensará as atribulações da vida!

Alegra-me, comove-me, alvoroça-me a idéia de que não vou todo à sepultura; e que ali, à porta do cemitério só ficará de mim o que há de pior em mim mas que o espírito, a luz desta lâmpada a que tão cedo vai escasseando o óleo, há de remontar ao foco da grande luz.

Deixarei saudades? Deixo; mas o tempo as consolará, e a esperança de que dia surgirá em que o consórcio moral das criaturas se realizará ante o trono de Deus, deve ser a grande esperança dos que ficam e dos que vão.

Assim que, ó minha mãe, se em nossa passagem no mundo nos separamos um pouco, não será mais do que para costear uma montanha, até que, rasgando-se aos nossos olhos nova fonte de luz, possamos entrar para sempre unidos no seio do absoluto.

VI

Uma hora da tarde.

Creio que adormeci um pouco.

Tive um sonho.

Sonhei que assistia à minha coroação na posteridade. Foi sonho! Que fiz eu para merecer os aplausos dos homens? Gastei a minha mocidade... em quê? Aqui entra a parte sombria do meu sonho. Gastei a minha mocidade em amar, com as forças vivas do meu coração, a quem provou que me não merecia.

Embalde procuro desviar de meu espírito esta lembrança que me acabrunha e me leva à sepultura.

Pobres flores aquelas! Lembra-me o lado feliz da história da minha mocidade. São as relíquias do tempo da fé pura e da paz do espírito. Naquele tempo eu a julgava um anjo. E era-o. Não sei que demônio a perseguiu depois e fez-se-lhe introduzir no espírito. Desde aí perdi o ideal para ganhar a morte. Nem podia ser de outro modo.

Ah! Carlota!...

Tenho uma idéia. Vou fazer uma coisa que chamarei o meu testamento. É a revista dos meus papéis. Queimarei o que for inútil; deixarei o que puder dar de mim alguma idéia, não à posteridade, mas aos meus amigos. Eles não sabem talvez nada do amigo que lhes morre.

Cerremos um pouco estas cortinas. O sol queima demais. Assim é melhor. Meu Deus, como estão estas gavetas! Dissera-se que há aqui a matéria de vinte poemas... Talvez. Que sou eu próprio senão um poema trágico?

(continua...)

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