Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

2 Inda que pareça nova,
Senhora, a comparação,
É semelhante ao Furão,
que entra sem temer a cova:
quer faça calma, quer chova,
nunca receia as estradas,
mas antes se estão tapadas,
para as poder penetrar,
começa de pelejar
como porco às focinhadas.

3 Este lampreão com talo,
que tudo come sem nojo,
tem pesos como relojo,
também serve de badalo:
tem freio como cavalo,
e como frade capelo,
é cousa engraçada vê-lo
ora curto, ora comprido,
anda de peles vestido
curtidas já sem cabelo.

4 Quem seu preço não entende,
não dará por ele nada,
é como cobra enroscada,
que em aquecendo se estende:
é círio, quando se acende,
é relógio, que não mente,
é pepino de semente,
tem cano como funil,
é pau para tamboril,
bate os couros lindamente.

5 É grande mergulhador,
e jamais perdeu o nado,
antes quando mergulhado
sente então gosto maior:
traz cascavéis como Assor,
e como tal se mantém
de carne crua também,
estando sempre a comer,
ninguém Ihe ouvirá dizer,
esta carne falta tem.

6 Se se agasta, quebra as trelas
como leão assanhado,
tendo um só olho, e vazado,
tudo acerta às palpadelas:
amassa tendo gamelas
doze vezes sem cansar,
e traz já para amassar
as costas tão bem dispostas,
que traz envolto nas costas
fermento de levedar.

7 Tanto tem de mais valia,
quanto tem de teso, e relho,
é semelhante ao coelho,
que somente em cova cria:
quer de noite, quer de dia,
se tem pasto, sempre come,
o comer Ihe acende a fome,
mas às vezes de cansado
de prazer inteiriçado
dentro em si se esconde, e some.

8 Está sempre soluçando
como triste solitário,
mas se avista seu contrário,
fica como o barco arfando:
quer fique duro, quer brando,
tem tal natureza, e casta,
que no instante, em que se agasta,
(qual Galgo, que a Lebre vê)
dá com tanta força, que,
os que tem presos, arrasta.

9 Tem uma contínua fome,
e sempre para comer
está pronto, e é de crer,
que em qualquer das horas come:
traz por geração seu nome,
que por fim hei de explicar,
e também posso afirmar,
que sendo tão esfaimado,
dá leite como um danado,
a quem o quer ordenhar.

10 É da condição de Ouriço,
que quando lhe tocam, se arma,
ergue-se em tocando alarma,
como cavalo castiço:
é mais longo, que roliço,
de condição mui travessa,
direi, porque não me esqueça,
que é criado nas cavernas,
e que somente entre as pernas
gosta de ter a cabeça.

11 É bem feito pelas costas,
que parece uma banana,
com que as mulheres engana
trazendo-as bem descompostas:
nem boas, nem más respostas
Ihe ouviram dizer jamais,
porém causa efeitos tais,
que quem exprimenta, os sabe,
quando na língua não cabe
a conta dos seus sinais.

12 É pincel, que cem mil vezes
mais que os outros pincéis val,
porque dura sempre a cal,
com que caia, nove meses:
este faz haver Meneses,
Almadas, e Vasconcelos,
Rochas, Farias, e Teles,
Coelhos, Britos, Pereiras,
Sousas, e Castros, e Meiras,
Lancastros, Coutinhos, Melos.

13 Este, Senhora, a quem sigo,
de tão raras condições,
é caralho de culhões
das mulheres muito amigo:
se o tomais na mão, vos digo,
que haveis de achá-lo sisudo;
mas sorumbático, e mudo,
sem que vos diga, o que quer,
vos haveis de oferecer
a seu serviço contudo.

A HUMA DAMA QUE LHE MANDOU HUM CRAVO EM OCCASIÃO, QUE SE LHE
QUEIXAVA DE CERTO AGGRAVO.

1 Nise, vossa formosura
queixosa de certo agravo
me dá hoje uma no cravo
e a outra na ferradura:
uma verde, outra madura
achei no vosso craveiro,
que o cravo é favor inteiro;
mas cravo com queixa ao pé
é o mesmo que dizer, que
o gosto não, mas o cheiro.

2 Que mal fica ao meu intento,
que o cheiro me queirais dar?
dai-mo vós sempre a cheirar,
que eu co cheiro me contento:
quando um roçagante vento
passa de uma em outra rosa,
e de cada flor cheirosa
Ihe leva a fragrância inteira,
se assim por seu modo a cheira,
também por seu modo a goza.

3 Se com soberba, e jactância
de uma flor tão rescendente
me dais o cheiro somente,
eu tomo a flor, e a fragrância:
se eu entrar na verde estância,
onde Amor vos tem disposto,
crede do meu bom suposto,
que em vendo o vosso craveiro,
Ihe hei de tomar não só o cheiro,
mas hei de tomar-lhe o gosto.

4 Hei de ser como o vilão,
e com boa, ou com má fé,
se vós me deres o pé,
vos hei de tomar a mão:
e se nem o pé me dão
vossos rigores tão vãos,
tão ímpios tão maus cristãos,
nem por isso afrouxarei,
porque outro pé buscarei,
para beijar-vos as mãos.

5 Se o cheiro agora me toca,
logo o gosto me dareis,
que vós, Nise, bem sabeis,
que ao nariz se segue a boca:
nunca o bocado se emboca,
sem que se cheire primeiro,
agora me dais o cheiro,
e depois que eu o cheirar,
sei mui bem, que me heis de dar
o vaso, e mais o craveiro.

6 Depois que o vaso tiver,
que me dará vosso amor,
hei de colher-vos a flor,
se no vaso flor houver:
se não sempre sois mulher,
que na cabeça vos entre
ser justo, se reconcentre
minha carne em vossa olha,
com que em vez de flor eu colha
um fruito de vosso ventre.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1617181920...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →