Por Machado de Assis (1872)
— Não receou que este menino pudesse dizer alguma cousa? perguntou Félix.
— Não pensei nisso. Fui visitar Raquel, que está muito mal; fui só com ele. Tinha a idéia de vir As Laranjeiras: isso dominava tudo. Se conseguir dissipar-lhe as novas dúvidas que o afligem, pouco me importam as conseqüências. Que quer? Eu sou assim. Vejo no mundo o meu amor e a sua felicidade; tudo o mais me é estranho ou nulo. Lívia dizia estas palavras com um tom singelo e verdadeiramente d'alma, que comoveu o médico.
— Oh! para isso basta uma cousa, disse Félix com impetuosidade. Jura-me que nenhuma razão havia para suspeitar?
Lívia abriu muito os olhos como espantada do que ouvira; depois abanando tristemente a cabeça:
— O senhor há de quebrar todo o meu orgulho, disse com amargura. Eu arrisco tudo para lhe restituir a felicidade e a paz; o senhor recompensa-me este sacrifício com a humilhação. Jurar-lhe! De que serve um juramento mais entre nós? Se o que acabo de fazer não é bastante, Félix, concluamos aqui o nosso romance; e oxalá que alguma página dele possa algum dia lembrar-lhe com saudade.
Dizendo estas palavras, a moça voltou o rosto para esconder a sua comoção. Félix sentiu pungir-lhe um remorso, e teve ímpeto de cair aos pés da bela viúva. Murmurou algumas palavras,- que ela não percebeu ou não ouviu, até que o menino chamou a atenção de ambos, dizendo:
— Vamos, mamãe?
Lívia levantou-se e desceu o véu sobre o rosto.
— Perdoe-me tudo, disse Félix; ainda uma vez lhe peço perdão. Não me julgue como os outros fariam, se conhecessem esta triste história de alguns meses. Não sou mau; falta me confiança; algum dia lhe direi por quê. Por agora, perdoe-me outra vez. Injuriei-a, bem sei; não devia pedir-lhe nada mais, porque me deu generosamente a maior consolação que o meu espírito ousaria esperar.
— Esse homem? disse a viúva, depois de um instante.
— Por que me pergunta?
— Quero afastá-lo de minha casa, se ele lá vai, ou evitar as ocasiões de me encontrar com ele.
— É um homem que a não respeita, sequer, um libertino, cuja mulher é um anjo...
— O Dr. Batista?
— Esse.
Lívia estendeu-lhe a mão. Félix quis ainda falar-lhe, mas a viúva observou que era tarde e dirigiu-se para a porta. Félix acompanhou-a até o jardim. Ao despedir-se dela pela última vez, o médico apertou-lhe Félix fervorosamente a mão.
— Perdoa-me?
— Sim! disse ela.
E pela primeira vez nessa noite era a sua voz terna e amorosa como de costume. Félix viu-a entrar no carro que partiu imediatamente. Voltou para a sala. Estava irritado contra si mesmo. Reconhecia a sua precipitação; achava-se grosseiramente injusto. Se lhe houvera lembrado a visita da moça, tê-la-ia pedido como o meio único de lhe desvanecer de todo as suspeitas. Agora que ela o deixava, acusava-se de a haver obrigado àquele extremo recurso.
A noite pareceu-lhe ainda mais longa que o dia. Velava e remordia-lhe a consciência. Ouviu bater uma por uma as horas todas. ansioso por que viesse o dia seguinte para ir a Catumbi resgatar a força de ternura e respeito a injustiça com que tratara a viúva. Cerrou os olhos quando a arraiada despontou no céu; pouco dormiu entretanto. Ao levantar-se tinha o espírito mais sossegado, e pôde apreciar melhor a situação.
"O casamento me restituirá a confiança, pensava ele; quando estivermos juntos os dous, afastados da convivência e do contato de estranhos, a paz morará no meu coração; só então seremos felizes sem amargura nem remorso."
CAPÍTULO X / A ENFERMA
A DOENÇA de Raquel era grave; durante alguns dias chegaram a recear um desenlace funesto. Os velhos pais quase enlouqueceram, quando o médico os preparou para a terrível catástrofe. A menina percebeu o seu estado, mas nem o medo da morte, nem a saudade da terra lhe fez doer o coração. Morria como flor que era. A mágoa era toda para os que a viam assim condenada sem remédio.
O médico assistente dera à moléstia um nome tirado não sei se do grego, se do latim. Na opinião da mãe, havia alguma cousa mais do que o nome e a moléstia; havia uma inexplicável melancolia, anterior à doença, uma espécie de tédio precoce da vida, se não era antes alguma esperança malograda, - ou mais claramente, alguma afeição sem esperança.
Para obter dela a confissão que imaginava, tinha D. Matilde o necessário tato e doçura; era mulher e mãe. Mas, ou porque nada houvesse realmente, ou porque quisesse levar consigo o segredo da sua melancolia, Raquel nenhuma confissão lhe fez. Dous dias depois da visita de Lívia, Félix foi a casa do coronel O coronel estava na sala, mergulhado numa poltrona, com os olhos parados e as feições abatidas pela vigília e pela dor. Quis levantar-se quando Félix apareceu à porta, mas este correu para ele e impediu o movimento.
— Soube anteontem do estado de sua filha, disse Félix sentando-se ao lado do velho pai. Disseram-me que estava mal...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.