Por Machado de Assis (1872)
Daniel mostrou-se amável com todos. Augusta não demonstrou o menor sintoma de desagrado, em relação ao rapaz.
Será isto natural? ou é simplesmente hipocrisia? perguntava Daniel consigo. Luís estava radiante de amor. Já para ele não havia dúvida de que triunfava finalmente a sua perseverança.
A presença de Daniel que, em outra época, o incomodara, já agora lhe era indiferente. Por sua parte, Daniel conhecia pelo ar de Luís que a situação estava toda a seu favor. Não quis disputar-lha.
Somente, refletiu um pouco sobre a facilidade com que Augusta passava de um a outro namoro.
A coisa não seria de admirar noutra mulher; mas na orgulhosa Augusta!
XXI
Daniel ao entrar em casa recebeu uma carta que lá deixara Valadares. Besta vez, o janota ia divorciar-se da mulher.
Daniel sorriu e atirou a carta a um lado; mas no dia seguinte de manhã, apenas saiu à rua, recebeu a notícia como certa.
Tinham-se finalmente separado aquelas duas almas que não foram feitas para ser unidas, apesar da conformidade das tendências que se notava entre ambas. O próprio Valadares veio confirmar a notícia.
Daniel encontrou-o no Rocio, junto à esquina do Clube Fluminense.
— Sabes, meu rico Danie1?
— O quê?
— Que eu vou pôr a sela à margem, a sela é minha mulher.
— Tu és o burro, disse Daniel rindo.
— Com três r r r.
— Mas eu ouvi dizer que já estavam separados?
— Já me mudei de casa; agora vamos tratar judicialmente do divórcio.
— Mas já pensaste nisto maduramente?
— Já pensei demais; se me não separo tão depressa, iria para o hospício.
— Se lá estivesses há mais tempo, não te casavas.
— Isso é verdade...
Despediram-se.. Daniel foi rindo interiormente da situação de Valadares. Na primeira vez em que se achou em casa de Augusta, encontrou lá Amélia. A mulher de Valadares estava alegre como se não se houvesse dado na sua vida acontecimento de grande monta.
Daniel não lhe disse nada; mas Amélia, na primeira ocasião em que se achou com ele mais separada dos outros, contou-lhe a mesma coisa que o marido, com a diferença de que desta vez a vítima era ela e não ele.
Daniel ouviu como amigo a narração que Amélia lhe fazia, mas absteve-se de dar resposta nenhuma.
— Tudo isto, pensava ele consigo, voltando para casa, são argumentos para não casar nunca!
Anunciou-se um grande baile dado pelo tio de Augusta que se retirava com toda a família para a província. O velho deputado não era dado a essas coisas; mas, a pedido da sobrinha, fez tudo o que ela lhe indicou.
Augusta queria ter na corte um último triunfo.
Com efeito, na noite do baile esteve esplêndida. Tinha o condão de ser elegante, com simplicidade. Sobrava-lhe gosto. E tudo quanto podia fazer, fê-lo para aquela noite, que devia ser a sua última campanha.
Luís ficou deslumbrado, quando a viu entrar na sala, e não menos deslumbrado ficou Daniel.
A moça aceitou Daniel para seu primeiro par.
— Sabe que está deslumbrante? disse-lhe o rapaz, tomando o lugar na quadrilha.
— Deveras?
— É o que lhe digo. Demais, já todos os olhos lhe estão dizendo isto mesmo. Depois dos antecedentes havidos entre Daniel e Augusta, era impossível que fossem mais familiares.
Posto que Luís tivesse já grandes esperanças, com visos de certeza, de dominar completamente o coração de Augusta, todavia estava um pouco incomodado com as atenções que a moça tinha para com Daniel.
Tudo, porém, desapareceu, quando Augusta o aceitou para par da seguinte quadrilha.
— Não tive a satisfação de dançar a primeira, disse Luís, mas espero que me conceda a segunda.
— Não nos compromete isso? disse Augusta.
— Por quê?
— Dizem que a segunda quadrilha é dos namorados.
Luís sorriu cheio de satisfação.
— Dizem, é verdade, respondeu ele sem saber bem o que dizia.
No correr da quadrilha, desapareceu a menor sombra de susto de Luís. Augusta estava mais do que nunca amável com ele.
XXII
Justamente no fim da quadrilha, entrou na sala Amélia Valadares, sem o marido. Já sabemos que Amélia era bonita; sabia vestir-se, exagerando um pouco as modas, é verdade; naquela noite, vinha bem; não havia exageração e havia, portanto, elegância. Poucas pessoas sabiam até então da resolução tomada entre ela e o marido para se separarem. Por isso, foi-lhe fácil responder aos que lhe perguntavam por Valadares:
— Foi a um jantar político. Virá logo.
Desculpem a leviandade da rapariga; ela não dava mais de si.
Quando Amélia entrou, viu Augusta pelo braço de Luís, conversando amigavelmente com ele; pela noite adiante, reparou nessa intimidade maior que a que até então existia.
— Será amor? perguntou ela consigo.
Na primeira ocasião que teve para conversar mais largamente com Augusta, aproveitou-a. Foram para uma pequena sala de descanso, e aí, enquanto se dançava uma valsa, sentaram-se as duas num sofá.
— Dou-lhe os meus parabéns, disse Amélia.
— Por quê?
— Está de namoro e casamento pronto.
— Nem namoro, nem casamento, respondeu Augusta.
— Mas há esperanças de união?
— Isso sim.
— Logo...
— Quer que lhe diga uma coisa? É natural que eu acabe casando com o Luís, mas não é por amor dele...
Amélia, neste ponto, pensou em Valadares.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Qual dos dois. Rio de Janeiro, 1872.