Por Machado de Assis (1872)
— Caso-me por duas razões: a primeira é para acabar com os pretendentes à minha mão, continuou Augusta.
— E os pretendentes ao coração?
— Oh! esses!
— A segunda razão qual é?
— A segunda razão, continuou Augusta, é que o melhor meio de esquecer... A moça hesitou.
— Acaba! disse Amélia.
— Escute, minha amiga; é um segredo que só aqui ficará. Sabe a quem é que eu amava e amo deveras?
— Ao Daniel?
— Sim.
— Eu desconfiava.
— Só aquele orgulho misturado de indiferença podia domar a minha indiferença e o meu orgulho.
— Mas então?...
— Então, é que tendo recusado sempre o que ele pediu, que era a minha mão e meu coração, cheguei um dia a oferecer-lhos.
— E ele?
— Recusou.
— Pelintra!
— Não; era justo; a culpada foi eu. Mas agora é preciso carregar a minha cruz. Quero ir para o Norte já e ver se esqueço isto...
— O Luís há de ajudá-la a esquecer o amor de Daniel.
— Qual! disse Augusta com um gesto de tanta indiferença que seria capaz de gelar o Vesúvio em horas de explosão.
— Acabou-se a valsa, vamos passear, disse Amélia.
E saíram da sala.
Apenas transpuseram a soleira, saiu de um gabinete contíguo um homem que ali se achava, algum tempo antes de lá entrarem as duas raparigas.
Era Luís.
O gabinete era o lugar em que trabalhava ou lia o tio de Augusta. Precisando escrever um bilhete, Madalena o levou ali, onde se achava quando as duas moças chegaram. Quando entrou na salinha, estava lívido.
Tinha ouvido a verdade mais cruel de todas; uma mulher que fingia gostar dele, sendo indiferente; que se casaria com ele para escapar aos pretendentes, e que, casando-se, levava no coração a lembrança e o amor de outro.
Luís ficou atordoado com o que ouvira; a sua primeira idéia foi aparecer no meio das duas moças, quando elas confidenciavam; mas reconheceu que isso apenas o exporia ao ridículo.
Quando percebeu que elas tinham saído, fugiu do gabinete, onde abafava. As duas moças, como disse, tinham já saído; Luís ainda viu de longe a formosa cabeça de Augusta, dominando as outras como a de uma rainha.
Deu alguns passos cambaleando; depois atravessou a sala grande, e, sem que ninguém o percebesse, foi-se embora.
Durante a primeira meia hora, não se reparou na ausência dele. Mas, afinal, descobriu-se que Luís tinha saído.
— Sem dizer-mo! pensou Augusta. É singular!
No dia seguinte, Luís amanheceu doente; uma febre grave se declarou que o prostrou de cama oito dias. Mas era robusto e o organismo resistiu triunfante ao mal. Quando se levantou, escreveu o seguinte bilhete a Augusta:,
Minha senhora,
Ouvi tudo por simples acaso; é-me impossível satisfazer-lhe o desejo de casar por esquecer. Adeus.
Luís.
A carta não produziu grande comoção em Augusta; mas esta sentiu-se. Pela primeira vez, achou-se humilhada; argüia-lhe a consciência.
XXIII
Repelindo os que a amavam, leviana em suas ações, dotada de um caráter orgulhoso e altivo, Augusta teve o castigo dos próprios erros.
A carta de Luís inspirou-lhe a idéia de não casar mais.
E cumpriu a resolução.
Ninguém deve imitar Augusta; é um desses tipos raros, extravagantes, que nunca podem ser a esposa amante, nem a mãe carinhosa; em suma, é a mulher sem nenhum traço augusto.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.