Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

NOVAS DO MUNDO QUE LHE PEDIO POR CARTA HUM AMIGO DE FORA POR
OCCASIÃO DA FROTA.

França está mui doente das ilhargas,
Inglaterra tem dores de cabeça,
Purga-se Holanda, e temo Ihe aconteça
Ficar debilitada com descargas.

Alemanha Ihe aplica ervas amargas,
Botões de fogo, com que convaleça.
Espanha não Ihe dá, que este mal cresça.
Portugal tem saúde e forças largas.

Morre Constantinopla, está ungida.
Veneza engorda, e toma forças dobres,
Roma está bem, e toda a Igreja boa.

Europa anda de humores mal regida.
Na América arribaram muitos pobres.
Estas as novas são, que há de Lisboa.

A HUMA DAMA QUE TINHA UM CRAVO NA BOCCA.

1 Vossa boca para mim
não necessita de cravo,
que o sentirá por agravo
boca de tanto carmim:
o cravo, meu serafim,
(se o pensamento bem toca)
com ele fizera troca:
mas, meu bem, não aceiteis,
porque melhor pareceis,
não tendo o cravo na boca.

2 Quanto mais que é escusado
na boca o cravo: porque
prefere, como se vê
na cor todo o nacarado:
o mais subido encarnado
é de vossa boca escravo:
não vos fez nenhum agravo
ele de vos dar querela,
que menina, que é tão bela,
sempre tem boca de cravo.

POR AVISO CELESTIAL DAQUELLA GRANDE PESTE, QUE CHAMARAM BICHA
APPARECEO HUM FUNEBRE, HORROROSO, E ENSANGUENTADO COMETTA NO
ANNO 1689 POUCOS DIAS ANTES DO ESTRAGO. ASSENTAVÃO GERALMENTE,
QUE ANNUNCIAVA ESTERILIDADE, FOMES, E MORTES: POREM VARIAVÃO NOS
SUGEYTOS DELLAS, COMO COUSA FUTURA. O POETA APPLICA COMO MAIS
PRUDENTE CONTRA OS QUE SE ASSIGNALAVÃO EM ESCANDALOS NAQUELLE
TEMPO.

Se de estéril em fomes dá o cometa,
não fica no Brasil viva criatura,
Mas ensina do juízo a Escritura,
Cometa não o dar, senão trombeta.

Não creio, que tais fomes nos prometa
Uma estrela barbada em tanta altura;
Prometerá talvez, e porventura
Matar quatro saiões de impreialeta.

Se viera o cometa por coroas,
Como presume muita gente tonta,
Não lhe ficara Clérigo, nem Frade.

Mas ele vem buscar certas pessoas:
Os que roubam o mundo com a vergonta,
E os que à justiça faltam, e à verdade.

A HUMA DAMA QUE LHE PEDIO HUM CRAVEYRO.

O craveiro, que dizeis,
não vo-lo mando, Senhora,
só porque não tem agora
o vaso, que mereceis:
porém se vós o quereis,
quando por vós eu me abraso,
digo em semelhante caso,
sem ser nisso interesseiro,
que vos darei o craveiro,
se vós me deres o vaso.

PERTENDE AGORA (POSTO QUE EM VÃO) DESENGANAR AOS SEBASTIANISTAS,
QUE APPLICAVÃO O DITO COMETTA À VINDA DO ENCUBERTO.

Estamos em noventa era esperada
De todo o Portugal, e mais conquistas,
Bom ano para tantos Bestianistas,
Melhor para iludir tanta burrada.

Vê-se uma estrela pálida, e barbada,
E deduzem agora astrologistas
A vinda de um Rei morto pelas listas,
Que não sendo dos Magos é estrelada.

Oh quem a um Bestianista pergunta,
Com que razão, ou fundamento, espera
Um Rei, que em guerra d'África acabara?

E se com Deus me dá; eu Ihe dissera,
Se o quis restituir, não o matara,
E se o não quis matar, não o escondera.

NA ERA DE 1686 QUIMERIAVÃO OS SEBASTIANISTAS A VINDA DO ENCUBERTO
POR HUM COMETTA QUE APPARECEO. O POETA PERTENDE EM VÃO
DESVANECELOS TRADUZINDO HUM DISCURSO DO Pe. ANTONIO VIEYRA QUE SE

APPLICA A EL REY D. PEDRO II.

1 Ouçam os sebastianistas
ao Profeta da Bahia
a mais alta astrologia
dos sábios Gimnosofistas:
ouçam os Anabatistas
a evangélica verdade,
que eu com pura claridade
digo em literal sentido
que o Rei por Deus prometido
é: quem? Sua Majestade.

2 Quando no campo de Ourique
na luz de um raio abrasado
viu Cristo crucificado
El-rei Dom Afonso Henrique:
para que Ihe certifique
afetos mais que fiéis,
Senhor, disse, aos infiéis
mostrai a face divina,
não a quem a Igreja ensina
a crer tudo, o que podeis.
3 E Deus vendo tão fiel
aquele peito real,
auspicando a Portugal,
quis ser o seu Samuel:
na tua Prole novel
(diz) hei de estabelecer
um império a meu prazer:
e crê, que na atenuação
da dezasseis geração
então hei de olhar, e ver.

4 A dezasseis geração
por cômputo verdadeiro
assevera o Reino inteiro
ser o quarto Rei D. João:
e da prole a atenuação
(conforme a mesma verdade)
vê-se em Sua Majestade,
pois sendo de três varões
com duas atenuações
se tem posto na unidade.

5 Logo em boa conseqüência
na Pessoa realçada
de Pedro está atenuada
desta Prole a descendência:
logo com toda a evidência
e a luz da divina luz
se vê, que o Pedro conduz
o olhar, e ver de Deus,
que ao primeiro Rei, e aos seus
prometeu na ardente cruz.

6 E se o tempo é já chegado,
perguntem-no a Daniel,
que no sétimo aranzel
o traz bem delineado:
diz o Profeta sagrado,
que a quarta fera inumana
tinha na testa tirana
dez pontas, e que entre as dez
uma de grã pequenhez,
surgiu com potência insana.

7 Que esta ponta tão pequena,
mas tão potente, e tão forte
a três das grandes deu morte
cruel, afrontosa, e obscena:
quer dizer, que a sarracena
potência, ou poder tirano
do pequeno Maometano
tirara a seu desprazer
as três partes do poder
do grande império Romano.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1718192021...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →