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#Contos#Literatura Brasileira

O destinado

Por Machado de Assis (1869)

Que a primeira idéia da donzela, ao acordar, fosse para os dous pares da véspera, nada há que admirar, desde que na noite anterior, ou velando ou sonhando, não pensou em outra cousa. Assim ao vestir, assim ao almoçar.

— Fifina ontem conversou muito com um moço de bigodes grandes, disse uma das irmãzinhas.

— Boas! foi com aquele que dançou a primeira quadrilha, emendou a outra irmã. Delfina zangou-se; mas vê-se que as pequenas acertaram. Os dous cavalheiros tinham tomado conta dela, do seu espírito, do seu coracão; a tal ponto que as pequenas deram por isso. O que se pergunta é se o fato de um amor assim duplo é possível; talvez que sim, desde que não haja saído da fase preparatória, inicial; e esse era o caso de Delfina. Mas enfim, cumpria escolher um deles.

Devine, si tu peux, et choisis, si tu l'oses.

Delfina achou que a eleição não era urgente, e fez um cálculo que prova da parte dela certa sagacidade e observação; disse consigo que o próprio tempo excluiria o condenado, em proveito do destinado. "Quando eu menos pensar, disse ela, estou amando deveras ao escolhido. "Escusado é acrescentar que não disse nada ao irmão, em primeiro lugar porque não são cousas que se digam aos irmãos, e em segundo lugar porque ele conhecia um dos concorrentes. Demais, o irmão, que era advogado novo, e trabalhava muito, estava nessa manhã tão ocupado no gabinete, que nem veio almoçar.

— Está com gente de fora, disse-lhe uma das pequenas.

— Quem é?

— Um moço.

Delfina sentiu bater-lhe o coração. Se fosse o Antunes! Era cedo, é verdade, nove horas apenas; mas podia ser ele que viesse buscar o outro para almoçar. Imaginou logo um acordo feito na véspera, entre duas quadrilhas, e atribuiu ao Antunes o plano luminoso de ter assim entrada na família...

E foi, foi, devagarinho, até à porta do gabinete do irmão. Não podia ver de fora; as cortinas ficavam naturalmente por dentro. Não ouvia falar, mas um ou outro rumor de pés ou de cadeiras. Que diabo! Teve uma idéia audaciosa: empurrar devagarinho a porta e espiar pela fresta. Fê-lo; e que desilusão! viu ao lado do irmão um rapaz seco, murcho, acanhado, sem bigodes nem olhos mansos, com o chapéu nos joelhos, e um ar modesto, quase pedinte. Era um cliente do jovem advogado. Delfina recuou lentamente, comparando a figura do pobre-diabo com a dos dous concorrentes da véspera, e rindo da ilusão. Por que rir? Cousas de moça. A verdade é que ela casou daí a um ano justamente com o pobre-diabo. Leiam os jornais do tempo; lá está a notícia do consórcio, da igreja, dos padrinhos, etc. Não digo o ano, porque eles querem guardar o incógnito, mas procurem que hão de achar.

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