Por Machado de Assis (1872)
Faltava-lhe, - e ainda bem que lhe faltava, - aquela curiosidade funesta com que o anfíbio clássico, desenganado do cepo, entrou a pedir um rei novo, e veio a ter uma serpente que o engoliu. A virtude salvou-a da queda e da vergonha. Lastimava-se, talvez, no refúgio do seu coração, mas não fez imprecações ao destino. E como nem tinha força de aborrecer, a paz doméstica nunca fora alterada; ambos podiam dizer-se criaturas felizes.
Ora, pois, enquanto Clarinha nenhum lugar ocupava no espírito do maridos este executou o plano que havia organizado. O resultado foi lento, mas certo. O coração de Félix bebeu aos poucos o veneno que lhe propinava tranqüilamente o astuto rival; mil circunstâncias fortuitas vieram favorecer a obra de Luís Batista. O espírito de Félix era apropriado terreno para ela; a suspeita rara vez lhe morria em embrião; uma vez lançada a semente, germinava com força, crescia, apoderava-se dele, e então batia a- hora da crise, a hora que o seu rival pacientemente esperou, e conseguiu.
Desta vez assentou Félix numa resolução heróica: romper o encanto que o prendia à bela viúva. Tinham já passado alguns meses, todos eles assim entremeados de felicidade e amargura. Cem vezes se convencera das suas injustiças; mas a cada suspeita nova ressurgiam as anteriores as que ela perdoara, e a última confirmava então as primeiras, e o pobre rapaz achava-se sinceramente ludibriado e ridículo.
Escreveu uma carta longa e violenta, em que acusava a moça de perfídia e dissimulação. Havia amargura na carta, mas havia também ódio e desprezo, tudo quanto podia ferir para sempre um coração que até ali soubera amar e sofrer, mas que enfim podia cansar e desprezar.
Enviada a carta, deixou-se ele entregue à sua dor, disposto a não voltar a Catumbi Ninguém viu então uma lágrima que o desespero lhe arrancou; e que ele se apressou de enxugar com vergonha de si mesmo. Recapitulou então todos os sucessos dos últimos aliás, nunca lhe parecera mais evidente a, traição da moça, nem mais cruel a situação do seu espírito. Um raio de esperança veio entretanto projetar-se na sua noite de dúvidas. Imaginou que tudo podia ser erro e ilusão, e, esperou, que a resposta de Lívia tudo viesse esclarecer.
Não esclareceu a resposta da moça, porque o portador da carta voltou sem ela. Ao ciúme que o devorava, veio misturar-se o despeito; complicou-se a dor com o orgulho ofendido. Lívia apareceu-lhe com todos os caracteres de uma loureira vulgar, e loureira não traduz bem o pensamento do moço.
Nesse estado passou Félix o resto do dia. Longas lhe correram as horas, friamente longas como elas são, quando o coração padece ou espera. Enfim, caiu a tarde, apagou se de todo o sol, as sombras da noite começaram a lutar com os derradeiros lampejos do crepúsculo, até que de todo dominaram o céu.
A melancolia da hora insinuou-se no coração do médico, e a pouco e pouco lhe aquietou o desespero do dia. Félix meditou longo tempo na situação que as circunstancias lhe haviam criado. Viu o imenso espaço que aquele amor lhe tomara na vida, e a terrível influência que poderia exercer nela, caso não achasse forças para resistir à separação. Qual seria o meio de escapar a esse desenlace pior que tudo? Félix pensou numa viagem, como o meio mais fácil e pronto. Dispunha mentalmente as cousas para esse fim, quando ouviu parar um carro.
Daí a pouco entrou um escravo dizendo que uma pessoa insistia em falar-lhe: era uma senhora.
— Uma senhora! repetiu Félix.
Era Lívia. Quando Félix chegou à sala, estava ela à porta, com o rosto coberto por um véu que arregaçou imediatamente. Félix não pôde reter um grito de surpresa. Lívia trazia pela mão um menino: era o filho. Caminhou para o médico depois de alguns instantes de absoluto silêncio, e estendeu-lhe a mão.
— Não esperava a minha visita? disse ela com tranqüilidade.
— Confesso que não.
— Devia esperar, porque eu não havia respondido à sua carta, e alguma cousa cumpria que lhe dissesse.
— Não receou que os olhos da sociedade... disse ele.
— A sociedade está tomando chá, atalhou a viúva procurando sorrir. Era preciso que eu viesse e vim.
Félix fez um movimento.
— Sim, era preciso, insistiu Lívia. Uma carta seria já inútil; entre nós as cartas perderam a virtude, Félix. Eu já não sei, já não tenho palavras com que lhe restitua a confiança ao coração. Esta ousadia talvez. . .
A luz batia de chapa no rosto da moça; Félix viu tremerem-lhe duas lágrimas nos olhos, hesitarem um instante, e rolarem depois na face, levemente corada de agitação e de pejo.
— Fui talvez cruel no que lhe escrevi, disse ele, e quero crer que fosse também injusto, mas amo-a, é todo o meu crime...
Lívia suspirou.
— Não o amo eu também? disse ela. Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas não o acuso; se o acusasse não viria aqui. Venho porque sei que padece, e a despeito de tudo devia vir.
Félix conduziu-a para o sofá, e sentou-se numa cadeira. Luís ficou de pé, entre ele e ela, meio indiferente, meio curioso do que ouvia sem entender.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.